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17/02/2005 Nunca um governo libanês foi tão desprezado pelo seu próprio povo.
Nunca os sírios enfrentaram uma oposição unida semelhante por parte do povo
que afirmam “proteger” com os seus 15 mil soldados e os seus serviços de
inteligência. A família de Rafiq Hariri recusou furiosamente o funeral de Estado
oferecido pelo presidente libanês pró sírio. Em vez disso, o funeral do ex primeiro‑ministro
assassinado converteu‑se ontem numa marcha independente em que centenas
de milhares de muçulmanos e cristãos, que combateram até à morte durante a
guerra civil, se manifestaram juntos, em luto e amizade compartilhados. Não se viu uma só arma. Não se escutou um disparo. Até à praça dos
Mártires – a velha linha da frente que dividiu este país durante 15 anos de
guerra – marcharam gritando: «Síria fora, fora, fora». Mulheres jovens de
ambas as religiões, idosos e crianças e clérigos muçulmanos com turbante,
inclusive alguns dos velhos inimigos políticos de Hariri, reuniram-se em
torno da grande mesquita muçulmana sunita que Hariri construiu. O cadáver bastante
queimado do magnata multimilionário que reconstruiu muito de Beirute,
assassinado juntamente com seis guarda‑costas e o seu médico assistente
na segunda-feira num ataque com carro bomba, foi transladado pelas ruas de
Beirute ocidental numa ambulância. Chegou à praça acompanhado por preces
muçulmanas e sinos de igrejas cristãs. Negando repetidamente que tenham tido algo a ver com o crime de
segunda‑feira, os sírios advertiram que a unidade do Líbano estaria em
perigo se os libaneses permitissem que a morte de Hariri se transformasse
numa manifestação política. Mas o seu assassinato, na verdade, uniu os
libaneses contra os sírios. Das rua Ashrafieh chegaram homens e mulheres jovens, caminhando com
bandeiras das antigas Forças Cristãs Libanesas da guerra civil – a Falange
que combateu tão amargamente contra os sunitas muçulmanos e os drusos – mas ontem
marchou ao lado dos seus compatriotas sunitas e drusos. Walid Jumblatt, o
líder druso, marchou com eles, ele que apenas umas horas antes advertiu o
governo libanês que se os seus responsáveis aparecessem seriam «corridos com
pedras e ovos pelas pessoas». Assim foram humilhados os protegidos da Síria e
os seus descoloridos ministros. Mas a sociedade árabe não se baseia em linhas rectas. O
vice-presidente sírio, Abdul‑Halim Jaddam, era um velho amigo da
família Hariri, e foi bem-vindo no cortejo fúnebre. Amr Moussa, o secretário
geral egípcio da Liga Árabe estava lá. Muitos árabes do Golfo – Hariri também
tinha nacionalidade saudita – chegaram em avião a Beirute para o funeral. Na
morte, ao que parecia, ele tinha acordado algo nos libaneses que só agora
eles estavam a descobrir: que não tinham de ter medo uns dos outros. Hariri
tinha uma posição única na sociedade do pós-guerra que fez tanto por
ressuscitar: nunca possuiu uma milícia. Ao contrário de muitos, não tinha sangue
nas mãos. Era um homem de negócios sem escrúpulos, um inimigo formidável. Mas
estava limpo. Foi de acordo com a natureza da operação leal que ele conduzia em
Beirute que a sua família insistiu em que os guarda-costas que morreram com
ele fossem parte do mesmo cortejo e que fossem sepultados junto ao seu
catafalco na mesquita de Mohamed al‑Amin, ainda inacabada. Os
enlutados treparam vários metros de andaimes para poder ver este momento da
história libanesa. Poderiam os sírios, que enviaram o seu exército para o Líbano em 1976
a pedido de um presidente cristão, ter sonhado com tal dia? Poderiam ter
imaginado que os ex milicianos drusos e cristãos – que cortaram as gargantas
uns aos outros na guerra das montanhas em 1983 – estariam unidos em prece por
Hariri e num antagonismo compartilhado contra a Síria? Com a sua morte, disseram
alguns ontem, Hariri salvou o Líbano.
Mas não devemos ser tão românticos. O Líbano enfrenta um traumático
período de crise. Quem sabe se outras bombas não estão a ser preparadas? Walid
Jumblatt é franco quando fala da sombra de morte que pesa sobre ele desde que
anunciou que o partido Baaz sírio assassinou o seu pai, Kemal, em 1977. Ele e
Hariri tinham discutido há uma semana qual dos dois seria assassinado
primeiro. Agora sabemos. Mas os Estados Unidos e a França – o presidente Jacques Chirac voou ontem
a Beirute para prestar as suas condolências – também pressionarão agora mais intensamente
para que se acate a Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU que exige a
retirada completa do exército sírio do Líbano. Irá realmente embora? E irão os seus agentes de inteligência com eles? E irão então os libaneses “independentes” governar-se com sabedoria – ou com o mesmo desdém corrupto e temeroso que caracterizou a sua sociedade antes da guerra? Irão o luto ou a fúria governar o Líbano depois de Hariri? |