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15/02/2005 Sabíamos que algo se aproximava. Tinha-me encontrado para tomar café
com um velho colega jornalista no Sábado e ambos dissemos que sentíamos que havia
uma nova, ameaçadora atmosfera sobre Beirute. Não nos referíamos aos preços
astronómicos ou às usuais histórias de corrupção, mas à linguagem incendiária
com que a política libanesa estava agora a ser conduzida. «É melhor que Walid Jumblat tenha cuidado», observou o meu colega, e
eu concordei. Ainda no mês passado, o líder druzo no Líbano anunciou que “elementos”
do partido baasista sírio tinham assassinado o seu pai, Kemal Jumblat, em
1975. Isto era um tema explosivo – e ele disse tudo isto ante uma audiência
cristã maronita na Universidade de S. José. A resposta na semana passada foi ainda mais perigosa. O partido Baas
exigiu que o Estado libanês processasse Jumblat por calúnia e traição. Então,
Omar Karami, o descolorido e muito pró‑sírio primeiro‑ministro –
substituto de Rafik Hariri – alegou que os membros da oposição que exigiam
uma retirada síria do Líbano estavam a «cooperar com os israelitas». Outros
empregaram o termo Mossad em vez de Israel. No Líbano, este tipo de linguagem
resulta explosiva. As próximas eleições – e uma tentativa de modificar os contornos
eleitorais susceptível de privar as facções anti‑sírias de assentos
parlamentares – contribuíram para aquecer a polémica já iniciada pela
resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU, apoiada sobretudo por norte‑americanos
e franceses, que exige a retirada de todas as tropas sírias do Líbano. Chegaram aqui, é claro, em 1976, sob um acordo da Liga Árabe para
acabar com a guerra civil – falharam – e o acordo foi na altura aprovado pelo
presidente Jimmy Carter e, parcialmente, por Israel. Mas o acordo de pós‑guerra
de Taif, em 1989, apelava a uma retirada síria para o vale da Bekaa no Líbano
oriental, que a Síria não honrou. Os seus protegidos no Líbano anunciaram de
forma sonante que não queriam que os sírios saíssem. Jacques Chirac, o presidente francês, insistiu que deveriam sair. Hariri
era um dos melhores amigos de Chirac. Compartilharam mesmo umas cervejas no
novo centro da cidade quando o presidente francês esteve pela última vez em Beirute.
Então sem guarda‑costas. Sem segurança. Mas as coisas mudaram. Há umas semanas atrás, os Estados Unidos avançaram, advertindo que
não tolerariam nenhuma violência antes das eleições libanesas – o dia de
ontem mostrou o que os inimigos dos Estados Unidos pensaram da ameaça – e
reiterando a sua exigência de uma retirada síria. Não antes de todas as
restantes resoluções da ONU terem sido obedecidas, disse Émile Lahoud, o
presidente libanês, permanentemente antagónico em relação a Hariri e permanentemente
leal à Síria. Os israelitas têm de abandonar a Cisjordânia antes de a Síria
abandonar o Líbano. Os cristãos libaneses contrários à Síria insistiram que
Damasco tinha rompido o acordo de Taif – o que é verdade. Karami e Nabih
Berri, o presidente do parlamento, deram uma grande conferência de imprensa
para assinalar que as exigências dos EUA e da oposição – elas incluem o
desarmamento do Hezbollah – eram todas políticas norte‑americanas e israelitas;
o que também é verdade. No Domingo passado, veículos blindados libaneses desfilaram ao longo
da Corniche em Beirute. Conheço dois amigos que têm comprado grandes
quantidades de água engarrafada. Um deles comprou um gerador eléctrico. Operações
rotineiras, poderão dizer. Precauções contra um Verão quente ou as usuais
falhas das centrais eléctricas de Beirute. Talvez. Os libaneses estão fartos da guerra. O conflito que finalizou em 1990
destroçou as suas famílias e as suas casas e esvaziou as suas vidas de
sentido. Uma nova geração de libaneses regressou com educações no estrangeiro,
ambiciosos, irritados pelo sectarismo continuado da vida pública, bem como
pela muito reduzida presença síria. Mas os serviços de inteligência sírios
permanecem – o seu quartel‑general está na cidade de Aanjar a leste – e
a sua perseguição de espiões israelitas e da traição tornou‑se numa
obsessão. A este cenário cada vez mais sombrio, Hariri dirigia um olhar melancólico, não vendo nenhum mal e alegando não ouvir maldades. Então, qual era o seu verdadeiro papel na oposição? Era meramente um espectador desinteressado que observava do alto dos muros do seu palácio os homenzinhos da política libanesa enquanto brigavam sobre as mudanças nos contornos políticos? Ou tinha outras ambições? O dia de ontem provou que alguém acreditava que tinha. |