Informação Alternativa

Médio Oriente

17/03/2005

 

O mistério do assassinato do Sr. Líbano

 

Robert Fisk

 

Eis uma estranha história de Beirute. Estranha porque é uma história de temor e suspeição pelo assassinato de Rafiq Hariri a 14 de Fevereiro; estranha ainda porque –apesar de quase toda a gente em Beirute conhecer a história – grande parte dela não foi publicada no Líbano.

 

Envolve um homem chamado Ali Salah Haj e o próprio Hariri – e a misteriosa decisão de retirar da cena do crime a prova mais vital do seu assassinato. Alguns afirmam que foi tudo um erro, o resultado da inexperiência ou da ignorância. Outros acreditam que contém a chave sobre como o ex primeiro­‑ministro milionário foi assassinado num atentando que custou as vidas de outros 18 inocentes.

 

Tudo começou no final da década de 1990, quando Hariri era primeiro-ministro. Vivia num palácio de betão, no bairro residencial de Qoreitem em Beirute e viajava para todo o lado com um grupo de escoltas da Força de Segurança Interna do Líbano, proporcionado pelo Governo.

 

Dos 40 homens regularmente na sua equipa, Hariri habitualmente viajava com um dos seus oficiais superiores, um homem de quem gostava, o bigotudo Ali Haj. «Tudo decorria com bastante normalidade», afirma agora um dos colaboradores mais próximos de Hariri, «até que o xeque Rafiq descobriu que os sírios pareciam saber tudo o que dizia no seu carro. As pessoas pensaram que podiam ter posto microfones escondidos ou que havia um dispositivo de escuta no seu telefone. Passado um tempo, ele decidiu que Ali Haj podia estar a contar aos sírios o que ele estava a dizer».

 

Num país como o Líbano – onde todos escutam todos (Hariri tinha os seus próprios informantes de segurança) – isso tinha de ser investigado.

 

«Assim, ele disse a Ali Haj algo muito específico que não agradaria aos sírios», comenta o colaborador da família. «E, em questão de minutos durante uma reunião com um responsável político sírio, o mesmo assunto foi levantado com ele. Nesse dia, o xeque Rafiq pediu a outro agente de segurança que viajasse com ele. Ali Haj ficou relegado para outro carro».

 

Pouco tempo depois, Ali Haj foi transferido - para um posto dos serviços secretos libaneses no vale de Bekaa, onde tratava regularmente com o general de brigada Rustum Ghazale, o chefe dos serviços secretos militares sírios no Líbano. 

 

Avancemos agora até 14 de Fevereiro de 2005. A caravana blindada de Hariri, atingida por uma bomba de uns 600 kg, jaz em chamas na rua estreita junto ao Hotel St George na Corniche de Beirute. Os veículos, esburacados pela metralha, talvez com restos de explosivos, formavam um padrão que mostrava como a bomba tinha dispersado os carros – bem como a ordem em que viajava o comboio.

 

Mas em horas – apesar de todos os outros carros calcinados terem sido deixados intactos na berma da estrada – os veículos de Hariri desapareceram. A decisão foi tomada pelo homem que é agora o chefe da Força de Segurança Interna libanesa, controlada pelos sírios, um certo general de brigada Ali Salah Haj.

 

Ordenou que os entulhos fossem retirados da cena do crime – e esta, recordemos, era o lugar do assassinato da figura mais importante da história do Líbano independente – e levados em camiões para o quartel militar libanês Charles Helou. Onde permanecem até ao dia de hoje.

 

Ali Haj estava entre os muitos milhares de pessoas que mais tarde expressaram as suas condolências à família Hariri. Testemunhas recordaram mais tarde que foi recebido com frialdade. Ghenna Hariri, a jovem filha de Bahiya, irmã de Hariri e deputada libanesa na cidade sulista de Sidon, saudou-o com as palavras: «O seu lugar não é aqui». Quando ele ofereceu a sua mão à viúva de Hariri, Nazek – que agora usa o anel de casamento do seu falecido marido numa corrente em volta do pescoço – ela levou a mão ao peito com recato em lugar de receber a mão de Ali Haj.

 

Num país onde todos acreditam na “moamara” – a conspiração – é essencial não apontar o dedo. Ninguém descobriu ainda quem activou a bomba que matou Hariri. Mas há uma série de detalhes surpreendentes sobre a investigação libanesa.

 

O primeiro é que, um mês depois da morte de Hariri, ainda não se proporcionou informação sobre ela. Além disso, a bomba estourou numa parte de Beirute – local de um recente congresso francófono, perto do Hotel Phoenicia onde se alojam numerosos dignatários estrangeiros, e a um quilómetro do parlamento – a área mais bem guardada do Líbano.

 

Que os assassinos tenham evitado a atenção da Força de Segurança Interna, do exército, da polícia de tráfico e de uma grande quantidade de outras organizações de segurança enquanto preparavam a sua bomba foi um feito verdadeiramente extraordinário. E que alguém tenha ordenado a remoção da prova principal da cena do crime foi um feito mais extraordinário ainda.

 

Um dos encarregados da investigação da segurança libanesa admitiu que houve «muitos erros cometidos», sugerindo que a decisão de Ali Haj de retirar os carros do comboio de Hariri foi motivada pelo seu conflito de lealdades – ele tinha sido um dos guarda­‑costas de Hariri, mas agora era oficial superior de segurança – e não por um desejo de ocultar as provas.

 

Também declarou que a polícia está convencida de que o assassino era um bombista suicida, possivelmente um operativo da Al Qaeda que alvejou Hariri por causa das suas ligações com a família real saudita. Hariri tinha cidadania saudita. Os apoiantes de Hariri estão cada vez mais convencidos de que a bomba estava oculta sob o asfalto, por baixo de um bueiro ou de uma conduta de cabo telefónico.

 

É fácil ver como cada teoria serve aos seus respectivos criadores. Um assassinato da Al Qaeda exime de culpa as autoridades de segurança libanesas e sírias.

 

A história da bomba oculta sob o asfalto sugere que as instituições de segurança militar do Líbano  foram espantosamente descuidadas ao falhar em notar o planejamento e a colocação da bomba.

 

Os libaneses e os sírios acreditam na trama da Al Qaeda – apesar de estarem a culpar os israelitas num pobre segundo lugar – mas a oposição política aponta cada vez mais para a Síria por, pelo menos, incompetência, descuido, mesmo negligência criminosa.

 

Por isso, os apoiantes de Hariri – mesmo muitos milhares daqueles que pedem a verdade sobre a morte de hariri – exigem agora a demissão de sete figuras principais, todas relacionadas com a justiça ou os serviços secretos libaneses pró­‑sírios. Incluem o general Ali Haj. Os demais são: Adnan Adoum, ministro da Justiça e promotor geral; Jamil Sayed, chefe da Segurança Geral libanesa; Mustafá Hamdan, chefe da Guarda Republicana libanesa; Raymond Azar, chefe do serviço secreto “mukhabarat”; Edgar Mansour, chefe de “segurança nacional”, e Ghassan Tfayleh, chefe do “departamento de escutas”, o “Amn el­‑Tanassot”.

 

As autoridades negaram­‑se a aceitar esta lista, alegando que todos eles são homens honrados que desempenham os seus deveres com patriotismo e devoção.

 

Escusado será dizer que existe um velho argumento árabe que corre em paralelo com a primeira pergunta de qualquer agente de polícia comum: a quem interessava cometer o crime? Se perguntarem aos sírios, dirão que jamais cometeriam um tal acto, quanto mais não seja porque as caluniosas acusações que desde então se lançaram contra Damasco causaram um tão grave prejuízo político ao jovem presidente sírio, Bashar al­‑Assad – que condenou ele próprio o assassinato como um «crime abjecto».

 

Os aliados políticos da Síria no Líbano – alguns deles, conhecidos de Bashar – assinalaram, com razão, que o projecto neoconservador norte­‑americano para o Médio Oriente, proposto originalmente pelos senhores Perle, Feith, Wurmser e outros, requeria não só o derrube de Saddam Hussein, mas desviar a atenção da Síria «utilizando elementos da oposição libanesa para desestabilizar o controle sírio do Líbano».

 

Que melhor forma de desestabilizar a Síria no Líbano do que matar Hariri?

 

Os milhões de libaneses que exigiram a retirada da Síria, a demissão do presidente libanês e a verdade sobre o assassinato de Hariri na segunda­‑feira não se reconheciam neste cenário. Também exigiam saber quem matou o ex presidente Rene Mouawad, o grande mufti Khaled e o líder druzo Kamal Jumblatt.

 

Vale a pena assinalar que os cristãos entre os manifestantes não exigiam saber a verdade sobre o assassinato do primeiro-ministro Rashid Karami nem do líder nacional liberal Danny Chamoun – porque se considera que os seus assassinos foram os milicianos cristãos dos tempos de guerra e não os sírios.

 

O regresso iminente do exílio francês auto-imposto do ex general messiânico Michel Aoun – que dirigiu uma desastrosa “guerra de independência” contra os sírios em 1989 que custou milhares de vidas inocentes – é um sinal inequívoco de que a oposição se pode encontrar numa situação muito comprometida.

 

A maioria, para ser honesto, não culpa pessoalmente o presidente sírio Bashar al­­­‑Assad da Síria pelo assassinato de Hariri. Sentiram-se insultados pelo seu discurso no parlamento sírio no sábado passado, mas estão bem conscientes de que existem homens muito mais implacáveis na Síria – e fora das fronteiras sírias – a quem pode ter sido encarregado o destino de Hariri, ou mesmo terem­‑se auto-encarregado.

 

Muitos líderes da oposição, incluído Walid Jumblatt – foi o seu pai Kamal que foi assassinado – esperam desesperadamente que Bashar não esteja envolvido. Mas dá­‑se o caso de que os agentes de segurança libaneses encarregados de proteger o Líbano em nome da Síria estabeleceram uma horrível reputação. 

 

Por que, por exemplo, foram descobertos mais três cadáveres no lugar da matança de Hariri nas duas semanas posteriores ao atentado?

 

Ali Haj pode ter retirado de imediato a prova vital da cena do crime – algo que nenhum corpo de polícia do mundo teria feito – com o fundamento de que necessitava de a “proteger”. Mas como é que a sua investigação falhou em localizar três cadáveres no lugar?

 

Quando o deputado do Zahle e antigo aliado sírio, Mohsen Dalloul, anunciou nesta semana que as autoridades libanesas «sabiam» quem tinha assassinado Hariri – que foi o líder não oficial da oposição libanesa à Síria até à sua morte – essas mesmas autoridades permaneceram tão silenciosas como o proverbial sepulcro.

 

Talvez estejam a ouvir os milhões de libaneses que exigiram a verdade. Ou talvez estejam apenas a seguir o processo usual de todos os serviços secretos, ouvindo silenciosamente as suas linhas de telefone. Digo isto porque apenas há três dias, Ghassan Tfayleh, o chefe do departamento libanês de escutas, pôs um dispositivo no telefone da minha casa em Beirute. Bem, só há uma resposta a isso: chame quando queira.