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15/03/2005 Nunca antes se tinha visto algo assim no Líbano. Nunca antes se tinha
visto algo igual no mundo árabe. Quase um terço da população do país estava ali; marcharam muitos quilómetros
pela cidade até à Praça dos Mártires, chegaram em autocarro desde o extremo
norte e desde Sidon no sul, na sua maioria jovens, muitos deles crianças. Não se tratou só de um jogo de poder. Também não foi, per se, uma
revolução democrática. Foi uma insurreição do povo contra as mentiras e a
corrupção do governo, bem como contra o controle estrangeiro sob o qual
viveram durante tantas décadas. Sim, queriam a saída do exército sírio – está de saída de qualquer
modo –, mas também queriam a demissão do presidente Lahoud do Líbano. Não
mais queriam governos libaneses complacentes encabeçados por homens débeis; e
na sua maior parte – a julgar pelas insígnias que levavam na lapela – exigiam
a verdade sobre o assassinato do ex primeiro‑ministro Rafiq Hariri a
14 de Fevereiro. Havia um oceano de bandeiras libanesas. E nunca antes essas
bandeiras, utilizadas com tanto cinismo e irrisão no passado, tinham luzido
tão magníficas. Não era só o cedro verde no centro – sempre tão refrescante
depois das estrelas negras e das águias severas que enfeitam as bandeiras de
tantos regimes árabes – mas o facto de que se alçavam em protesto contra a
desonestidade e o assassinato. Era a juventude do Líbano, tão cortejada pelos
homens velhos e culpados deste país, que usava as bandeiras para livrar-se
deles. Lá no alto, no palácio de Baabda, o presidente Lahoud e a sua
comitiva pareciam tão isolados do sentir da sua pátria como os norte‑americanos
e os seus governantes designados na zona verde de Bagdade o estão da tragédia
iraquiana. De facto, da “zona verde” de Baabda tinha saído uma dessas
declarações espectacularmente inapropriadas que só os presidentes no exílio
usualmente fazem. «Qualquer petardo pode conduzir a uma catástrofe», disse o
presidente Lahoud. Mas que queria isto dizer? Era uma ameaça? Uma advertência? Sabia ele
algo que os libaneses não sabem? Ou estava só a mostrar a sua preocupação
pelo milhão de pessoas que querem a sua renúncia – ou, nas palavras do líder
opositor Walid Jumblatt, agora de regresso, que se vá com os sírios? Mas não, resultou que temia que os assassinos de Hariri lançassem uma
granada de mão à multidão. «Que será dos nossos filhos?», perguntou. Mas foi pelos seus filhos que tantas centenas de milhares de
libaneses protestaram ontem. E ninguém podia deixar de notar tantos aspectos
esperançosos da sua manifestação. Estavam alegres e sorrindo e rindo; alguns
inclusive levavam piqueniques ou dançavam ao compasso de trombetas e
tambores. Muitos eram as crianças cujos pais os tinham enviado para o
estrangeiro para estudar em Genebra, Londres ou Nova York durante os negros
anos da guerra civil, de volta agora e ansiosos por livrar-se do passado
sectário. Os soldados libaneses que montavam guarda em redor da praça
portavam de propósito os rifles ao contrário sobre os seus ombros, apontando
ao solo. Não iam fazer mal aos seus compatriotas. Evidentemente, houve alguns sinais já gastos: os cristãos tendiam a
manter-se para o leste da praça e os muçulmanos para o oeste – as suas
localizações étnicas quando a praça era a linha da frente da guerra civil. Havia uma caricatura grande e cruel do líder xiita do Hezbollah,
Sayed Hassan Nasrallah, um dos seus braços puxado pelo Líbano, o outro pela
Síria, com as palavras «Decide‑te!» escritas acima. E no entanto essa
é a pergunta que todo o Líbano se faz. Pois se Nasrallah se mantiver leal à
Síria, separará grande parte da comunidade xiita dos seus compatriotas. No comício tomaram a palavra um punhado de oradores secundários: Nayla
Mouawad, viúva do assassinado presidente Rene Mouawad, e o velho Mikhail
Dagher e o inteligente deputado da oposição Ghenura Jaloul, que tentou em vão
apresentar a Lahoud as demandas da oposição na semana passada. Mas Jumblatt
permaneceu afastado no seu castelo de Moukhtara, sem vontade de arriscar um
assassinato a caminho de Beirute. Os dois filhos de Hariri já tinham saído do
país. Agora todos esperam o detalhado relatório da ONU sobre o assassinato de Hariri. Quem o cometeu? Essa era a pergunta que centenas de milhares faziam ontem. E ainda Lahoud permanece silencioso. |