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24/04/2005 Quando Tony Blair publicou o seu famoso “dossiê” de 2002 que declarava falsamente que o Iraque possuía armas de destruição em massa, Downing Street também produziu uma versão árabe – a qual continha significativas omissões e alterações no texto que mudavam substancialmente o seu significado. Uma tradução levada a cabo
para The Independent on Sunday revela pela primeira vez que várias referências
às sanções da ONU foram cortadas do texto árabe. Numa página, as palavras
«agentes biológicos» foram alteradas para «agentes nucleares». Os jornalistas
árabes que noticiaram sobre o dossiê seleccionaram a sua informação a partir
da versão árabe – inconscientes de que não era a mesma que a inglesa. Embora exista evidência de
desleixo na tradução – uma avaliação de 2001 do Comité Conjunto de Inteligência
sobre as ambições nucleares do Iraque aparece como de 2002 – muitas das
alterações foram claramente deliberadas, aparentemente numa tentativa de
tornar o dossiê mais aceitável bem como mais convincente para uma audiência árabe.
Na altura, os EUA e a Grã‑Bretanha estavam a tentar convencer os
estados do Golfo Arábico que Saddam Hussein ainda representava uma grande
ameaça para eles – na esperança de obter o seu apoio à invasão de 2003 – enquanto
o mundo árabe estava enfurecido com os desastrosos efeitos que as sanções da
ONU tinham sobre a mortalidade infantil no Iraque. No “Sumário Executivo” no início
da edição inglesa, os leitores em árabe foram lembrados de que Saddam Hussein
tinha usado armas químicas contra o Irão e o seu próprio povo antes da Guerra
do Golfo de 1991. Mas o facto de que tinha admitido isto após a Guerra do
Golfo foi apagado, juntamente com o facto de que concordou em desistir das
suas ADM. A intenção aparente foi convencer os árabes de que Saddam
permanecia uma ameaça iminente. Em alguns casos, também, o
texto árabe foi endurecido para remover quaisquer dúvidas de que Saddam possuía
armas de destruição em massa. A alteração de «agentes biológicos»
- “biologia” em árabe – para «nucleares» (“la‑nawawiya” em árabe) é
obviamente deliberada, e pode reflectir a crença de que uma audiência árabe teria
mais medo de armas nucleares do que de agentes biológicos. Referências a fábricas
iraquianas «danificadas» foram alteradas para «destruídas» (“tadmir” em árabe),
dando a impressão de que os ataques dos EUA e da Grã‑Bretanha eram mais
precisos do que na realidade eram. Sobre o programa nuclear do Iraque, a versão inglesa do dossiê diz que dois reactores de investigação foram «bombardeados» em 1991. Na árabe, os dois reactores são descritos como «destruídos». |