Informação Alternativa

Médio Oriente

25/06/2005

 

Entre os horrores do Médio Oriente,

é estranho ouvir falar da “crise” europeia

 

Robert Fisk

 

“Em que mundo vivem vocês os europeus? Que tolice é essa de a Europa se estar a desfazer?” Estávamos a almoçar a apenas cem de metros da cratera deixada pela bomba que matou o antigo primeiro­‑ministro do Líbano em Fevereiro passado. O restaurante ficou quase destruído pela explosão e os empregados portam as cicatrizes. O chefe de mesa da Paillotte tem um profundo, muito doloroso corte na bochecha direita. O meu anfitrião ainda estava espantado: “Vocês vivem no planeta Terra?” perguntou.

 

Bom ponto. Quando abro os jornais europeus que chegam aqui a Beirute, leio sobre o caos europeu, sobre as rejeições da Constituição em França e na Holanda, sobre o possível rompimento da EU, sobre o retorno da lira (de todas as moedas, a mais absurda!), de duelos aos gritos em Bruxelas (de todas as cidades, a mais absurda!), sobre reembolsos. «Blair diz à Europa que deve “renovar-se”», informa-me o International Herald Tribune. «Brown lança uma severa advertência à EU», a manchete do meu próprio jornal. Só os europeus de leste, segundo parece, gostam da União Europeia. E parte da resposta à pergunta do meu amigo libanês pode residir entre os fantasmas da Europa de leste. Mas os jornais ocidentais, quando chegam a Beirute, contêm em si uma perversidade terrível.

 

Ontem, por exemplo, os diários libaneses, como outros no mundo árabe, publicaram uma fotografia que nenhuma publicação ocidental se atreveria a mostrar. Pelo menos a quarta parte de uma primeira página foi aqui dedicada a este horror. Mostrava um homem iraquiano entre os destroços da explosão de uma bomba, tentando ajudar um menino de 12 anos a levantar­‑se. Não exactamente; porque a perna esquerda do menino tinha sido arrancada logo abaixo do joelho e, por baixo da sua face em agonia, estava de facto, a cores, o coto sangrento, algo digno de um açougue, um enorme bocado de osso vermelho e nervos e carne pendurada.

 

Laith Falah, um dos afortunados iraquianos “libertados” por nós em 2003 ia na sua bicicleta a uma padaria de Bagdade para comprar pão para os seus pais e três irmãs. Para ele, para os seus pais e três irmãs, para todos os iraquianos, para os árabes, para o Médio Oriente, para o amigo com quem almoçei, os problemas da UE parecem tão absurdos como Bruxelas e a lira.

 

Então, por que é que nós, os europeus, já não podemos compreender a nossa paz e contentamento e segurança e os nossos luxos extraordinários e os nossos padrões de vida futuristas e a nossa boa fortuna digna de deuses e as nossas vidas longas e maravilhosas? Quando chego a Paris pela Air France e abordo o combóio RER para a cidade, quando tomo o Eurostar para Londres e sorvo o meu café enquanto o combóio passa assobiando através dos enormes cemitérios militares no norte de França, onde jazem muitos dos amigos do meu pai, vejo os rostos tristes e franzidos dos europeus como eu, pesados pelo fardo de viver no belo Primeiro Mundo, desfeitos pelas jornadas mínimas de trabalho e pelas leis de direitos humanos e pelo tipo de protecções que estão para lá da imaginação das pessoas entre as quais eu vivo.

 

E quando o combóio se aproxima de Waterloo e consigo ver de relance o Tamisa e o Big Ben, e sei que me enrolarei nessa noite na cama mais macia do mais pequeno Sheraton do mundo (fica em Belgravia), telefono a um amigo do meu telemóvel, um iraquiano que está a tentar emigrar para a Austrália ou o Canadá – ainda não decidiu qual, mas eu já lhe disse que no primeiro lugar vai fazer muito calor e no segundo muito frio – e ele diz­‑me que não pode sequer cruzar a fronteira para a Jordânia para visitar a embaixada australiana. Para ele não há Eurostars.

 

Estranhamente, e isto é parte da perversidade que os nossos jornais reflectem fielmente – queremos acreditar que o Médio Oriente está a melhorar. O Iraque é a democracia mais jovem do mundo; os nossos soldados estão a ganhar a guerra contra os insurgentes – pelo menos já admitimos que é uma guerra – e o Líbano é livre e o Egipto cedo será mais democrático e mesmo os sauditas toleraram uma eleição há um par de meses. Israel retirar­‑se­‑á de Gaza e o “mapa de rota” para a paz será posto em marcha e haverá um Estado palestino e...

 

São disparates, evidentemente. O Iraque é uma caldeira de dor e medo, a insurreição torna­‑se mais sangrenta a cada dia que passa, o povo do Líbano está sob ataque, o Egipto de Mubarak é um abismo de opressão e pobreza, e a Arábia Saudita é – e continuará a ser – uma monarquia absoluta e iconoclasta. «Toma o maior cuidado», disse esta semana a um amigo advogado libanês, cujo perfil político é exactamente igual ao do jornalista e ao do ex líder do Partido Comunista que foram assassinados em Beirute este mês. «Tu também», disse. E eu sentei­‑me e reflecti sobre isso durante algum tempo.

 

Talvez nós, os europeus, precisemos de acreditar que o Médio Oriente é um manancial de esperança para nos podermos concentrar na nossa própria dor afortunada. Talvez nos ajude sentirmo-nos desgraçados, amaldiçoar os nossos privilégios e odiar a nossa vida gloriosa se nos persuadirmos de que o Médio Oriente é um paraíso de crescente liberdade e libertação do medo. Mas porquê? Mentimos a nós próprios sobre a tragédia do Médio Oriente e depois mentimos a nós próprios sobre o paraíso que é viver na Europa.

 

Talvez a Segunda Guerra Mundial esteja já muito longínqua. Quase exilada da memória viva, o verdadeiro inferno da Europa persuadiu­‑nos a criar um novo continente de segurança e unidade e prosperidade. E agora, suspeito, esquecemo­‑lo. O mundo em que morreram os companheiros do meu pai no norte de França em 1918 e o mundo em que a minha mãe consertava rádios Spitfire durante a Segunda Guerra está a ser “desaparecido”, e só se lhe permite emergir quando Lorde Blair de Kut al­‑Amara quer comparar a sua horrível guerrinha no Iraque com o momento mais heróico da Grã-Bretanha, ou quando queremos desfrutar uma orgia cinematográfica da destruição nazi no filme A Queda.

 

Só no leste, onde as fossas comuns estão espalhadas pelos gelados territórios, a memória prevalece e surge de entre o nevoeiro. O que poderia explicar o seu amor pela União Europeia. Contudo, a ferida terrível de Laith Falah era mais horrenda do que Soldado Ryan – razão pela qual não a vimos na Europa esta semana.

 

E ontem, antes do almoço, fui à Praça dos Mártires em Beirute presenciar o funeral do velho Georges Hawi, ex líder do Partido Comunista, que conduzia para o café Gondole, na terça-feira, quando uma bomba explodiu debaixo do seu assento e destroçou o seu abdómen. E ali estava a sua viúva, que desmaiou de pena e horror quando viu o corpo do seu esposo jazendo na rua, chorando ante o caixão. E a 3 mil quilómetros daí, a Europa estava em crise.