Informação Alternativa

Médio Oriente

14/04/2005

 

O Líbano atrasa as suas eleições, apesar das exigências dos EUA

 

Robert Fisk

 

Beirute sobreviveu à sua “celebração” do início dos 15 anos da guerra civil, mas os membros pró­‑sírios do governo do país não conseguiram formar um novo governo, o que significa que as eleições nacionais previstas para Maio se adiarão – apesar das exigências dos presidentes George W. Bush e Jacques Chirac de que se realizem atempadamente.

 

Enquanto milhares de apoiantes da oposição se manifestaram pois a favor da “unidade”, é provável que as exigências dos seus líderes sejam ignoradas.

 

Isto é muito mais sério do que parece. Enquanto o país permanecer sem liderança, a possibilidade de mais provocações para recomeçar a guerra civil de 1975­‑1990 aumenta. Uma bomba de 30 quilos foi encontrada num camião no vale de Bekaa no fim de semana; uma granada foi disparada com um lança­‑foguetes contra um banco na cidade suburbana de Dour Cheir. No leste de Beirute ainda há grupos de homens que se autodenominam “vigilantes” – supostamente dedicados à protecção das propriedades dos cristãos de ataques à bomba – que parecem, suspeitosamente, uma reencarnação da velha milícia falangista.

 

Ghazi Aridi, um conselheiro próximo de Walid Jumblatt, o líder de oposição que conduziu os combatentes druzos durante a guerra civil, disse que a inútil segunda tentativa de formar governo do primeiro­‑ministro Omar Karami – que rastejou miseravelmente para a sua cidade natal de Tripoli depois de admitir o seu fracasso – era um «esquema para adiar as eleições». Este tipo de vergonha política foi, evidentemente, uma das principais razões por que centenas de milhares de libaneses se manifestaram no mês passado.

 

Só restam 4.000 soldados sírios no vale de Bekaa, no leste, e a sua retirada está a ter lugar mais depressa do que se esperava. Em alguns casos, civis levaram as suas famílias aos calaboiços sírios onde foram torturados há mais de uma década. Mas a ira por a retirada estar a demorar tanto tempo foi agora substituída por preocupação pela sua velocidade.

 

Mas se o presidente Emile Lahoud, o mais fiel amigo da Síria, continua a ser o líder, e o fantasma do gabinete pró­‑sírio está meramente à espera de se reconstituir, qual terá sido o objectivo da retirada síria?

 

Os “leais” – ironicamente, o nome dos libaneses leais à Síria – esperam que o atraso permita que os menos respeitados líderes da oposição dividam o movimento. Diz­‑se que Lahoud espera o regresso do exílio em Paris do messiânico general maronita Michel Aoun, cujas pretensões presidenciais em 1990 custaram milhares de vidas e que fugiu para a embaixada francesa no seu pijama quando bombistas sírios atacaram o seu palácio. Diz-se que Lahoud está convicto de que Aoun seguramente dividirá a oposição, alienando os seus seguidores druzos e sunitas.

 

Isto pode ser confundir desejos com a realidade. Mas no passado fim de semana, o Hezbollah – ainda aliado à Síria – enviou um avião sem piloto 80 quilómetros dentro do território de Israel, trazendo­‑o de volta a salvo ao território libanês. Foi um exercício militarmente sem sentido, mas contribuiu enormemente para o temor de que se possa estar as tentar provocar outro conflito com Israel. O líder do movimento, Sayed Hassan Nasrallah, surpreendeu ontem os libaneses ao apelar por ajuda para preservar a unidade do país numa carta aberta a Chirac publicada num jornal. Chirac e Bush pressionaram a ONU para que aprovasse uma resolução exigindo o desarmamento do Hezbollah. Coisas extraordinárias estão pois a ocorrer no Líbano; os seus resultados podem não ser nada extraordinários.