Informação Alternativa

Médio Oriente

06/03/2005

 

Os EUA recusam a oferta de Assad para sair do Líbano

 

Robert Fisk

The Independent; traduzido de Selves and Others

 

Quando ele pronunciou as palavras «Nós vamos retirar», a multidão libanesa na Praça dos Mártires remexeu­‑se e as suas bandeiras ondearam e houve um pequeno coro silencioso de aprovação. Mas isso foi tudo.

 

Pois o grande ecrã em que o presidente Bashad Assad da Síria estava a falar do parlamento em Damasco ontem à noite continha outras, mais sombrias mensagens para a multidão – talvez para todo o Líbano. Se o exército sírio vai retirar do Líbano – e para onde permaneceu vago – algumas das observações de Assad podiam ter sido interpretadas como uma ameaça.

 

Falou das «areias movediças» no Líbano e de como alguns dos «pilares» na relação da Síria com o país – e aqui obviamente pensámos no líder druso, Walid Jumblatt – poderão ter de ser «substituídos». Substituídos? Foi isso que aconteceu ao ex­­‑primeiro­‑ministro Rafiq Hariri, morto numa explosão maciça em 14 de Fevereiro? Foi substituído?

 

Houve muitas outras críticas, abertas e veladas; à imprensa, à «interferência estrangeira», ao enviado da ONU Terje Roed­‑Larsen. Foi uma história familiar: A Conspiração. Mesmo as demonstrações contra a Síria na Praça dos Mártires – e foi uma estranha experiência estar entre os manifestante em Beirute nesse momento – tinham sido «planeadas com antecedência». Antes do quê, perguntávamo­s? Antes do assassinato de Hariri?

 

Depois de tudo isto, Assad pareceu ter dito as palavras que muitos libaneses tinham estado à espera de ouvir: «Nós vamos retirar as nossas forças... completamente para a região de Bekaa e mais tarde para as áreas da fronteira libanesa­‑síria. Mas quando iriam para o vale de Bekaa no Líbano oriental, e quando para a fronteira – e «completamente» incluía os agentes sírios dos serviços de informação, cuja presença enfadou particularmente tanto os libaneses como o presidente Bush? E para que lado da fronteira? Os quartéis dos serviços de informação militares sírios estão em Aanjar e em Bekaa – a três milhas da fronteira. Por outras palavras, vão muitos deles simplesmente ficar onde estão?

 

O discurso do presidente Assad percorreu toda a gama da política da Síria em relação ao Líbano. O seu exército tinha sido convidado para entrar no país pelo presidente libanês em 1976 durante a guerra civil libanesa – é verdade – e tinha feito muitos sacrifícios militares pelo Líbano (apesar de que os libaneses teriam muitas ressalvas a fazer).

 

A Síria sempre tinha estado preparada para retirar, e tinha prometido fazê­‑lo sob o acordo de Taif de 1989 para pôr término à guerra – é verdade, atrasaram­‑se uma década no seu reposicionamento – mas esta semana o comité de coordenação sírio­‑libanês reuniria para discutir uma data. Isto, anunciou Assad, mostraria que a Síria estava a ater­‑se a Taif e à franco­‑americana Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU.

 

O Departamento de Estado dos EUA replicou: «O anúncio do presidente Assad não é suficiente... Quando os EUA e a França dizem retirar, queremos dizer retirada completa».

 

Mas a Resolução 1559 da ONU, como Assad apontou correctamente, foi aprovada somente depois da invasão do Iraque, e também exige o desarmamento do movimento de guerrilha do Hezbollah, que conduziu os israelitas para fora do Líbano em 2000. As tropas israelitas tinham estado no Líbano durante 22 anos. Os sírios têm estado no Líbano há 29 anos. E o presidente Assad não queria o Hezbollah desarmado.