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Iraque |
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12/08/2005 significar a diferença
entre a vida e a morte Foi a mesma aterragem lunática e em espiral a bordo do mesmo pequeno avião libanês, enfrentando a tempestade de areia do aeroporto de Bagdade. Pilotando o seu avião de propulsores gémeos com 20 passageiros – da Flying Carpet Airlines [Linhas Aéreas Tapete Voador], nada menos – o capitão Hussam tem três coisas em mente: os helicópteros norte‑americanos, os aparelhos de reconhecimento sem piloto e possíveis ataques com míssil. Assim, todos olhamos detidamente a pista de aterragem de cor parda, os terminais e os bairros pobres dos arredores do aeroporto procurando a delatora pequena flama rosada que, segundo pilotos sobreviventes a ataques, anuncia o disparo de um míssil. Mas aterrámos a salvo e um velho autocarro levou‑nos ao terminal onde saudei com Salaam Aleikum o agente aduaneiro e ele me perguntou alegremente se eu era muçulmano. «Inglês», respondi-lhe, o que pareceu ser suficiente para ele. Não pôde romper a corda de segurança da linha aérea na minha mala, por isso indicou‑me que passasse. Depois veio a Estrada do Aeroporto. Todos precisamos de a referir com maiúsculas hoje em dia. Como muito bem disse o meu colaborador iraquiano: «É na realidade apenas uma questão de sorte». Às vezes deslizamos com plena segurança até à cidade, às vezes somos apanhados num tiroteio, às vezes – como a pobre Marla Ruzicka, a jovem norte‑americana que tentou contar vítimas – estamos demasiado perto de um ataque suicida. «Estou viva», gritou imediatamente antes de morrer. Por isso, concentramo-nos muito na Estrada do Aeroporto. Os norte‑americanos colocaram um esquadrão de veículos de combate Bradley no separador central e unidades do exército iraquiano a cada lado da estrada. Mas mesmo assim continuam a ser bombardeados. «O exército iraquiano é uma anedota», disse‑me um vendedor norte‑americano de computadores em Bagdade. «Foi o exército iraquiano que me raptou perto de Nasiriyah. Tentaram vender‑me aos insurgentes por 10.000 dólares. Depois um dos meus empregados veio e disse ao oficial que sou metade iraquiano, que fui levado para os Estados Unidos enquanto criança, que sou membro do clã Dulaimi – e não se rapta dulaimis – e o oficial não sabia ler inglês, por isso não sabia o meu nome verdadeiro». Assim, não estou desejoso de parar nos postos de controle iraquianos. Conduzimos atravessando o rio Tigre, passámos por um polícia de capuz – polícias e insurgentes ambos usam capuzes, o que torna a vida um pouco cansativa – e chegámos ao pequeno e sombrio hotel em que o The Independent tem o seu escritório. Segurança reforçada agora. Mais homens armados nos portões – a maioria são curdos – e um guarda que quer revistar a minha mala. Também ele não pôde romper o laço de segurança da linha aérea na minha mala, e indicou‑me que passasse. Assim que um pedaço de corda impediu duas vezes que me revistassem a bagagem. Muito reconfortante. O meu colaborador iraquiano ofereceu‑se para me comprar víveres, mas decidi que devo comprá‑los eu mesmo. Logo que permitimos que os iraquianos nos comprem a comida nas ruas, nos digam o que as pessoas estão a dizer, voltem para nós com as suas observações, entramos na estufa do jornalismo de hotel, do repórter com telemóvel preso no seu quarto que bem poderia estar a transmitir notícias ou escrevendo do condado Mayo. Assim, escapulimo‑nos por ruas secundárias até à mercearia Warda, em Karada. É uma rua larga com muitos homens enlanguescendo nos passeios, muitos segurando telemóveis. É assim que se faz nestes dias. Um fulano com telemóvel vê uma patrulha norte‑americana, uma unidade da polícia, um estrangeiro, prime o botão de marcar e um montão de pistoleiros de carro não longe daí dão a volta para se fazerem estourar ou raptar o estranho – por dinheiro, para executá‑lo, por motivos políticos. O diplomata egípcio assassinado no mês passado tinha parado numa banca de jornais. Digamos, “10 minutos”. É tudo o que tenho na mercearia. Açúcar, pão árabe – há uma fila enorme, por isso furo entre as pessoas e agarro duas fogaças e ouço alguém sussurrar ajnabi (estrangeiro), e avanço para as garrafas de água Perrier, as frutas enlatadas, as sardinhas, e empurro até ao balcão. Oito minutos. «Troco em dinheiro iraquiano?». «Não importa». Resposta errada. Demasiado desesperada. Devia ter dito «iraquiano». Três garrafas de água engarrafada. Nove minutos. O tempo acabou. Para fora, para o calor de forno, entro no carro, uma volta apertada à direita, para outro beco. Dez minutos. Consegui. O meu colaborador olha para mim da parte dianteira do carro – eu estou no assento de trás, lendo um jornal árabe para esconder parcialmente a minha cara – e coloca o seu dedo no ar. «Outro atentado suicida em Bagdade. Um ataque contra uma patrulha policial. Quatro agentes mortos». Bem-vindo de volta à cidade das mil e uma noites. |