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02/03/2005 Robert Fisk The Independent; traduzido
de Selves and
Others Dormiram em tendas. Dormiram sobre o pavimento na noite passada. O Líbano
é frio no inverno. Não tão frio como a Ucrânia, mas a geada que cobriu o Líbano
durante os últimos 29 anos não tem temperatura. Nunca a bandeira vermelha,
branca e verde do Líbano tinha sido usada como um símbolo de unidade tão
comovente. A só umas centenas de metros do acampamento foi assassinado Rafiq
Hariri. E assim, supõe-se que os libaneses devem crer que o assassinato do
antigo primeiro‑ministro desencadeou a “revolução dos cedros”. O cedro
aparece no centro da bandeira libanesa. Com a renúncia do governo libanês pró‑sírio, o também pró‑sírio
presidente Emile Lahoud procurava ontem à noite um governo “provisório”, sem
muito sucesso. Bahiya, a irmã de Hariri, deputada por Sidon, não estava interessada
em ser a primeira primeiro‑ministro mulher do Líbano, e o ancião Rashid
Solh não queria o emprego, apesar da sua origem aristocrática libanesa. A penúria
de candidatos mostrou quão trágico o corpo político libanês se tornou. Ainda não é claro se a rubrica “revolução dos cedros” começou em
Beirute ou na boca do porta‑voz do Departamento de Estado dos EUA, mas
as suas implicações são ainda assim suficientemente claras: o exército sírio
deve ir embora e, mais importante, o serviço de inteligência do exército sírio
deve sair do Líbano. Portanto, todos estão à espera de ver se um governo “provisório”
[“caretaker”] cuidará [will care] do Líbano ou da Síria, cujo
protegido, o general Lahoud, é agora um homem solitário no palácio
presidencial Baabda nas colinas acima de Beirute. Hoje, a “oposição” (cristãos maronitas, sunitas muçulmanos, drusos e,
francamente, não muitos muçulmanos xiitas) vai reunir-se no palácio do século
XVIII da família Jumblatt, nas montanhas Chouf, em Mukhtara, onde Walid
Jumblatt, o próximo tigre da liberdade libanesa, se resguardou para sua própria
protecção. Nenhum membro recente da família Jumblatt morreu na sua cama, e
certamente foi a acusação de Walid de que os baatistas sírios assassinaram o
seu pai Kamal, em 1977, que originou esta revolução sem precedentes no mundo
árabe. Segundo Walid Jumblatt, o povo libanês derrubou o governo libanês
auspiciado pela Síria. O povo libanês quer a verdade: quem matou Rafiq
Hariri? «Uma voz... uma bandeira...» disse nesta segunda-feira Jumblatt.
Queria a «remoção de elementos estrangeiros (sic) do Líbano» e o fim
da «interferência estrangeira» em assuntos libaneses. Mas nem Walid Jumblatt
nem os libaneses são ingénuos. Sabem que o apoio dos EUA à “democracia”
libanesa está a ser impulsionado pela ira de Washington pelo alegado apoio da
Síria à insurgência contra as tropas dos EUA no Iraque. Jumblatt mostrou os seus
sentimentos sobre o envolvimento dos EUA no Iraque quando disse no ano
passado que desejava que um morteiro disparado contra o hotel em que Paul
Wolfowitz, o secretário de Defesa adjunto dos EUA, se hospedava em Bagdade, tivesse
atingido o próprio Wolfowitz. O comentário custou a Jumblatt um visto dos EUA.
Bush quer que as guerrilhas do Hezbollah sejam desarmadas. Também os
israelitas. De facto, os israelitas querem que o exército e o serviço de
inteligência sírios saiam do Líbano. Assim, a oposição libanesa prossegue os mesmos objectivos que os israelitas.
Mas Jumblatt quer proteger o Hezbollah, que conduziu o exército israelita
para fora do Líbano em 2000. «Temos de nos comprometer com o Hezbollah», disse.
«Eles são libaneses». E também enviou uma mensagem para Damasco: «Devíamos
falar francamente aos sírios. Queremos que saiam do Líbano. Mas queremos boas
relações com os sírios». Aqui reside o problema. A Síria será sempre o maior vizinho árabe do
Líbano. O seus muçulmanos e cristãos vivem juntos hoje em dia como nas
tonalidades de um negativo fotográfico. Os cristãos não exigirão o controle
sobre o país se os muçulmanos não exigirem fazer parte de uma “nação árabe”.
Mas se um Líbano “libertado” se declarasse pelo “Ocidente”, então o país poderia
desmoronar-se, como aconteceu na guerra civil de 1975‑1990. É tentador para os libaneses que acampam na praça dos Mártires – ou “Praça
da Libertação” como agora lhe chamam, apesar de o nome original comemorar o
enforcamento de muçulmanos e cristãos que exigiam a independência do império
otomano em 1915 e 1916 – acreditar que são parte de um grande movimento pela democracia
no Médio Oriente. As eleições no Iraque e no pequeno pedaço de “Palestina” deixado
aos palestinianos, e o elefantino presente de eleições presidenciais disputadas
concedido por Hosni Mubarak ao seu povo egípcio, pode ser encaixado numa
ideologia pela administração Bush. Mas o Líbano sempre foi traído pelos seus
animadores estrangeiros – razão pela qual ninguém ganhou a guerra civil libanesa,
excepto, talvez, os sírios. A noite passada, mesmo Selim Hoss, muitas vezes ex primeiro‑ministro e um dos poucos políticos realmente honestos do Líbano, fez saber que não queria chefiar um governo provisório. Assim, eis uma pergunta que ninguém faz abertamente no Líbano: qual é o futuro de Rustum Ghazali? “Amu Rustum” é o chefe da inteligência militar síria no Líbano; vive no povoado maioritariamente arménio de Aanjar, no vale de Bekaa, e permaneceu silencioso nestas últimas três semanas. Seria bom ter notícias de “Amu Rustum”. Hariri, nos meses antes da sua morte, recebeu um telefonema ofensivo do general Ghazali. O que foi dito? |