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16/02/2005 enquanto a acusação pelo
assassinato de Beirute cai sobre a Síria Hoje sepultarão Rafiq Hariri ao lado da cidade que reconstruiu e próximo
das ruínas das colunas romanas que tornaram famosa a antiga Beirute. Mas a sua
morte violenta na segunda-feira tem repercussões que irão muito mais para leste
do que o Líbano ou o império romano; pois o seu assassinato está intimamente
ligado à insurgência no Iraque – e à crença do presidente Bush de que a Síria
está a encorajar a guerra de guerrilha contra as tropas dos EUA no país. A pressão norte-americana para que a Síria retire as suas forças
militares do Líbano –uma causa que Hariri, por razões bastante diferentes,
apoiava – faz parte da tentativa de Washington de sufocar a suposta simpatia
da Síria pela sangrenta e cada vez mais eficiente insurgência no Iraque. Na noite passada, Washington anunciou a retirada do seu embaixador em
Damasco. Foi o mais claro indício até agora de que os EUA vão acusar a Síria
do assassinato de Hariri. Israel, como era previsível, escolheu o mesmo momento para juntar
novas pré‑condições a qualquer conversação de paz com a Síria:
expulsão dos «quartéis terroristas» de Damasco, «permitir que o exército
libanês mobilize as suas forças ao longo da fronteira com Israel», e «pôr fim
à ocupação síria do Líbano». Israel, que ocupou parte do Líbano durante 24 anos, depois exigiu a “expulsão”
de Guardas Revolucionários Iranianos – que na realidade deixaram o Líbano há mais
de 15 anos. Conjugada com a dos norte-americanos, a ameaça israelita – sobretudo
as referências especiosas a iranianos que já não estão no Líbano – representa
uma grave agudização da crise. O cadáver queimado de Hariri – morreu com seis dos seus
guarda-costas, um paramédico que sempre o acompanhava e pelo menos sete civis
na explosão de um carro‑bomba na segunda-feira – será sepultado junto
à gigantesca – alguns dirão monstruosa – mesquita muçulmana sunita que ele construiu
no centro de Beirute, um edifício que empequena as vizinhas igrejas dos
cruzados e os restaurados edifícios do mandato francês. O túmulo será construído no local com vista directa do Jardim do
Perdão, construído depois do fim da guerra civil, e do restaurado, mas ainda
cheio de buracos de balas, monumento aos mártires libaneses que entre 1915 e
1916 foram enforcados pelos turcos otomanos por exigirem a independência
libanesa. Saladino, o herói árabe muçulmano que derrotou os cruzados, foi
sepultado na mesquita Omayad de Damasco. O magnata multimilionário Hariri
jazerá afora da quase igualmente grande – ainda que muito menos bonita – mesquita
Mohamed Amin, em Beirute. Aquele que derrotou o império medieval europeu no Médio Oriente
serviu de inspiração à família do árabe cujo império empresarial inundou o
Líbano. Mas foi o império norte‑americano na região que proveu as
condições para a sua morte. Iyad Allawi, o ex agente da CIA e do MI5, nomeado primeiro‑ministro
interino do Iraque pelos Estados Unidos, é ele próprio metade libanês,
provindo a sua mãe da respeitável família muçulmana xiita Osseiran; Hariri conhecia‑o
bem. O antigo primeiro‑ministro libanês também admitia em privado
que os Estados Unidos ameaçavam aplicar sanções contra a Síria – e atacar a sua
presença militar no Líbano – por causa da sua contenda de que a Síria está a
ajudar os insurgentes iraquianos. Como de costume, o Líbano converteu‑se
no campo de batalha de guerras alheias. E Hariri era um gigante nesse campo de batalha. Tinha muitos bons
amigos na Síria, mas também inimigos. E entendia muito bem que a administração
Bush queria – em mais de um país – combinar a sua “guerra contra o terrorismo”
com a sua campanha pela “democracia” no Médio Oriente. Se o Iraque pôde ser invadido por causa da democracia e para, ao
mesmo tempo, estabelecer uma linha da frente na “guerra contra o terrorismo” –
por ilusório que isto fosse – então a presença da Síria no Líbano parecia
espelhar o mesmo conjunto de circunstâncias. A Síria apoiou o “terrorismo” ou,
pelo menos, patrocinou militantes que se opuseram a Israel, ao mesmo tempo que
ocupava um país vizinho, o Líbano, contra o direito internacional. Uma vez que Bush e o presidente Jacques Chirac – amigo próximo de
Hariri – pressionaram o Conselho de Segurança da ONU para que aprovasse a
resolução 1559, que exige a retirada militar da Síria do Líbano, Damasco viu‑se
ante uma versão miniatura do apuro de Saddam Hussein em 2003: submeter‑se
às resoluções da ONU ou enfrentar as consequências. As próximas eleições libanesas, nas quais os candidatos anti‑sírios
temem que o governo pró‑sírio manipule os círculos eleitorais para
privá-los de assentos parlamentares, encaixaram perfeitamente na demanda
neoconservadora norte‑americana pela chamada democracia no mundo
árabe. Que isto também serviu os interesses de Israel – um Líbano substancialmente desmilitarizado, o desarmamento do movimento de guerrilha do Hezbollah e a humilhação da Síria – nunca se permitiu que fizesse parte da narrativa. |