Informação Alternativa

Médio Oriente

21/03/2005

 

O impacto da guerra do Iraque está agora

a ser sentido por todo o Médio Oriente

 

Robert Fisk

 

Agora atacaram no Qatar. Na simpática, amigável, liberal Doha, com a sua enorme base aérea dos EUA e o seu pulsante e eloquente canal de televisão al­‑Jazeera, as suas modernas lojas e complexos residenciais para expatriados e hotéis de luxo. Desde que a al­‑Qaeda instou os seus simpatizantes a atacar na zona dos reinos árabes do Golfo, os príncipes e emires têm estado à espera de saber quem será o primeiro. O ataque suicida de sábado – e a morte de um britânico – deu-lhes a resposta.

 

Os primeiros indícios apontavam que o atacante era um egípcio chamado Omar Ahmed Abdullah Ali, pois foi o seu carro que explodiu frente ao Teatro de Actores de Doha, no suburbano de Farek Kelab. Mas não houve dúvida sobre a seriedade da advertência original: «Aos irmãos do Qatar, Bahrain, Oman, os Emirados e a todos os leões da jihad nos países vizinhos do Iraque, cada um de nós tem de atacar o que esteja disponível no seu país de soldados, veículos e bases aéreas dos cruzados, e o petróleo que lhes foi entregue», disse.

 

A gravação de áudio foi feita por Saleh al-Aoofi, um seguidor saudita de Osama Bin Laden a quem é atribuída a liderança das operações da al­‑Qaeda no Golfo.

 

A maior base aérea dos Estados Unidos encontra­‑se no Qatar. O Bahrain alberga a frota dos EUA no Golfo. Navios de guerra norte­‑americanos e britânicos estão regularmente aportados no emirado do Dubai. Oman é um aliado de longa data dos EUA e da Grã­‑Bretanha. E todos têm substanciais populações de expatriados. No Dubai, costumam dizer, é difícil encontrar um cidadão dos Emirados, devido à vasta população de britânicos, franceses, russos, sri­lanqueses, paquistaneses e indianos. Nos velhos tempos, podíamos telefonar para o ministério da Defesa de Oman e, como se nada fosse, o telefone seria atendido por uma dama de Godalming.

 

Assim, parece que a insurgência iraquiana se dispõe a actuar em todos esses lugares “seguros”. A última vez que o Qatar testemunhou violência foi com o carro­‑bomba que matou o antigo líder rebelde checheno Zelimkhan Yandarbiyev – por cujo assassinato dois agentes russos elanguescem hoje na prisão. Mas a bomba do fim de semana estava dirigida a um alvo especificamente ocidental – ainda que um teatro dificilmente se qualifique como uma base aérea.

 

Tão seguro se considerava o Qatar, que os EUA aprisionaram ali Saddam Hussein. De facto, a sua primeira esposa, Sajida, e os seus filhos vivem no emirado por convite privado do xeque Mohamed bin Khalifa al­‑Thani. O Ministério do Interior do Qatar sustentou que o egípcio era o único responsável da explosão – o que parece bastante improvável. Requer considerável sofisticação equipar um carro­‑bomba, e aqueles que preparam os veículos são demasiado valiosos para as suas organizações para serem sacrificados num ataque.

 

O xeque Mohamed recebeu a usual precipitação de telefonemas dos seus homólogos no Kuwait, Bahrain e Emirados. Comparados com os recentes ataques na Arábia Saudita e no Kuwait, o de sábado foi em pequena escala.

 

A população do Qatar tem sido há muito tempo amistosa para com os estrangeiros, apesar de estes serem cada vez mais militares. Existe também uma grande base da CIA no emirado e tropas das forças especiais dos EUA vivem em complexos guardados em zonas residenciais de Doha.

 

O verdadeiro propósito da bomba, contudo, pode ter sido económico. Os assaltos da al­‑Qaeda na Arábia Saudita e no Kuwait foram quase seguramente com a intenção de elevar o preço do petróleo. O Qatar exporta gás. As exportações petrolíferas do Iraque foram interrompidas por centenas de ataques insurgentes aos seus oleodutos. A ideia de que a “mudança de regime” traria nova estabilidade aos países do Golfo –outra das desculpas do presidente George Bush para a invasão de 2003 – parece agora ser um mito.

 

Que esta semana marca o segundo aniversário da invasão pode ter estado na mente do bombista. Certamente coincidiu com ataques no interior do Iraque, incluindo um ataque suicida em Mosul, a morte de outro soldado dos EUA perto de Tikrit e uma bomba à beira da estrada perto de Basora. A crise no Líbano provocada pelo assassinato do ex primeiro­‑ministro Rafiq Hariri afastou a atenção do Iraque, ainda quando a insurgência cresce em força.

 

A realidade é que a invasão do Iraque agora reverbera em todo o Meio Oriente. Hariri era o principal proponente de uma retirada militar síria – que os EUA apoiam, sobretudo porque mantém sobre Damasco a acusação de ajudar insurgentes iraquianos. Funcionários libaneses sustentaram até em privado que a amizade de Hariri com o primeiro­‑ministro interino iraquiano, Iyad Allawi – ele próprio meio libanês –, precipitou a sua morte, uma sugestão que nem os norte­‑americanos nem a ONU tomam a sério.

 

Agora as mais pequenas nações árabes do Golfo esperam o próximo assalto – que nenhuma quantidade de expatriados e soldados estrangeiros pode proteger da al­‑Qaeda.