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21/03/2005 a ser sentido por todo o
Médio Oriente Agora atacaram no Qatar. Na simpática, amigável, liberal Doha, com a
sua enorme base aérea dos EUA e o seu pulsante e eloquente canal de televisão
al‑Jazeera, as suas modernas lojas e complexos residenciais para
expatriados e hotéis de luxo. Desde que a al‑Qaeda instou os seus
simpatizantes a atacar na zona dos reinos árabes do Golfo, os príncipes e
emires têm estado à espera de saber quem será o primeiro. O ataque suicida de
sábado – e a morte de um britânico – deu-lhes a resposta. Os primeiros indícios apontavam que o atacante era um egípcio chamado
Omar Ahmed Abdullah Ali, pois foi o seu carro que explodiu frente ao Teatro
de Actores de Doha, no suburbano de Farek Kelab. Mas não houve dúvida sobre a
seriedade da advertência original: «Aos irmãos do Qatar, Bahrain, Oman, os
Emirados e a todos os leões da jihad nos países vizinhos do Iraque, cada um
de nós tem de atacar o que esteja disponível no seu país de soldados,
veículos e bases aéreas dos cruzados, e o petróleo que lhes foi entregue»,
disse. A gravação de áudio foi feita por Saleh al-Aoofi, um seguidor saudita
de Osama Bin Laden a quem é atribuída a liderança das operações da al‑Qaeda
no Golfo. A maior base aérea dos Estados Unidos encontra‑se no Qatar. O Bahrain
alberga a frota dos EUA no Golfo. Navios de guerra norte‑americanos e
britânicos estão regularmente aportados no emirado do Dubai. Oman é um aliado
de longa data dos EUA e da Grã‑Bretanha. E todos têm substanciais populações
de expatriados. No Dubai, costumam dizer, é difícil encontrar um cidadão dos
Emirados, devido à vasta população de britânicos, franceses, russos, srilanqueses,
paquistaneses e indianos. Nos velhos tempos, podíamos telefonar para o ministério
da Defesa de Oman e, como se nada fosse, o telefone seria atendido por uma
dama de Godalming. Assim, parece que a insurgência iraquiana se dispõe a actuar em todos
esses lugares “seguros”. A última vez que o Qatar testemunhou violência foi
com o carro‑bomba que matou o antigo líder rebelde checheno Zelimkhan
Yandarbiyev – por cujo assassinato dois agentes russos elanguescem hoje na
prisão. Mas a bomba do fim de semana estava dirigida a um alvo
especificamente ocidental – ainda que um teatro dificilmente se qualifique
como uma base aérea. Tão seguro se considerava o Qatar, que os EUA aprisionaram ali Saddam
Hussein. De facto, a sua primeira esposa, Sajida, e os seus filhos vivem no
emirado por convite privado do xeque Mohamed bin Khalifa al‑Thani. O
Ministério do Interior do Qatar sustentou que o egípcio era o único
responsável da explosão – o que parece bastante improvável. Requer considerável
sofisticação equipar um carro‑bomba, e aqueles que preparam os
veículos são demasiado valiosos para as suas organizações para serem
sacrificados num ataque. O xeque Mohamed recebeu a usual precipitação de telefonemas dos seus
homólogos no Kuwait, Bahrain e Emirados. Comparados com os recentes ataques
na Arábia Saudita e no Kuwait, o de sábado foi em pequena escala. A população do Qatar tem sido há muito tempo amistosa para com os
estrangeiros, apesar de estes serem cada vez mais militares. Existe também
uma grande base da CIA no emirado e tropas das forças especiais dos EUA vivem
em complexos guardados em zonas residenciais de Doha. O verdadeiro propósito da bomba, contudo, pode ter sido económico. Os
assaltos da al‑Qaeda na Arábia Saudita e no Kuwait foram quase
seguramente com a intenção de elevar o preço do petróleo. O Qatar exporta
gás. As exportações petrolíferas do Iraque foram interrompidas por centenas
de ataques insurgentes aos seus oleodutos. A ideia de que a “mudança de
regime” traria nova estabilidade aos países do Golfo –outra das desculpas do
presidente George Bush para a invasão de 2003 – parece agora ser um mito. Que esta semana marca o segundo aniversário da invasão pode ter
estado na mente do bombista. Certamente coincidiu com ataques no interior do
Iraque, incluindo um ataque suicida em Mosul, a morte de outro soldado dos
EUA perto de Tikrit e uma bomba à beira da estrada perto de Basora. A crise
no Líbano provocada pelo assassinato do ex primeiro‑ministro Rafiq
Hariri afastou a atenção do Iraque, ainda quando a insurgência cresce em
força. A realidade é que a invasão do Iraque agora reverbera em todo o Meio
Oriente. Hariri era o principal proponente de uma retirada militar síria –
que os EUA apoiam, sobretudo porque mantém sobre Damasco a acusação de ajudar
insurgentes iraquianos. Funcionários libaneses sustentaram até em privado que
a amizade de Hariri com o primeiro‑ministro interino iraquiano, Iyad
Allawi – ele próprio meio libanês –, precipitou a sua morte, uma sugestão que
nem os norte‑americanos nem a ONU tomam a sério. Agora as mais pequenas nações árabes do Golfo esperam o próximo assalto – que nenhuma quantidade de expatriados e soldados estrangeiros pode proteger da al‑Qaeda. |