Informação Alternativa

Médio Oriente

09/02/2005

 

Não haverá paz no Médio Oriente sem justiça

 

Robert Fisk

 

Assim, os palestinianos acabarão a sua ocupação de Israel. Não haverá mais tanques palestinianos a destruírem tudo dentro de Haifa e Tel Aviv. Não haverá mais F­‑18s palestinianos a bombardearem centros populacionais israelitas. Não haverá mais helicópteros Apache palestinianos a executarem “mortes dirigidas” – i.e., assassínios – de líderes militares israelitas.

 

Os palestinianos prometeram cessar todos os “actos de violência” contra israelitas ao passo que Israel prometeu cessar toda a “actividade militar” contra palestinianos. Assim é, então. Paz no nosso tempo.

 

Um marciano – mesmo um marciano bem educado – teria entendido que esta era a mensagem, supondo que tivesse caído esta semana no mundo de fantasia de Sharm el­‑Sheikh. Os palestinianos têm estado a cometer “violência”, os israelitas a executarem operações “inocentes”. A “violência” palestiniana, ou “terror e violência” – esta última expressão é a mais popular pois carrega o estigma do 11 de Setembro – estava agora no fim. Mahmoud Abbas, que contou a um amigo chegado libanês este ano que usava um fato e uma gravata a fim de parecer “diferente” de Yasser Arafat – foi em frente com tudo isto. Apenas quais pessoas estavam a ocupar os lares de quais outras pessoas permaneceu um mistério.

 

Com cabelos grisalhos e carregado de sabedoria, Mahmoud Abbas parecia à parte. Tínhamos de esquecer que foi o mesmo Abbas que redigiu os Acordos de Oslo, os quais em 1000 páginas nunca utilizaram – nem uma vez – a palavra “ocupação”, e que falavam não de uma “retirada” israelita do território palestiniano e sim de uma “redisposição”.

 

Em momento algum ontem se mencionou a ocupação. Tal como o sexo, “ocupação” tinha de ser censurada da narrativa histórica. Como habitualmente – tal como em Oslo – as questões reais foram adiadas para uma data posterior. Refugiados, o “direito de retorno”, Jerusalém leste como capital palestiniana: vamos tratar disso mais tarde.

 

Nunca antes tivemos tanta necessidade da voz cáustica do falecido Edward Said. Os assentamentos – colónias judias para judeus e apenas judeus, sobre terra árabe – não foram, claro, discutidos ontem. Nem o foi Jerusalém leste. Nem o foi o “direito de retorno” dos refugiados de 1948. Estes são os “sonhos irrealistas” que foram referidos ontem pelos israelitas.

 

Tudo isto será discutido “mais tarde” – tal como eram supostos ser discutidos no fracassado acordo de Oslo de Abbas. Enquanto se puder adiar as causas reais da guerra, está OK. “Um fim para a violência” que custou 4.000 mortos – foi tudo dito ontem, menos a importante proporção de que dois terços destes foram vidas palestinianas. Paz, paz, paz. Era como terrorismo, terrorismo, terrorismo. Era a espécie de coisa que se podia encontrar numa prateleira de supermercado. Oxalá.

 

No fim do dia as questões eram estas. Será que os israelitas encerrarão os seus assentamentos maciços na Cisjordânia, incluindo aqueles que cercam Jerusalém? Nenhuma menção quanto a isto ontem. Será que finalizarão a expansão dos assentamentos judeus – para judeus, e apenas judeus, em toda a Cisjordânia palestiniana? Nenhuma menção quanto a isto ontem. Será que permitirão aos palestinianos ter uma capital na Jerusalém leste árabe? Nenhuma menção quanto a isto ontem. Será que os palestinianos realmente finalizarão a sua “intifada” – incluindo os seus mortíferos bombardeamentos suicidas – como resultado destas promessas não existentes?

 

Tal como as eleições iraquianas – as quais foram também organizadas sob ocupação estrangeira – as conversações israelitas-palestinianas foram históricas porque foram “históricas”. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice “advertiu” os palestinianos de que deviam «controlar a violência» mas não houve, como de costume, qualquer pedido para “controlar” a violência do exército israelita.

 

Porque a condição sine qua non da equação era que os palestinianos fossem culpados. Que os palestinianos fossem o partido “violento” – daí a advertência de que os palestinianos deviam acabar com a “violência” enquanto os israelitas apenas acabariam as «operações». Os palestinianos, parece, são genericamente violentos. Os israelitas genericamente cumpridores da lei; os últimos executam «operações». Mahmoud Abbas foi em frente com este absurdo.

 

Foi tudo demasiado claro nas reportagens dos acontecimentos de ontem. O que estava em oferta, disse a CNN, era «um fim para toda a violência» – como se a ocupação e a colonização ilegal não fosse uma forma de violência. A agência de notícias Associated Press norte­‑americana falou covardemente acerca de «cidades que, por agora, continuam a estar sob o controle da segurança israelita» – por outras palavras, sob a ocupação israelita, embora eles não dissessem isto aos seus leitores.

 

Assim, Mahmoud Abbas vai ser o Hamid Karzai da Palestina, a sua gravata o equivalente da túnica verde de Karzai, o “nosso” novo homem na Palestina, o “tsunami” que lavou a contaminação de Yasser Arafat, cujo túmulo Condoleezza Rice conseguiu evitar. Mas as armadilhas permanecem: Jerusalém leste, assentamentos judeus e o “direito de retorno” dos palestinianos de 1948 aos lares que perderam.

 

Se vamos bater palmas como os “fazedores da paz” de Sharm El-Sheikh ontem, é melhor que percebamos que a menos que resolvamos já estas grandes questões de injustiça, este novo acto de “feitura da paz” demonstrará ser tão sangrento quanto o de Oslo. Perguntem a Mahmoud Abbas. Ele foi o autor daquele primeiro acordo fatal.