Informação Alternativa

Médio Oriente

13/07/2005

 

O vice­‑primeiro­‑ministro do Líbano sobrevive a uma tentativa de assassinato

 

Robert Fisk

 

A trama adensa­‑se. Cada três semanas, um assassinato. Mas a pretendida vítima de ontem – pois Elias Murr sobreviveu – era um ex ministro da Defesa pró­‑sírio, vice­‑primeiro­‑ministro de saída e genro do ainda mais pró­‑sírio presidente libanês Emile Lahoud.

 

Quem pode alegar que Damasco queria assassinar um dos seus protegidos?

 

A explosão no carro foi enorme e uma limousine blindada foi envolvida em chamas por causa dos explosivos. Um trabalho de profissionais. Mas quem? E porquê?

Murr resultou ferido mas não pereceu pela bomba, que estourou quando a sua comitiva – mais pequena do que a comitiva em que o antigo primeiro­‑ministro Rafiq Hariri foi assassinado juntamente com outras 20 pessoas em 14 de Fevereiro [1] – passava por uma rua estreita no subúrbio oriental de Rabieh, perto de sua casa.

 

Como Murr conseguiu sobreviver – guiava o seu próprio Porsche Cayenne que quase foi pulverizado pelos explosivos – permanece um mistério. Dois civis, incluindo um ancião, ficaram despedaçados na rua, e 12 outros resultaram feridos.

 

Os restos da explosão e o sangue estavam cobertos por pétalas de cor rosada e carmim, uma chuva de buganvílias que explodiu das árvores e dos arbustos para a rua, abençoando a devastação com uma estranha beleza.

 

É um bairro calmo de embaixadas – a esposa do embaixador do México esteva entre os feridos. Murr, um cristão, guiava regularmente por aí, frequentemente à mesma hora todos os dias: os assassinos gostam das pessoas que são regulares nos seus caminhos para casa. E, evidentemente, na hora, as especulações começaram.

 

Murr e o seu pai acederam a figurar na lista de candidatos do ex rebelde (e anti­‑sírio) general Michel Aoun nas eleições gerais do mês passado. Tinha isto ofendido os sírios? O suficiente para tratar de matar o genro do presidente? Não é muito provável.

 

Depois há a teoria da Al Qaeda. Em setembro, Murr disse ter descoberto uma conspiração para fazer explodir as embaixadas da Itália e da Ucrânia em Beirute – isto foi novidade para as embaixadas – e deteve 10 islamitas alegadamente próximos a Osama bin Laden.

 

Um deles, Ismail Mohamed al-Khatib, o qual as autoridades alegavam que dirigia uma rede da Al Qaeda, morreu em custódia policial. Um ataque cardíaco, segundo foi alegado. O ministro do Interior foi criticado. As pessoas não morrem de “ataques do coração” nas estações de polícia libanesas; a não ser que alguém lhes faça algo horrível. Por conseguinte, foi isto uma vingança da Al Qaeda?

 

Depois houve a explicação menos sinistra. Os políticos libaneses são com frequência homens de negócios. Podem ter havido disputas, contas a ajustar.

 

A Síria denunciou a tentativa de assassinato. Saad Hariri, filho do ex primeiro­‑ministro assassinado, falou de «uma mão secreta que quer minar a estabilidade... desatar o caos no [Líbano]». Da sua cama de hospital, Murr, ferido na cara e nas pernas, declarou que «o país passa por um período difícil e todos temos de encarar isso».

 

_______

[1] Por lapso, a transcrição do artigo de Fisk indica a data de 16 de Fevereiro (n. IA).