Informação Alternativa

Médio Oriente

18/03/2005

 

Chefe de segurança processa­‑se a si próprio

para limpar o seu nome a respeito de Hariri

 

Robert Fisk

 

No Líbano, a tragédia e a farsa com frequência vão de mão dadas. Mas a tragédia transformou­‑se em revista ontem quando o mais alto funcionário da Síria dos serviços de inteligência libaneses convocou uma conferência de imprensa para anunciar que ele e os seus colegas iriam “processar­‑se a si mesmos” para limpar os seus nomes de negligência a respeito do assassinato do ex primeiro-ministro Rafiq Hariri, a 14 de Fevereiro.

 

Ainda de forma mais incrível, Jamil Sayed, o chefe do Directório Geral de Segurança libanês, anunciou que tinha decidido levar a cabo estes procedimentos legais «sem consultar» os seus colegas. «Todas as cabeças das instituições de segurança estão preparadas para enfrentar juízo e para prestar contas», disse. «Não temos segredos de que nos envergonhemos».

 

Parece que o senhor Sayed, um homem inteligente que não fala muito sem ponderação, estava a avisar a oposição política que parasse os seus ataques contra ele, contra o procurador-geral, o chefe das Forças de Segurança Interna e outros altos funcionários. Aqueles que estavam a exigir as suas renúncias, disse, deviam «não misturar política com crime... Deixem a justiça decidir».

 

A honra das forças de segurança libanesas estava em jogo, disse Sayed – a oposição anti­‑síria estaria certamente de acordo com isso – e afirmou que estava a iniciar os seus próprios procedimentos legais contra si mesmo, já que nenhum membro da oposição tinha apresentado uma acção judicial. Isto levanta algumas questões. Como pode ser interrogado Sayed? Vai questionar-se a si mesmo? E como pode levar a cabo um tal interrogatório quando todas as provas do assassinato de Hariri estão nas mãos de – bem, de Sayed?

 

«Deveriam deixar de subestimar a inteligência das pessoas», foi o único comentário proveniente de Walid Eido, um antigo juiz e membro da bancada parlamentar do partido de Hariri.

 

Seria prudente tratar Sayed menos displicentemente. O chefe de segurança é provavelmente o homem mais poderoso do Líbano e controla passaportes, movimentos fronteiriços e censura.

 

Mas o que significou este anúncio? Está Sayed a preparar a sua demissão se a investigação da ONU sobre o assassinato de Hariri condenar os serviços de segurança libaneses? Ou está a dizer aos deputados libaneses que terão de o processar antes de que ele renuncie?

 

A sua declaração ocorreu apenas umas horas depois de Sayed Hassan Nasrallah, o líder do movimento de guerrilha Hezbollah, recusar a mais recente exigência do presidente Bush de desarmamento do movimento. «Estamos prontos a permanecer até ao fim dos tempos uma “organização terrorista” na opinião de Bush, mas não estamos dispostos a renunciar à protecção do nosso país, do nosso povo, do seu sangue e da sua honra», disse.

 

Nassrallah encara o Hezbollah como um grupo de resistência anti­‑israelita e por isso espera evitar a estipulação da resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU que exige que todas as “milícias” libanesas sejam desarmadas.

 

Na verdade, a melhor defesa do Hezbollah foi proporcionada por Bahiya Hariri, a irmã do ex primeiro-ministro assassinado, quando na segunda-feira disse à multidão de um milhão de libaneses em Beirute que devem “proteger” o Hezbollah. Foi uma tentativa de atrair Nasrallah à causa da oposição – embora isto significasse abandonar, pelo menos parcialmente, a sua aliança militar com a Síria. O Hezbollah não respondeu a esta oferta.

 

Pelo menos 4.000 dos soldados sírios no país cruzaram a fronteira internacional; os restantes 10.000 estão agora no oriental vale de Bekaa.

 

Contudo, o milhão de trabalhadores sírios no Líbano continua a pagar o preço do ódio despertado pelo seu país. Uns 30 foram assassinados nas últimas quatro semanas – sem que este ultraje mal tenha merecido um título na imprensa libanesa.