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08/05/2005 A dois anos da “Missão
cumprida”, qualquer estatura moral que os Estados Unidos pudesse reivindicar
no fim da sua invasão do Iraque, foi esbanjada há muito nas torturas, abusos
e mortes em Abu Ghraib. Que o símbolo da brutalidade de Saddam Hussein tenha
sido convertido pelos seus inimigos no símbolo da sua própria brutalidade é
um epitáfio de singular ironia para toda a aventura iraquiana. Fomos todos
contaminados pela crueldade dos interrogadores, dos guardas e comandantes da
prisão. Mas isto não é só sobre Abu
Ghraib. Existem claros e comprovados vínculos entre os abusos em Abu Ghraib e
a crueldade nas prisões norte‑americanas de Bagram, no Afeganistão, e
na Baía de Guantánamo. Curiosamente, a general Janis Karpinski, a única
oficial superior dos EUA que enfrenta acusações por causa de Abu Ghraib,
admitiu‑me um ano antes, quando visitei a prisão, que tinha estado na
Baía de Guantánamo, mas que em Abu Ghraib não tinha permissão de presenciar interrogatórios
– o que parece muito estranho. Uma vasta quantidade de
provas foi já reunida sobre o sistema que os norte‑americanos criaram
para maltratar e torturar prisioneiros. Entrevistei um palestiniano que me
deu provas contundentes de violação anal com varas de madeira em Bagram – por
norte‑americanos, não afegãos. Muitas das histórias que agora saem de Guantánamo – a humilhação sexual de prisioneiros muçulmanos, o serem algemados a assentos nos quais defecam e urinam, o uso de pornografia para fazer com que os prisioneiros muçulmanos se sintam impuros, as interrogadoras que usam pouca roupa (ou que, num caso, fingiram esfregar a cara de um prisioneiro com fluxo menstrual) – cada vez mais se provam ser verdadeiras. Iraquianos que questionei durante muito tempo ao longo de muitas horas falam com franqueza de espancamentos aterrorizadores de interrogadores militares e civis, não apenas em Abu Ghraib, mas noutras bases dos EUA no Iraque. Num acampamento norte-americano
nos arredores de Fallujah, os prisioneiros são golpeados com garrafas de água
de plástico cheias que se rompem, cortando a pele. Em Abu Ghraib, cães de
prisão foram usados para assustar e morder prisioneiros. Como é que esta cultura da imundície
começou na “guerra contra o terror” dos Estados Unidos? A injustiça
institucionalizada que testemunhámos em todo mundo, as vis “entregas” norte‑americanas
em que prisioneiros são transportados para países onde podem ser assados,
electrocutados ou, no Uzbequistão, cozinhados vivos em gordura? Como escreveu
Bob Herbert no The New York Times, o que parecia inconcebível quando
saíram à luz as primeiras fotografias de Abu Ghraib, é agora rotina, típica
do abuso que «permeou as operações da administração Bush». A Amnistia Internacional, num
pavoroso documento de 200 páginas publicado em Outubro, traçou a penetração dos
memorandos do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, no sistema de interrogatório
de prisioneiros e a retorcida autorização da tortura. Em Agosto de 2002, por
exemplo, só uns meses depois de Bush ter discursado sob a bandeira da “Missão
cumprida”, um relatório do Pentágono declarava que «para respeitar a
autoridade constitucional inerente do presidente para comandar uma campanha
militar, [a lei dos EUA que proíbe a tortura] deve considerar‑se
inaplicável a interrogatórios levados a cabo em consequência da autoridade do
comandante em chefe». O que quer isso dizer senão a permissão de Bush para
torturar? Um relatório de 2004 do Pentágono
usa uma redacção desenhada para permitir aos interrogadores usar crueldade
sem correr o risco de enfrentar acções judiciais: «Mesmo se o acusado sabe
que dor severa resultará das suas acções, se causar tal dano não é o seu objectivo,
não existe o requisito específico da intenção [para ser culpado de exercer a
tortura], mesmo que o acusado não tenha agido de boa fé». O homem que institucionalizou
directamente interrogatórios cruéis em Abu Ghraib foi o major general Geoffrey
Miller, o comandante de Guantánamo voou para Abu Ghraib para lá «aumentar a
eficiência nas operações de confinamento». Seguiu‑se o incremento no
uso doloroso de algemas e a frequente nudez forçada dos prisioneiros. O relatório
do major general Miller que se seguiu à sua visita em 2003 falou da
necessidade de uma força de detenção em Abu Ghraib que «implemente as
condições para o interrogatório e a exploração bem sucedidas dos reclusos». Segundo
a general Karpinski, o major general Miller disse que os prisioneiros «são
como cães, e se lhes permite acreditar que são mais do que um cão, então perdeu
o controle sobre eles». O rasto de prisões que agora
se espalham pelo Iraque é um símbolo vergonhoso, não apenas da nossa
crueldade, mas do nosso fracasso em criar as circunstâncias nas quais um novo
Iraque poderia tomar forma. Pode-se celebrar eleições e criar um governo, mas
quando se permite que esta podridão militar se estenda, todo o sentido da
democracia é derrubado. O “novo” Iraque aprenderá destes centros de
interrogatório como devem tratar os prisioneiros e, inevitavelmente, os “novos”
iraquianos apropriar‑se‑ão de Abu Ghraib e devolver‑lhe‑ão
o estatuto que tinha sob Saddam e todo o propósito da invasão (ou pelo menos a
versão oficial) se terá perdido. Com uma insurgência cada vez mais violenta e incontrolável, o vazio da tonta bravata de Bush é evidente. A verdadeira missão, parece, era institucionalizar a crueldade dos exércitos ocidentais, manchando-nos para sempre com a depravação de Abu Ghraib, Guantánamo e Bagram – para não mencionar as prisões secretas que nem sequer a Cruz Vermelha pode visitar e nas quais quem sabe que vilezas se estão a cometer. Qual, pergunto-me, será a nossa próxima “missão”? (...) |