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08/03/2005 Robert Fisk The Independent; traduzido
de Selves and
Others Mesmo ao lado do meu supermercado local na rua Sadat – onde tenho
comprado o meu croissant com queijo diário – detém‑se um carro com um
homem que leva milhares de fotos do presidente Bashar Assad da Síria. O homem
entra nos escritórios do mukhabarat sírio, um edifício de quatro andares meio
em ruínas que ainda luz as cicatrizes das balas da guerra civil do Líbano de
1975-1990. Dentro, posso ver vários homens bem armados, cada um, um factótum do
general de brigada Rustum Gazale, o chefe dos serviços de inteligência
militares da Síria no Líbano. Três polícias libaneses cabisbaixos estão
postados na esquina, vigiando. As fotografias – estejam seguros disto – são
para a concentração de hoje organizada pelo Hezbollah no centro de Beirute,
uma manifestação que exige o cumprimento do acordo de Taif que pôs fim à
guerra e que requeria – deus ex machina – a retirada progressiva das tropas
sírias do Líbano. Recordo Taif, na Arábia Saudita. É o lugar onde encontrei pela
primeira vez um homem de negócios libanês corpulento e com um farto bigode
chamado Rafiq Hariri, que fumava um charuto. Estava vestido com um dishdash
longo e não podia tirar os olhos de um filme de cowboys a preto e branco num
televisor no canto da sala. Queria reconstruir o Líbano, disse. Isso é optimismo,
murmurei para mim mesmo. E depois tornou‑se primeiro‑ministro
do Líbano e reconstruiu Beirute e zombou de mim pela minha falta de confiança
nas suas aptidões. Há pouco mais de três semanas, apareceu morto na rua, com os membros
em chamas, a uns 500 metros de minha casa, de onde escrevo isto. O carro
bomba explodiu mesmo defronte do seu SUV. Gazale tinha‑o uma vez chamado ao telefone e insultado e
Hariri desligou. Gazale nunca mais voltou a ser grosseiro – apesar de o ter
sido com outros ministros libaneses – e Hariri continuou a seguir um caminho
neutral, nem convidando os sírios a ficar no Líbano nem exigindo a sua
retirada. Assim foi até que se demitiu no ano passado e se juntou à oposição
e – assim fomos levados a acreditar – granjeou a ira eterna de Bashar Assad. Quando Assad falou ante o parlamento sírio no sábado à noite, o meu
telemóvel não parou de zumbir durante horas como um gafanhoto. «Nunca me
senti tão insultada», gritou‑me uma jovem amiga. «A sua voz foi tão
paternalista. E quais são essas “areias movediças” de que falou?» Uma delas era obviamente o antigo aliado da Síria, o líder druso e
superniilista Walid Jumblatt. Depois de uma vida algo libertina, Jumblatt –
cujo cinismo deveria merecer um doutoramento – aproveitou o momento. Abraçou
os seus inimigos cristãos da guerra civil, acusou os sírios de assassinar o
seu pai, Kemal, em 1977, e – quando passei para o ver na sua casa ancestral
em Mukhtara – encontrei um homem à espera da morte. Alsacianos enormes rondavam pelo jardim. Homens armados encontravam‑se
no portão. Jumblatt estava sentado, nas suas calças de ganga e casaco
castanho, as mãos nos joelhos, olhando para o solo. «Sim, sou um alvo», disse‑me
e olhou para mim com cara desolada. «Não muito antes de morrer, Hariri disse‑me
“Então qual de nós vai ser?”. Estava na minha casa de Beirute quando a bomba
explodiu. Pensei: “É Hariri”. Chamei a gente de Hariri e disseram‑me
que não conseguiam contactá‑lo. Então soube. Levava uma gravata
vermelha e pensei: “Devia estar a usar algo mais sóbrio – mas se puser uma
gravata preta significará que é certo que morreu”. E depois de 15 minutos,
subi lá acima e pus a minha gravata escura e soube que estava morto». A esplêndida esposa de Jumblatt, Nora, estava num escritório da baixa
e as janelas estouraram à sua volta devido à explosão. «Pensei, “Meu Deus! É
Walid!”. Olhei para ambos e dei‑me conta de que agora os dois vivem com
a morte. Jumblatt foi ao Hospital Universitário Americano, para onde Hariri
tinha sido levado. «Todos pensámos que estava na sala de operações, mas o
chefe de segurança chamou‑me aparte e disse‑me que estava na
morgue. Vi o filho de Hariri, entrei no carro com ele e disse: “Temo que as
notícias sejam más”. Tinha de lhe dizer». Jumblatt e eu falamos sobre o seu pai – foi morto a tiro numa estrada
perto de Mukhtara – e recordei‑lhe um livro de fotografias sobre Kamal
Jumblatt que Walid me tinha dado em Dezembro de 2000, muito antes de acusar
os sírios de matar o seu pai. «Poderia ser um niilista», tinha‑me
escrito na primeira página. «Como o meu pai, em certo sentido, que recusou,
há 25 anos, a união com a Síria». Atravessei Sofar a caminho de Beirute – notei, como sempre, a estação
de comboios construída durante o delicado mandato francês, empoleirada nas
colinas – e ali em frente a mim estava um velho camião do lixo, com um
soldado meio adormecido na parte traseira, que se dirigia para Aley. Levava um código militar triangular sobre a matrícula e as palavras
“Jesh Suriya” – Exército Sírio – mal pintadas sobre o painel traseiro. Aqui
estava, então, o monstruoso exército sírio de ocupação sobre o qual o
presidente Bush gosta de perorar, sob cuja bota da Gestapo o povo do Líbano
tem jazido prostrado durante 29 anos, sempre esquecendo – e isto é uma parte
essencial da narrativa – que os maronitas cristãos convidaram os sírios a cá
vir em primeiro lugar, para os proteger dos palestinianos de Yasser Arafat. Ainda recordo o dia em que entraram em Beirute. Com os primeiros comandos
sírios, cruzei a velha linha da frente abaixo da Praça dos Mártires,
avançando com eles através de um tapete de obuses e granadas por explodir,
até que chegámos à fachada destruída do edifício da municipalidade de
Beirute, do qual saiu um grupo de pistoleiros palestinos sujos e magricelas. Puseram as suas armas no solo e os seus braços à volta dos pescoços
dos sírios e choraram como crianças. Os sírios tinham entrado em Beirute aos
milhares, com as baionetas caladas, os seus tanques precedidos por um jovem
soldado tocando flauta. O Flautista de Damasco. Havia então uns 40.000. Mais
de 60 por cento retiraram desde 2000. Hoje há apenas 14.000 e a maioria vive
em ruínas húmidas, infestadas de vermes, destruídas pelas bombas da guerra. O Líbano, para mim, é um lugar onde o tempo parou. Ainda tenho 29
anos – a minha idade quando pela primeira vez vim ao Líbano – e ainda
trabalho nas mesmas ruas, vivo na mesma casa na Corniche. Da minha varanda,
vi o exército libanês e o exército sírio e os exércitos da ONU e o exército
invasor israelita e os marines norte‑americanos e os pára‑quedistas
franceses e até mesmo, brevemente, em 1983, as tropas britânicas, olhando o
Mediterrâneo a partir desta mesma rua. Os israelitas foram‑se com ignomínia, os norte‑americanos
e franceses e britânicos com humilhação. Estava na minha varanda em 1992
quando um carro chocou contra um camião do lixo e o arrastou pela rua com um
rugido áspero horrível. Umas horas mais tarde, a minha mãe telefonou para dizer que o meu
idoso pai, um soldado da Primeira Guerra Mundial – a guerra que permitiu a
criação do Líbano a partir da Síria – tinha morrido. E o meu senhorio,
Mustafa, e a sua sobrinha apertaram as minhas mãos do modo em que os árabes
expressam condolências, de uma maneira muito mais digna do que os abraços de
ocasião que damos aos parentes do defunto na Grande Bretanha. E agora estou sentado na pequena loja de Mustafa no rés‑do‑chão
e ele diz‑me que as coisas estão «muito, muito más». Abasteceu‑se
de água e comprovou o estado da linha eléctrica de emergência. Diz-me que
tenha cuidado nos próximos dias. Desde que fui gravemente ferido na fronteira
afegã, a sua irmã acende velas pela minha segurança quando estou longe do
Líbano. Mas, em certo sentido, nunca estou longe. Nessa noite de Dezembro de 2001, depois do espancamento às mãos dos
refugiados afegãos, enfurecidos pela morte dos seus entes queridos num ataque
aéreo dos EUA, jazia na cama com grandes dores, com a cara colada com sangue
ao travesseiro, quando soou o meu telefone. Uma voz familiar ressoou no
aparelho. «Robert. É Rafiq Hariri. Que se passou? Conte-me desde o
princípio!» E, depois de falar durante cinco minutos, ofereceu-se para enviar
o seu avião privado para me recolher em Quetta – o seu amigo, Pervez Musharraf,
dar‑lhe‑ia permissão imediata para aterrizar – e levar‑me
para o hospital em Beirute. Mas, é claro, não aceito presentes de primeiros‑ministros
e recusei. E há dois dias atrás, encontrava‑me junto ao túmulo de
Hariri, vendo Musharraf a lamentar o seu amigo. «Há fogo sob as cinzas – todos devemos ter cuidado», diz‑me um
velho amigo. Costumava trabalhar para a Middle East Airlines. Estamos a ver o
líder do Hezbollah, Sayed Hassan Nasrallah, na televisão. «Só se içará a
bandeira libanesa», diz. Não haverá bandeiras do Hezbollah na manifestação na
baixa organizada pelo Hezbollah. Todos são bem‑vindos. Darão apoio ao
acordo de Taif – Taif, que requer a retirada síria mas que, ao contrário da
resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, não exige o desarmamento do
Hezbollah . «Somos um movimento de resistência», diz Nasrallah, «não uma
milícia». Assim, agora o Hezbollah luta pela sua vida e eu recordo como
Nasrallah me descreveu a mentalidade de um bombista suicida, como o bombista
era como um homem que está numa sauna e tem muito calor, mas sabe que na sala
ao lado há ar acondicionado, música clássica e um cocktail à sua espera. Por
isso, abre a porta. Todos rezamos para que ninguém abra quaisquer portas em Beirute
durante os próximos dias. O Hezbollah não se voltará contra os libaneses. Mas
os homens que mataram Hariri continuam aqui, estou seguro, em Beirute. Não
terão sido os mesmos homens que tentaram matar com um carro bomba o amigo
druso de Jumblat, Marwan Hamade, no passado mês de Novembro? «Os sírios não
farão nada de momento, habibi [meu amigo]», diz o antigo executivo da
companhia aérea. «Temos um dito quando estamos zangados: que “os nossos olhos estão
vermelhos”. E, neste momento, todos olhamos para a Síria com os olhos
vermelhos. Talvez mais adiante algo aconteça». E depois guiei através de Beirute e uma mulher que trabalha para a
companhia Solidere de Hariri, que se encarrega da reconstrução do centro da
cidade, ligou‑me pelo telemóvel. «Bashar Assad e Lahoud [o
presidente libanês] acabam de se reunir em Damasco e os sírios não se irão
embora nesta semana. Em Abril, talvez. E talvez só para o nosso lado da
fronteira». Caminhei para a baixa, até ao escritório da Ap. Dois camiões sírios
foram vistos no cume Mdeirej acima de Beirute, transportando móveis. Móveis?
Será que as mesas também estão a ser retiradas? E aparece Bashar na
televisão, flanqueado pelo seu ministro dos negócios estrangeiros, Faruk al‑Sharar,
e aí está Lahoud, queimado pelo sol, e ao seu lado, afundado num cadeirão,
está o seu idoso e pouco inspirador primeiro‑ministro, Omar Karami. Passaram só alguns dias desde que o ex‑presidente Hrawi, um
velho amigo de Hariri, foi questionado sobre os seus sentimentos e rompeu a
chorar durante três minutos, ao vivo pela televisão, até que, entre soluços,
disse: «Se Hariri tivesse morrido quando eu era presidente, ter‑me‑ia
demitido». E o ponto não passou despercebido pelos libaneses. Lahoud não se
demitiu. Voltei à baixa, tomando café com velhos amigos junto às mais antigas
mesquitas de Beirute e aí, do outro lado da rua, está o edifício da
municipalidade, reconstruído por Hariri, e a mesma porta pela qual saíram os
pistoleiros palestinianos à minha frente há 29 anos. Há metade da minha vida
atrás, caminhei entre os obuses nesta mesma rua com os comandos sírios. E
agora estão a levar os seus móveis para casa. Na tumba de Hariri há trinta pombas caminhando sobre os restos de
cera de mil velas. Os libaneses escreveram mensagens de carinho nas paredes.
Hariri era um tipo muito duro, um homem de negócios cruel com inimigos
políticos e também apoiava a pena de morte. Mas era um homem amável que não tinha milícia, nem as mãos manchadas
de sangue, e que se tinha, suspeito, tornado demasiado confiante. Ao ver as
flores frescas sobre o seu túmulo, recordo outra conversa, há muito tempo, na
qual surgiu a pergunta impensável. O que aconteceria ao Líbano se ele
morresse? Hariri levantou as suas mãos ante mim, abriu ambos os lados da cara. «Então mantenham‑me vivo!», rugiu. E, claro, não o fizemos. |