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30/04/2005 quando o líder obtém 110
por cento dos votos Democracia. Ah, como o Médio Oriente gostaria de ter alguma democracia! Na prateleira do supermercado – asseguro‑vos que há muitos supermercados no Médio Oriente – um par de caixas de democracia seria uma boa compra, juntamente com três caixas de direitos humanos e quatro caixas de justiça. Essa, a propósito, é a ordem certa. Mas eu apoio absolutamente (estou a usar, claro, o advérbio preferido de Lorde Blair de Kut al‑Amara) a democracia no Médio Oriente. As eleições árabes estão entre as mais excêntricas tentativas do Médio Oriente para reproduzir a “democracia” de estilo ocidental que os seus ditadores alegam já possuir. Em 1993, por exemplo, o presidente Hosni Mubarak do Egipto (nosso bom amigo) “ganhou” 94,91 por cento dos votos para o seu terceiro mandato de seis anos. A sua quarta vitória de seis anos em 1999 trouxe‑lhe uns meros 93,79 por cento. O seu predecessor, Anwar Sadat, declarou uma vitória colossal de 99,95 por cento num referendo para a reforma política em 1974. Saddam Hussein supostamente ganhou 99,96 por cento pela sua presidência em 1993 – a identidade dos eleitores dos 0,04 por cento vagabundos não foi revelada, apesar de terem obviamente pensado melhor em 2002 quando os favoritos de Saddam anunciaram uma clara votação de 100 por cento. Em 1999, Hafez Assad da Síria alcançou o que a agência de notícias oficial da Síria, Sana, chamou uma «vitória contundente» de 98,97 por cento para um novo mandato de sete anos – uns meros 219 bravos cidadãos votaram contra ele – embora ele não tenha vivido para completá‑lo. Depois disto, a vitória de 73,8 por cento de Abdelaziz Bouteflika na Argélia em 1999 e os 62,3 por cento de Mahmoud Abbas como presidente da Palestina em 2005 foram suficientemente modestos para acreditar. Em 1992, uma anedota popular em Damasco contava que George Bush pai, enfrentando a derrota nas sondagens nos Estados Unidos, pediu aos serviços de segurança sírios para arranjar uma vitória de estilo Assad para os Republicanos. Eles fizeram‑no. Em devido tempo, os cretinos de Assad voaram para o aeroporto JFK e os norte‑americanos votaram 99 por cento – por Assad. Mas devo acrescentar que uma lenda igualmente popular em Damasco levaria uma pessoa a acreditar que o ministro do interior sírio anunciou em 1948 que o presidente Kuwatly tinha ganho por 110 por cento dos votos. Kuwatly, assim reza a história, despediu imediatamente o ministro do interior. Percebe‑se o ponto. Mesmo as piores ditaduras do mundo – usualmente apoiadas por nós, os “democratas” – querem jogar o jogo. O apoio “popular” sempre foi um sine qua non dos criminosos. Portanto sempre sabíamos, quando líamos que um país era uma “república popular democrática”, que era um estado policial, quer fosse a República Democrática Alemã, quer a República Popular Democrática da Argélia. Quanto mais brutal o regime, mais “popular” e “democrático” se tornava. O problema, claro, é que nós aceitámos isto. Alinhamos com a RDA e, na verdade, com o “popular” Camboja dos khmers vermelhos – mesmo nas Nações Unidas – desde que estivessem do “nosso” lado, o que, na época, queria dizer que eram ou anti‑soviéticos ou anti‑chineses. Assim todos os estados cansados e desesperados do Médio Oriente escaparam com a sua. O Egipto de Nasser e a Líbia de Kaddafi – e, mais tarde, o Iraque de Saddam – foram todos originalmente bem recebidos pela Grã‑Bretanha e pelos Estados Unidos depois do derrube inicial dos seus reis (Farouk e Idriss e o regente iraquiano Feisal). É verdade, Jack Straw, o meu trot favorito, classificou Kaddafi como um «homem de estado» depois de ele se ter comprometido a desmantelar as armas de destruição em massa não existentes que ele alegou possuir, mas isso foi só umas semanas antes de os sauditas descobrirem que Kaddafi estava a planear assassinar o príncipe herdeiro Addullah da Arábia Saudita, um dos melhores amigos de George W. Bush na Arábia – chega desta história, porque não foi contada. Então como é que nós, os “verdadeiros” democratas, nos comportamos? 3 de Fevereiro de 2003 foi um dia de nevão em Nova York, o vapor saindo a girar das tampas das ruas, os homens do serviço secreto dos EUA – prestativamente usando casacos com “Serviço Secreto” neles impresso – abraçando‑se a si próprios fora do quartel general da ONU revestido de asbesto em East River. Apesar de estar exausto na altura após ter viajado milhares de quilómetros pelos Estados Unidos, a ideia de ver o secretário de Estado Colin Powell – ou general Powell como era agora reverentemente referido em alguns jornais norte‑americanos – fazer o seu último arremesso em favor da guerra contra o Iraque perante o Conselho de Segurança era uma experiência a não perder. Em poucos dias, eu estaria em Bagdade (a nação “democrática” que nós originalmente apoiámos) para ver o começo deste conflito frívolo e demente. A comparência de Powell no Conselho de Segurança foi o prólogo essencial da tragédia – ou tragicomédia se pudéssemos controlar a nossa ira – a comparência do Servidor do Senhor que explicaria a história do drama, o Horácio do crescentemente instável Hamlet na Casa Branca. Houve uma abertura quase macabra na encenação quando o general Powell chegou à ONU, beijando na face os delegados e encurvando os seus grandes braços em torno deles. O director da CIA George Tenet permaneceu atrás de Powell, agressivo mas obediente, mordendo um pouco os lábios, um Edward G. Robinson que se deve ter convencido a si próprio que a mais dúbia da sua informação estava enterrada sob pilhas suficientes de fúria moral e medo para estar seguramente escondida. Tal como a comparência de Bush na Assembleia Geral no mês de Setembro anterior, era preciso estar no Conselho de Segurança para ver o que as câmaras de televisão perderam. Porque houve um momento maravilhoso quando o pequeno Jack Straw entrou na sala através da porta mais afastada da direita num maciço fato de executivo, com o seu casaco de duplo peito aparentemente enrolando‑se duas vezes à volta do mais famoso ex-trot da Grã‑Bretanha. Deteve-se um momento com uma espécie de sorriso semi‑benigno na sua cara levantada, com o seu nariz no ar como se estivesse a fungar por poder. Então viu Powell e o seu sorriso abriu‑se como um guarda‑chuva enquanto os seus pés pequenos, disparando atrás dele, o propulsionavam para a frente do palco e para os braços de Powell para o seu grande abraço norte‑americano. Poderíamos pensar que toda a câmara, com os seus sorrisos abertos e apertos de mão constantes, continha uma sala cheia de gente celebrando a paz e não a guerra. Infelizmente, não era assim. Estes homens de estado elegantemente vestidos estavam a construir a moldura que lhes permitiria matar muita gente, muitos deles os pequenos monstros de Saddam, sem dúvida, mas um número considerável de inocentes também. Quando Powell se levantou para dar a sua palestra sobre terrorismo – tudo mentiras, claro – fê‑lo com um lento atleticismo, o guerreiro cansado do mundo cuja paciência tinha por fim chegado ao limite. Straw foi o estudante obediente, sendo o primeiro a bater as palmas no momento em que Powell terminou as suas mentiras. Lorde Blair de Kut al‑Amara apoiou cada palavra. Viva a nossa democracia. Esperemos que os Árabes abracem as nossas gloriosas tradições. |