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05/02/2005 e a arte de documentar a
história O computador portátil prejudicou‑nos. Dediquei o ano passado a
escrever uma história do Médio Oriente que me provou – independente da
loucura do homem – que o computador não ajudou necessariamente a nossa
crónica ou a nossa investigação sobre os pecados dos nossos pais. Como um jornalista que ainda se recusa a utilizar o correio
electrónico – obrigar as pessoas a escrever cartas reais diminui a quantidade
de erros gramaticais e as mensagens abusivas que com frequência recebemos –
eu diria isso, não? Mas, juntamente com dois investigadores, abri caminho por
entre 338.000 documentos na minha biblioteca para o meu livro – os meus
cadernos de repórter, jornais, revistas, recortes, comunicados
governamentais, cartas, fotocópias de arquivos da Primeira Guerra Mundial,
fotografias – e não posso escapar do facto de que o computador portátil
ajudou a destruir os meus arquivos, as minhas recordações e, de facto, a
minha caligrafia. Os meus cadernos sobre a guerra civil libanesa de finais dos anos 70
estão escritos numa escrita elegante e fácil de ler, com uma caneta de tinta
permanente azul claro que deslizava majestosamente pela página. As minhas
anotações da invasão norte‑americana do Iraque, em 2003, são ilegíveis
– excepto para mim – porque não consigo acompanhar a velocidade do
computador. Descobri que já não escrevo palavras. Represento‑as – quer
dizer, desenho algo que se lhes parece, que não consigo ler mas que tenho que
interpretar quando as transcrevo. Devo acrescentar de imediato que este mesmo
artigo está a ser escrito à mão a bordo de um avião da Air France que saiu de
Beirute e agora mesmo, enquanto escrevo, dou‑me conta de que salto
letras, palavras, e expressões porque sei o que quero dizer – mas já não
aparece na página. Que alívio voltar aos meus despachos sobre a invasão Soviética do
Afeganistão em 1979‑1980. Eram enviados com máquinas de telex –
aqueles maravilhosos monumentos que perfuravam fitas – ainda que, hoje, os
papéis fininhos como bolachas se desfaçam nas minhas mãos. Lembro‑me
de um funcionário do posto de correios de Kabul usando uma soldadura de ferro
para pregar de novo o H à sua máquina – Conor O’Clery do Irish Times é
minha testemunha – mas tenho cada memorando e cada despacho que enviei aos
meus padrões do The Times. Agora usamos telefones – ou mensagens electrónicas facilmente
descartáveis – mas as minhas mensagens telexadas para Londres nesses
terríveis anos de guerra, tal como as do conflito Irão‑Iraque em 1980‑88,
contam a sua própria história. Quando enviava despachos do Cairo ou de Riad,
uma gralha de um escritório internacional – um último parágrafo cortado, uma
frase pouco elegante fora do contexto – e eram coisas que qualquer
correspondente internacional perdoava facilmente. Mas quando emergi da frente
de combate iraniana em Fao – armas, bombardeamentos e cadáveres – considerava
difícil ver a omissão de uma vírgula como algo que não fosse um acto de
traição por parte do The Times. Coitado do escritório internacional. E
do correspondente. É claro, há momentos ridículos nesta histórica “busca da verdade”. Os
meus dois pesquisadores, depois de apenas três dias de trabalho, não
entendiam por que se sentiam invariavelmente com fome a meio da manhã – até
que nos demos conta de que entre 1976 e 1990 a única forma em que cataloguei
os meus voos ao Médio Oriente foi anotando o destino e a data nos menus das
linhas aéreas. Três dias de foie gras, caviar e champanhe foram demasiado
para os meus dois valentes amigos. Pela minha parte, durante muitas semanas,
não entendi a depressão profunda com que ia para a cama – ou acordava –
depois de horas a escrever. A resposta era simples: os cadernos de notas e as fitas de telex – no
seu conjunto – tornaram‑se um arquivo de sofrimento, tortura e
desespero. Como jornalista, podemos catalogar isto diariamente, voltar para o
hotel e esquecer e começar de novo no dia seguinte. Mas quando reuni as fitas
de telex e os cadernos, converteram‑se num terrível e totalmente
acusador testemunho de inumanidade. As cópias de telex desaparecem nos meus arquivos do final dos anos
1980 e os arquivos de computador chegam de repente. Mas não funcionam.
Conquanto sempre conservei uma “cópia dura” dos meus despachos para o The Independent,
assumi que a bendita Internet preservaria a prosa que supostamente forjei na
bigorna da literatura. Não foi assim. Muitas páginas web contêm apenas as
peças “fiskianas” que os seus donos aprovaram; outras, ainda que ilegais,
simplesmente eliminaram reportagens que não pareciam emotivas. Sempre me
diverte o número de instituições que me telefonam em cada semana para Beirute
para corroborar citações, datas ou factos. O Google não os pode ajudar.
Assumem - no geral, correctamente – que a Fisk Memorial Library (totalmente
em papel) pode. E estão certos. Claro, descobri outros “factos” igualmente desacreditados. Durante
anos, descrevi o encontro entre o repórter Tony Clifton, da Newsweek,
com Saddam Hussein no final dos anos 70, no qual foi conduzido pelo próprio
Saddam – depois de dizer ao Grande Líder que alguns iraquianos poderiam não
gostar dele – ao centro de Bagdade. “Pergunte a qualquer um aqui se gosta do
seu presidente”, disse Saddam Hussein a Clifton. Eu reportei isto no The
Independent. Tenho os meus arquivos. Mas Clifton disse‑me o ano passado que isto não era correcto.
Tinha de facto entrevistado Saddam Hussein – mas o presidente iraquiano
simplesmente se riu da pergunta de Clifton e lhe disse para falar com
qualquer iraquiano que quisesse. Nunca o levou ao centro da cidade. Ouch. O primeiro pró‑cônsul dos EUA no Iraque, o retirado general
Jay Garner, passou muito do seu tempo ridicularizando Saddam Hussein. Mas os
meus pesquisadores desenterraram uma entrevista que fiz a Garner – quando
estava a proteger os curdos do norte do Iraque, em 1991 – na qual realçou
repetidamente que o Ocidente devia «respeitar» o governo de Saddam e o
«território soberano» do Iraque. As buscas dos meus pesquisadores no Google
não conseguiram descobrir esta história notável. Graças a Deus pelas minhas
notas. Não sou um ludita [1]. Recordo‑me de ter batido alguma prosa
churchilliana na fita de telex, no luxuoso lobby do hotel Sheraton de Damasco
– que tinha um pequeno lago interior – depois de uma narcotizante cimeira
árabe. Também me recordo de erguer o olhar – e ver a minha fita de papel
literalmente a boiar ao longo do lago artificial do Sheraton. O correio electrónico, dizem‑nos, fará reviver a arte do
historiador. Duvido. É fácil eliminar mensagens electrónicas e – se os
governos forem suficientemente generosos para as conservar para os
arquivistas – os historiadores precisarão de um exército de pesquisadores bem
pagos para se aventurarem neste oceano. Em outras palavras, os historiadores
terão que ser ricos para escrever. No que me diz respeito, tenho as fotografias da Primeira Guerra
Mundial que pertenciam ao meu pai – tiradas por ele mesmo – e o testamento
escrito de um jovem soldado australiano (de 19 anos, como o meu pai), que o
meu pai recebeu ordens de executar por assassinato. E tenho o longo
depoimento do meu pai, em que argumentou a sua recusa em disparar contra o
jovem australiano – a assinatura no relatório do pelotão de execução não é do
subtenente William Fisk – e a memória de Bill Fisk da punição que lhe foi
imposta, que consistiu em desenterrar os cadáveres de soldados britânicos na
frente ocidental para os pôr em campas de guerra oficias, permanece. Se tudo
isto fosse correio electrónico, quem sabe quem o teria eliminado? __________ [1] Os luditas eram um grupo de trabalhadores ingleses que a princípios do século XIX protestavam contra as mudanças trazidas pela Revolução Industrial destruindo máquinas nas fábricas (n. do IA). |