Informação Alternativa

Médio Oriente

16/02/2005

 

Os EUA chamam de volta o embaixador em Damasco,

enquanto a acusação pelo assassinato de Beirute cai sobre a Síria

 

Robert Fisk

 

Hoje sepultarão Rafiq Hariri ao lado da cidade que reconstruiu e próximo das ruínas das colunas romanas que tornaram famosa a antiga Beirute. Mas a sua morte violenta na segunda-feira tem repercussões que irão muito mais para leste do que o Líbano ou o império romano; pois o seu assassinato está intimamente ligado à insurgência no Iraque – e à crença do presidente Bush de que a Síria está a encorajar a guerra de guerrilha contra as tropas dos EUA no país.

 

A pressão norte-americana para que a Síria retire as suas forças militares do Líbano –uma causa que Hariri, por razões bastante diferentes, apoiava – faz parte da tentativa de Washington de sufocar a suposta simpatia da Síria pela sangrenta e cada vez mais eficiente insurgência no Iraque.

 

Na noite passada, Washington anunciou a retirada do seu embaixador em Damasco. Foi o mais claro indício até agora de que os EUA vão acusar a Síria do assassinato de Hariri.

 

Israel, como era previsível, escolheu o mesmo momento para juntar novas pré­‑condições a qualquer conversação de paz com a Síria: expulsão dos «quartéis terroristas» de Damasco, «permitir que o exército libanês mobilize as suas forças ao longo da fronteira com Israel», e «pôr fim à ocupação síria do Líbano».

 

Israel, que ocupou parte do Líbano durante 24 anos, depois exigiu a “expulsão” de Guardas Revolucionários Iranianos – que na realidade deixaram o Líbano há mais de 15 anos. Conjugada com a dos norte-americanos, a ameaça israelita – sobretudo as referências especiosas a iranianos que já não estão no Líbano – representa uma grave agudização da crise.

 

O cadáver queimado de Hariri – morreu com seis dos seus guarda-costas, um paramédico que sempre o acompanhava e pelo menos sete civis na explosão de um carro­‑bomba na segunda-feira – será sepultado junto à gigantesca – alguns dirão monstruosa – mesquita muçulmana sunita que ele construiu no centro de Beirute, um edifício que empequena as vizinhas igrejas dos cruzados e os restaurados edifícios do mandato francês.

 

O túmulo será construído no local com vista directa do Jardim do Perdão, construído depois do fim da guerra civil, e do restaurado, mas ainda cheio de buracos de balas, monumento aos mártires libaneses que entre 1915 e 1916 foram enforcados pelos turcos otomanos por exigirem a independência libanesa.

 

Saladino, o herói árabe muçulmano que derrotou os cruzados, foi sepultado na mesquita Omayad de Damasco. O magnata multimilionário Hariri jazerá afora da quase igualmente grande – ainda que muito menos bonita – mesquita Mohamed Amin, em Beirute.

 

Aquele que derrotou o império medieval europeu no Médio Oriente serviu de inspiração à família do árabe cujo império empresarial inundou o Líbano. Mas foi o império norte­‑americano na região que proveu as condições para a sua morte.

 

Iyad Allawi, o ex agente da CIA e do MI5, nomeado primeiro­‑ministro interino do Iraque pelos Estados Unidos, é ele próprio metade libanês, provindo a sua mãe da respeitável família muçulmana xiita Osseiran; Hariri conhecia­‑o bem.

 

O antigo primeiro­‑ministro libanês também admitia em privado que os Estados Unidos ameaçavam aplicar sanções contra a Síria – e atacar a sua presença militar no Líbano – por causa da sua contenda de que a Síria está a ajudar os insurgentes iraquianos. Como de costume, o Líbano converteu­‑se no campo de batalha de guerras alheias.

 

E Hariri era um gigante nesse campo de batalha. Tinha muitos bons amigos na Síria, mas também inimigos. E entendia muito bem que a administração Bush queria – em mais de um país – combinar a sua “guerra contra o terrorismo” com a sua campanha pela “democracia” no Médio Oriente.

 

Se o Iraque pôde ser invadido por causa da democracia e para, ao mesmo tempo, estabelecer uma linha da frente na “guerra contra o terrorismo” – por ilusório que isto fosse – então a presença da Síria no Líbano parecia espelhar o mesmo conjunto de circunstâncias. A Síria apoiou o “terrorismo” ou, pelo menos, patrocinou militantes que se opuseram a Israel, ao mesmo tempo que ocupava um país vizinho, o Líbano, contra o direito internacional.

 

Uma vez que Bush e o presidente Jacques Chirac – amigo próximo de Hariri – pressionaram o Conselho de Segurança da ONU para que aprovasse a resolução 1559, que exige a retirada militar da Síria do Líbano, Damasco viu­‑se ante uma versão miniatura do apuro de Saddam Hussein em 2003: submeter­‑se às resoluções da ONU ou enfrentar as consequências.

 

As próximas eleições libanesas, nas quais os candidatos anti­‑sírios temem que o governo pró­‑sírio manipule os círculos eleitorais para privá-los de assentos parlamentares, encaixaram perfeitamente na demanda neoconservadora norte­‑americana pela chamada democracia no mundo árabe.

 

Que isto também serviu os interesses de Israel – um Líbano substancialmente desmilitarizado, o desarmamento do movimento de guerrilha do Hezbollah e a humilhação da Síria – nunca se permitiu que fizesse parte da narrativa.