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09/02/2005 Assim, os palestinianos acabarão a sua ocupação de Israel. Não haverá
mais tanques palestinianos a destruírem tudo dentro de Haifa e Tel Aviv. Não
haverá mais F‑18s palestinianos a bombardearem centros populacionais
israelitas. Não haverá mais helicópteros Apache palestinianos a executarem
“mortes dirigidas” – i.e., assassínios – de líderes militares israelitas. Os palestinianos prometeram cessar todos os “actos de violência”
contra israelitas ao passo que Israel prometeu cessar toda a “actividade
militar” contra palestinianos. Assim é, então. Paz no nosso tempo. Um marciano – mesmo um marciano bem educado – teria entendido que
esta era a mensagem, supondo que tivesse caído esta semana no mundo de
fantasia de Sharm el‑Sheikh. Os palestinianos têm estado a cometer
“violência”, os israelitas a executarem operações “inocentes”. A “violência”
palestiniana, ou “terror e violência” – esta última expressão é a mais
popular pois carrega o estigma do 11 de Setembro – estava agora no fim.
Mahmoud Abbas, que contou a um amigo chegado libanês este ano que usava um
fato e uma gravata a fim de parecer “diferente” de Yasser Arafat – foi em
frente com tudo isto. Apenas quais pessoas estavam a ocupar os lares de quais
outras pessoas permaneceu um mistério. Com cabelos grisalhos e carregado de sabedoria, Mahmoud Abbas parecia
à parte. Tínhamos de esquecer que foi o mesmo Abbas que redigiu os Acordos de
Oslo, os quais em 1000 páginas nunca utilizaram – nem uma vez – a palavra
“ocupação”, e que falavam não de uma “retirada” israelita do território
palestiniano e sim de uma “redisposição”. Em momento algum ontem se mencionou a ocupação. Tal como o sexo,
“ocupação” tinha de ser censurada da narrativa histórica. Como habitualmente
– tal como em Oslo – as questões reais foram adiadas para uma data posterior.
Refugiados, o “direito de retorno”, Jerusalém leste como capital
palestiniana: vamos tratar disso mais tarde. Nunca antes tivemos tanta necessidade da voz cáustica do falecido
Edward Said. Os assentamentos – colónias judias para judeus e apenas judeus,
sobre terra árabe – não foram, claro, discutidos ontem. Nem o foi Jerusalém leste.
Nem o foi o “direito de retorno” dos refugiados de 1948. Estes são os “sonhos
irrealistas” que foram referidos ontem pelos israelitas. Tudo isto será discutido “mais tarde” – tal como eram supostos ser
discutidos no fracassado acordo de Oslo de Abbas. Enquanto se puder adiar as
causas reais da guerra, está OK. “Um fim para a violência” que custou 4.000
mortos – foi tudo dito ontem, menos a importante proporção de que dois terços
destes foram vidas palestinianas. Paz, paz, paz. Era como terrorismo,
terrorismo, terrorismo. Era a espécie de coisa que se podia encontrar numa
prateleira de supermercado. Oxalá. No fim do dia as questões eram estas. Será que os israelitas
encerrarão os seus assentamentos maciços na Cisjordânia, incluindo aqueles
que cercam Jerusalém? Nenhuma menção quanto a isto ontem. Será que
finalizarão a expansão dos assentamentos judeus – para judeus, e apenas
judeus, em toda a Cisjordânia palestiniana? Nenhuma menção quanto a isto
ontem. Será que permitirão aos palestinianos ter uma capital na Jerusalém
leste árabe? Nenhuma menção quanto a isto ontem. Será que os palestinianos
realmente finalizarão a sua “intifada” – incluindo os seus mortíferos
bombardeamentos suicidas – como resultado destas promessas não existentes? Tal como as eleições iraquianas – as quais foram também organizadas
sob ocupação estrangeira – as conversações israelitas-palestinianas foram
históricas porque foram “históricas”. A secretária de Estado dos EUA,
Condoleezza Rice “advertiu” os palestinianos de que deviam «controlar a
violência» mas não houve, como de costume, qualquer pedido para “controlar” a
violência do exército israelita. Porque a condição sine qua non da equação era que os palestinianos
fossem culpados. Que os palestinianos fossem o partido “violento” – daí a
advertência de que os palestinianos deviam acabar com a “violência” enquanto
os israelitas apenas acabariam as «operações». Os palestinianos, parece, são
genericamente violentos. Os israelitas genericamente cumpridores da lei; os
últimos executam «operações». Mahmoud Abbas foi em frente com este absurdo. Foi tudo demasiado claro nas reportagens dos acontecimentos de ontem.
O que estava em oferta, disse a CNN, era «um fim para toda a violência» –
como se a ocupação e a colonização ilegal não fosse uma forma de violência. A
agência de notícias Associated Press norte‑americana falou
covardemente acerca de «cidades que, por agora, continuam a estar sob o
controle da segurança israelita» – por outras palavras, sob a ocupação
israelita, embora eles não dissessem isto aos seus leitores. Assim, Mahmoud Abbas vai ser o Hamid Karzai da Palestina, a sua
gravata o equivalente da túnica verde de Karzai, o “nosso” novo homem na
Palestina, o “tsunami” que lavou a contaminação de Yasser Arafat, cujo túmulo
Condoleezza Rice conseguiu evitar. Mas as armadilhas permanecem: Jerusalém leste,
assentamentos judeus e o “direito de retorno” dos palestinianos de 1948 aos
lares que perderam. Se vamos bater palmas como os “fazedores da paz” de Sharm El-Sheikh ontem, é melhor que percebamos que a menos que resolvamos já estas grandes questões de injustiça, este novo acto de “feitura da paz” demonstrará ser tão sangrento quanto o de Oslo. Perguntem a Mahmoud Abbas. Ele foi o autor daquele primeiro acordo fatal. |