Informação Alternativa

Médio Oriente

14/03/2005

 

A ONU encontra provas de encobrimento oficial

no assassinato de Hariri

 

Robert Fisk

The Independent; traduzido de Selves and Others

 

Enquanto a equipa especial de investigação das Nações Unidas, encabeçada por funcionários irlandeses, se prepara para informar que as autoridades libanesas encobriram provas do assassinato, no passado dia 14 de Fevereiro, do ex primeiro­‑ministro libanês Rafiq Hariri, os seus dois filhos fugiram do Líbano depois de terem ouvido dizer que também eles correm o risco de assassinato.

 

O filho mais velho de Hariri, Bahar, fugiu para Genebra, enquanto o seu irmão, Saad, saiu precipitadamente para Riad, na Arábia Saudita, depois de advertências de que poderiam constituir os próximos alvos dos assassinos do seu pai.

 

Prevê-se que o presidente George Bush anuncie na quarta­‑feira que agentes dos serviços secretos sírios – e talvez dos libaneses – estiveram envolvidos na morte de Hariri; o atentado matou 18 outros civis.

 

A equipa de investigação da ONU, composta por irlandeses, egípcios e marroquinos, viu­‑se engrossada agora por três especialistas suíços em explosivos depois da descoberta de que numerosos veículos destroçados da comitiva de Hariri foram retirados do cenário do massacre poucas horas depois – e antes de haver tempo para uma investigação independente. Ontem, foram enviados mergulhadores para o mar frente à Corniche de Beirute para recuperar os destroços do carro da comitiva de Hariri que não foi levado pelas autoridades porque foi projectado pela força da explosão por cima do muro de um hotel até às águas do Mediterrâneo. Se recuperarem com sucesso partes do veículo, talvez possam descobrir a natureza dos explosivos. As primeiras informações de que Hariri foi morto por um carro­‑bomba estão agora a ser desafiadas por provas que indicam que os explosivos – estimados em 600 quilos – podem ter sido enterrados sob a avenida marítima.

 

Uma única fotografia entregue ao The Independent em Beirute – que se encontra agora também em poder dos investigadores da ONU – foi tirada na tarde de 12 de Fevereiro, umas 36 horas antes do atentado. Mostra uma tampa de esgoto na estrada no lugar exacto onde a explosão provocou uma cratera de 10 metros de diâmetro, matando instantaneamente Hariri e muitos dos seus guarda-costas.

 

Esta parte da via pública está sinalizada com indicações de não estacionar, que foram lá deixados inocentemente por empregados do banco HSBC ali próximo. Mas um objecto misterioso pode ser visto no bordo esquerdo da tampa do esgoto. Tanto a tampa metálica como uma ampla área da via pública em torno foram pulverizadas pela bomba.

 

A fotografia também mostra dois edifícios que os funcionários de polícia da ONU investigam como possíveis posições do bombista que detonou os explosivos: um fica no topo do edifício circular do centro da fotografia – que aloja um hotel de Beirute bem como um escritório de fundos de aposentação das forças armadas libanesas – e o outro fica no topo do hotel Holiday Inn, danificado pela guerra (no extremo da direita) e que permaneceu vazio durante mais de uma década. O balão no centro da fotografia transporta regularmente turistas em passeios turísticos de Beirute.

 

Foi dito a alguns membros da família Hariri que o relatório da investigação da equipa da ONU será tão devastador que forçará uma investigação internacional em toda a regra sobre o assassinato do “Sr. Líbano” e o seu séquito, chegando talvez aos mais altos escalões dos governos sírio e libanês.

 

Hariri opôs­‑se à continuada presença militar síria no Líbano e muitos libaneses acusaram os sírios deste assassinato. Os investigadores da ONU encontraram­‑se convencidos de que houve um encobrimento de provas aos mais altos níveis das autoridades dos serviços secretos libaneses e sírios.

 

Na sua busca de informação, pelo menos um agente de polícia irlandês entrevistou o general brigadeiro Rustum Ghazale, o máximo responsável dos serviços de inteligência militar sírios no Líbano, no seu quartel­‑general em Anjaar. Crê-se que indicou à polícia que o seu trabalho era apenas proteger as forças sírias no país – uma afirmação que exigirá algo mais do que uns poucos grãos de sal sírio para poder ser engolida.

 

As esperadas intervenções do presidente Bush na quarta-feira seguirão dois dias extraordinários de manifestações públicas em Beirute. Na primeira, hoje, políticos da oposição tentarão reunir um milhão de apoiantes para protestar contra a falha do governo de se demitir e revelar a verdade sobre o assassinato de Hariri – bem como apequenar a manifestação de meio milhão de pessoas de terça­‑feira passada impulsionada pelo Hezbollah em apoio da Síria. A segunda, por manifestantes pró­‑sírios, está previsto marchar até à embaixada dos EUA no subúrbio de Aukar de Beirute este.

 

Tudo isto está a ser organizado enquanto rumores violentos varrem Beirute. Um deles afirma que os sírios têm estado a fornecer armas a palestinianos pró­‑sírios nos campos de refugiados de Sabra e Chatila em Beirute e Ein el­‑Helwe em Sidon.

 

Investigações empreendidas pelo The Independent sugerem fortemente que isto não é verdadeiro; os palestinianos têm suficientes armas sem serem refornecidos, e muitos deles gostariam de ser desarmados para acabar com letais lutas intestinas entre facções palestinas. Mas no Sábado à noite no campo de Sabra alguém apunhalou até à morte um vendedor de fruta sírio de idade avançada, no que foi uma óbvia tentativa de provocar violência.