Informação Alternativa

Médio Oriente

09/04/2005

 

Finalmente, é tempo de comemorar

o fim de um conflito no Médio Oriente

 

Robert Fisk

 

O imenso oceano de jovens libaneses que foram educados no estrangeiro durante o conflito não irão, suspeito, tolerar outra guerra civil.

 

Como diabo se celebra uma guerra civil? Esta não é uma pergunta ociosa porque em Beirute, com uma notável sinceridade, mas não pouca trepidação, os libaneses estão a preparar­‑se para recordar o mais terrível conflito das suas vidas, no qual foram mortas 150 mil pessoas e cuja comemoração na próxima semana estava originalmente nas mãos do antigo primeiro­‑ministro Rafiq Hariri – que foi ele próprio assassinado em 14 de Fevereiro. É isto algo que deva ser contemplado? É este o momento – quando todo o Líbano espera por uma retirada militar síria e quando a milícia Hezbollah, ela própria uma criatura da guerra, está a receber a ordem de desarmar das Nações Unidas – para recordar a maré de sangue que afogou tantos inocentes entre 1975 e 1990?

 

Reflectindo, penso que provavelmente é. Os libaneses passaram os últimos 15 anos em coma político, recusando-se a reconhecer o seu passado violento, não vão os fantasmas levantar­‑se das suas sepulturas colectivas e voltar para agitar as brasas do sectarismo e do sofrimento mútuo. “O que quer que faças, não menciones a guerra”, tinha um lugar especial num país cujo povo se recusou teimosamente a aprender as lições de sua matança fratricida.

 

Durante quase 10 anos, o meu próprio livro sobre a guerra civil foi proibido pelos censores libaneses. Mesmo o próprio Hariri me disse que não tinha poder para devolvê-lo às livrarias – ironicamente, foi um funcionário de segurança pró­‑sírio, cuja demissão a oposição libanesa está agora a exigir, quem levantou a proibição no ano passado – e nenhuma das estações de televisão libanesas tocava na guerra. Permaneceu o cancro que ninguém mencionava na sociedade libanesa, a doença que todos temiam que poderia regressar para envenenar as suas vidas.

 

Havia claramente uma necessidade de entender como o conflito destruiu o velho Líbano. Quando a al­‑Jazeera emitiu do Qatar um documentário de 12 partes sobre a guerra, a Corniche marítima fora da minha casa em Beirute esvaziava­‑se de peões todas as quintas-feiras à noite; os restaurantes fechavam as suas portas. Todos queriam ver o seu próprio tormento. Assim, suponho, fiz eu.

 

Toda a gente que conheci perdeu amigos nesses horríveis 15 anos – eu perdi amigos muito queridos. Um explodiu na embaixada dos Estados Unidos no seu primeiro dia de trabalho, em 1983; outro foi assassinado com um picagelo. Uma, jovem mulher, foi morta por uma granada numa rua comercial. O irmão de um colega – um jovem que ajudou a manter as minhas linhas de telex durante o cerco israelita de 1982 a Beirute – foi baleado na cabeça quando, acidentalmente, passou a conduzir por um tiroteio. Morreu uns dias mais tarde.

 

E assim, neste 13 de Abril, o  centro de Beirute encher­‑se­‑á com dezenas de milhares de libaneses para um dia de “unidade e memória”. Haverá exibições de arte, concertos, mostras fotográficas, uma maratona de corrida e bicicleta. A irmã de Hariri, Bahia, estará a encenar os eventos que o seu irmão assassinado planeou. Nora Jumblatt, a gloriosa esposa do líder druzo Walid Jumblatt – um dos senhores da guerra daqueles horríveis dias – estará a organizar os concertos.

 

O original 13 de Abril – em 1975 – marcou o dia em que homens armados falangistas emboscaram um autocarro cheio de palestinianos em Beirute. O autocarro ainda existe, com os orifícios de bala ainda perfurando a sua carapaça oxidada, mas será deixado a apodrecer no campo fora de Nabatea onde jaz até hoje. Os únicos buracos de bala visíveis para as multidões na próxima semana serão os que se conservam deliberadamente na estátua dos líderes da independência do Líbano de 1915, que foram enforcados na praça dos Mártires, onde um “jardim do perdão” liga uma igreja e uma mesquita e onde repousa agora o corpo de Hariri, em companhia dos seus guarda­‑costas assassinados. A própria praça foi a linha da frente de toda a guerra. Quem sabe quantos fantasmas assombram ainda as suas centenas de metros quadrados?

 

Não longe para leste está a infame estrada “circular” onde muçulmanos e cristãos armados paravam todo o tráfego em 1975 e caminhavam com facas entre as filas de carros parados, calmamente cortando as gargantas de famílias da religião errada. Oito cristãos tinham sido encontrados assassinados fora dos escritórios das autoridades de electricidade e Bashir Gemayel ordenou que 80 muçulmanos deviam pagar com as suas vidas. As milícias continuavam a multiplicar as cifras. Quando se está numa guerra, sente-se que nunca mais vai terminar. Eu sentia­‑me assim, chegando gradualmente a acreditar – como os libaneses – que a guerra era de algum modo um estado natural das coisas.

 

E, como em todas as guerras, chegou uma espécie de momento de delírio. Os israelitas invadiram, duas vezes; os marines norte­‑americanos chegaram e foram alvo de um ataque suicida na sua base no aeroporto. O mesmo com os franceses. As Nações Unidas chegaram em 1978 com soldados holandeses e mais soldados franceses e soldados irlandeses e soldados noruegueses e das ilhas Fidji, do Nepal, do Gana e da Finlândia. Parecia que toda a gente ia parar ao Líbano para ser bombardeado e alvejado. Os palestinianos foram lentamente arrastados para a guerra e sofreram massacre após massacre às mãos dos seus inimigos (que frequentemente resultavam ser todos os demais).

 

Que o conflito era realmente entre cristãos maronitas e os restantes de alguma forma desapareceu da narrativa. Era culpa de todos os demais. Não dos libaneses. Nunca dos libaneses. Durante anos, chamaram à guerra hawadess, os “eventos”. O conflito foi então denominado a “Guerra dos Outros” – dos estrangeiros, não dos libaneses que estavam de facto a cometer os assassinatos.

 

Um taxista que me deu uma boleia há alguns anos atrás voltou­‑se para mim enquanto seguíamos pelas ruas e disse: «Sr. Robert, você tem muita sorte». E mencionou que eu – como ele – tinha sobrevivido à guerra. Recordo­‑me do último dia. Os sírios tinham tirado o general Michel Aoun do seu palácio em Baabda com bombardeamentos – nesses dias, os norte­‑americanos tinham muita vontade na dominação Síria do Líbano porque queriam que os soldados de Damasco enfrentassem o exército de ocupação de Saddam no Kuwait – e eu caminhava atrás de tanques para as colinas cristãs.

 

As granadas começaram a cair e a estourar à nossa volta e a minha acompanhante gritou que íamos morrer. E eu gritei­‑lhe que não devíamos morrer, que esse era o último dia da guerra, que iria agora realmente terminar. E quando chegamos a Baabda, havia cadáveres e muita gente deitada no solo com feridas terríveis, muitos em lágrimas. E recordo como nós, também, rompemos em pranto e chorámos com o imenso alívio de termos sobrevivido a esse dia e sabendo que viveríamos amanhã e no dia seguinte e na próxima semana e no próximo ano.

 

Mas os silêncios permaneceram, com o temor constante de que tudo podia voltar a acender­‑se. Ninguém abriria as sepulturas em massa não fosse mais sangue ser vertido nelas. Foi nesta sombria e arruinada terra que Hariri começou a reconstruir Beirute. Será o seu novo Beirute que acolherá as valorosas festividades da próxima semana, as suas lojas de especialidades e restaurantes e bares – apesar do assassinato de Hariri e da crise continuada e dos bombistas sombrios que ainda estão a tentar reprovocar uma guerra civil.

 

Que a guerra do Líbano não tenha recomeçado com o assassinato de Hariri é sinal da maturidade e da sabedoria do povo, especialmente do imenso oceano de jovens libaneses que foram educados no estrangeiro durante o conflito e que não querem e, suspeito, ­­não tolerarão outra guerra civil. E por isso penso que os libaneses fazem bem em enfrentar os seus demónios na próxima semana. Que celebrem. Ao diabo com os fantasmas.