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11/06/2005 está apenas à distância de
uma batida de coração No início da noite de quinta-feira, vi os libaneses deixando rosas e acendendo velas na rua de Beirute onde “eles” assassinaram Samir Kassir há pouco mais de uma semana. Quem “eles” são poderemos nunca o saber – ainda que possamos suspeitar – porque a viúva de Samir, Gisele, já disse que não confia nas investigações da polícia libanesa. Mas o Líbano é um país educado, cujos habitantes lêem vorazmente e se preocupam com os seus escritores. Portanto, foi bom ver que o assassinato de um jornalista pôde mover 200 pessoas para lamentar o seu terrível fim e exigiram – como já fizeram depois do assassinato do ex‑primeiro‑ministro Rafiq Hariri – conhecer a verdade. Querem que a rua Furn al‑Hayal seja rebaptizada e leve o nome de Samir Hassir de An Nahar, que foi atingido por uma explosão quando subia para o seu carro. Os duzentos não são comparáveis ao milhão de libaneses que se manifestaram depois do assassinato de Hariri. A proporção de jornalistas em relação a ex‑primeiros‑ministros é cerca de 1:5.000. Mas levanta a velha questão – tão apaixonadamente colocada por aqueles que fazem parte deste meio – sobre quanto vale a vida de um jornalista. Samir escrevia eloquentes mas brutais artigos contra a presença síria no Líbano e contra as figuras escuras do aparelho de segurança libanês que trabalhavam para Damasco; o que, todos assumimos, é a razão do seu homicídio, juntamente com o seu trabalho para a oposição política libanesa. Certamente, os libaneses têm um longo, infame historial de jornalistas mortos. Entre os primeiros “mártires da imprensa” do país figura Salim el‑Lowzy, que dirigia a revista Hawadess. Tinha escrito contra os sírios e, depois de estar em Beirute para o casamento da sua filha em 1976, foi sequestrado quando ia a caminho do aeroporto para regressar a Londres. O seu corpo foi encontrado com a sua mão direita – com a qual escrevia – queimada com ácido. Antes ou depois da sua morte? – Todos nos perguntámos na altura. Conheci demasiados dos meus colegas que morreram aqui. Um amigo alemão, que investigava sobre o tráfico de armas palestino para a revista Stern, recebeu avisos telefónicos para deixar o Líbano. Recusou fazê‑lo e, ao regressar a casa uma noite, foi abatido a tiro em frente à sua esposa, quase certamente por membros do comando geral da Frente Popular para a Libertação da Palestina. Recordo‑me de uma ensolarada manhã de Março, em 1985, quando me despedi dos meus amigos Tewfiq Ghazawi e Bahij Metni, da televisão CBS, antes de nos dirigirmos em viagens separadas para uma batalha entre o exército israelita e o Hezbollah, no sul do Líbano. Quando lá chegámos, o disparo de uma ogiva israelita fez‑me voar, sem me ferir, através do umbral da entrada de uma casa. Mas o mesmo tanque lançou outro projéctil para uma rua vizinha, onde Tewfiq e Bahij filmavam. Vi depois o que ficou deles, despedaçados, no chão da morgue de Sidon. Os aldeões rasparam a sua carne das paredes durante as 24 horas seguintes. Alguns dos meus colegas morreram porque actuaram imprudentemente no meio da guerra. Sean Toolan do The Observer tinha uma relação com a esposa de um homem de negócios palestiniano quando foi parado a caminho de casa vindo de um bar e atacado por homens que lhe enterraram picadores de gelo na cara. Outros perderam a sua vida porque estavam a fazer o seu trabalho no mais terrível dos conflitos. Lembro‑me de transportar as pernas da câmara de Olivier Quemener em Argel numa tarde. Na manhã seguinte, saiu para filmar na Kasbah e foi encontrado cerca de uma hora mais tarde, morto com feridas de bala, o seu colega ferido deitado a chorar ao lado do seu corpo. Ainda não estou seguro de porque é que sigo sempre pelo caminho do perigo. Não há nada de missionário na guerra e não sou viciado na guerra. Os milhares de corpos que vi provam que a morte está apenas à distância de uma batida de coração. Mas «monitorar os centros do poder» – para usar a excelente descrição do jornalismo e do seu labor de desafiar os governos, feita por Amira Hass – significa testemunhar a imundície do campo de batalha. Para fazer isso, é preciso lá ir. Cada vez mais de nós morrem nas guerras. E temo que cada vez menos pessoas se importam connosco. Isto não ocorre somente por causa das enormes perdas civis com que se saldam as nossas guerras modernas – os jornalistas não merecem um estatuto de deuses acima dos demais seres humanos (nós, no final de contas, podemos regressar a casa em classe executiva, se nos cansarmos da guerra, ao contrário das massas oprimidas que não podem escapar) – mas também, suspeito, pela forma como muitos de nós gostamos de posar para a câmara, de pôr capacetes militares nas nossas cabeças, de desfilar com os nossos coletes à prova de bala frente aos tanques, de nos vestirmos em uniforme militar. Lembro‑me mesmo de um jovem norte‑americano que apareceu para cobrir a guerra do Golfo de 1991 – Lou Fontana, da WISTV, da Carolina do Sul, para ser exacto – trazia botas camufladas com pinturas de folhas secas, compradas para o deserto na loja Barrons Hunting Supplies. Qualquer que pessoa tenha visto de relance uma fotografia de um deserto, evidentemente, deve seguramente ter notado a ausência de árvores. Mas problemas ainda mais graves sucedem quando os repórteres ostentosamente portam armas. Ainda recordo o arrepio que senti quando vi aparecer no ecrã Geraldo Rivera da Fox News, no Afeganistão em 2001, empunhando uma arma. Pior ainda foram as suas palavras. «Sinto‑me mais patriótico do que em qualquer outra altura da minha vida, ansioso de justiça, ou talvez só de vingança», sentenciou ao mundo. «E esta catarse por que passei fez‑me reavaliar o que faço para ganhar a vida». Foi a última gota. O repórter tinha‑se tornado num combatente. Mas Rivera não estava pronto a enfrentar Osama bin Laden (ou outra pessoa) num duelo até à morte. Era puro espectáculo. E em paralelo com este hábito crescente de metamorfose do jornalista em combatente – que começou, penso, na guerra do Vietname – tem estado a contínua cultura de auto‑denegrição jornalística, por parte de jornalistas que encaram a sua profissão tão cinicamente como alguns dos seus leitores. Não devemos sentir-nos importantes. Mas a mim, pelo menos, desagrada‑me o uso constante do termo “mercenário” [“hack”]. Evidentemente, podemos chamar‑nos a nós próprios "escribas", e sou totalmente a favor de nos rirmos de nós mesmos. «Vou martelar na bigorna da literatura», costumava dizer por brincadeira aos fotógrafos da AP durante a guerra libanesa – e eles diligentemente suspiravam. Mas um “mercenário” é uma mão subarrendada, alguém que escreverá seja o que for por uma libra, um cavalo que qualquer um pode alugar. Se queremos ser respeitados – se queremos que acreditem em nós – não deveríamos tratar-nos com um pouco mais de respeito? A mais recente cerimónia dos Prémios da Imprensa Britânica, um exercício de auto‑flagelação – que os editores de jornais, com razão, decidiram boicotar até que limpe a sua actuação – é parte e parcela do mesmo problema. É um pouco difícil denunciar estrondosamente as iniquidades e mentiras dos nossos líderes políticos quando usamos as roupas do bufão da corte. O mesmo sucede com a morte. É correcto lamentar a morte de um jornalista, mas a morte de um “mercenário” é assunto de pouca monta. Samir Kassir tomava‑se a si mesmo a sério. Tomava o jornalismo a sério. Não era um “mercenário”. Mas, é claro, suponho que foi por isso que o assassinaram. |