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Iraque |
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03/02/2005 O atacante suicida chegou a meia da tarde. Os poucos sobreviventes
que viram o homem pálido descreveram‑no como ruivo, com longa barba.
«Perguntou a algumas pessoas que estavam na entrada se seriam suficientemente
amáveis para mover os seus carros para que ele pudesse estacionar», disse Abu
Ali. «Foi muito cortês. Conduzia um Caprice. Então as pessoas notaram que ele
estava a estacionar de uma maneira que não lhe permitiria tirar o carro e
sair». A única recordação que todos têm é que o homem de barba reproduzia
música e salmos do Corão no seu aparelho de cassetes. «Em certo sentido»,
observou Abu Ali, «já estava morto». Bagdade é hoje um lugar sem nomes. Abu Ali, que significa “pai de
Ali”, tem mesmo um filho chamado Ali, mas suplicou‑me, enquanto mexia
uma e outra vez com nervosismo o seu cappuccino espesso, que riscasse
o seu nome de família do meu caderno de notas. Cada vez que encontro Ali,
sobreviveu a outra catástrofe. O ano passado foi o sequestro e a libertação
de Ali. Agora escapou à sua própria morte, mas custou‑lhe cinco
semanas de dolorosa recuperação no hospital de Yarmouk. Mesmo a companhia
árabe na qual trabalha deve permanecer anónima. Já tinha recebido uma ameaça,
«um telefonema de algo chamado “20º batalhão” de alguma organização com nome
religioso», mas os funcionários da companhia ainda não descobriram o que
supostamente fizeram para incomodar quem telefonou. O edifício de escritórios
estava perto da rua. E então veio a bomba. Abu Ali falava com rapidez,
ansioso por relembrar cada detalhe que lhe permitisse constatar o seu milagre
de sobrevivência. «Levei o meu novo BMW ao trabalho pela primeira vez nesse dia e
preocupava‑me que se arranhasse se o deixasse no estacionamento, por
isso deixei‑o na rua e pedi a um guarda de segurança que deitasse uma
olhadela». O seu nome também era Ali, e Abu Ali notou que parecia miserável.
«O pobre homem estava apenas sentado ali e disse‑me, “Não me sinto bem
esta manhã. Estou inquieto”. Por isso lia o Corão. Leu‑o todo o dia,
até ao último momento». Houve uma reunião de todos os directores da empresa nas primeiras horas
dessa tarde. O atacante sabia disso? Mas Abu Ali decidiu ir para casa cedo.
«Saí pela parte de trás, atravessando a cozinha, onde encontrei as
cozinheiras, Um Ghassan e Um Bassem. A companhia tinha‑as despedido
umas semanas antes e eu intercedi para que lhes devolvessem o emprego.
Estavam-me agradecidas. Ofereci-lhes uma boleia para casa no meu carro novo.
Um Ghassan disse‑me: “Oramos a toda a hora para que Deus te proteja”.
Sempre recordarei que isso foi o que ela disse». As mulheres aceitaram o convite de Abu Ali e caminharam em conjunto
até ao carro. «Ali, o guarda, estava lá e abri a porta e estava a ponto de
arrancar quando subitamente me dei conta de que me esqueci do meu portátil no
escritório. Assim deixei as mulheres lá e disse‑lhes que voltaria em
seguida». Esse foi o momento em que chegou o ruivo no Caprice, com o Corão no
aparelho de cassetes. «Voltei pela sala das traseiras do escritório e foi então que ocorreu
o estalido de uma explosão. Fui atingido na nuca e de lado por bocados de betão,
provavelmente do terraço. O edifício protegeu‑me. Mas levantei-me e
consegui chegar à rua num par de minutos e vi o meu carro a arder. Havia 28
carros a arder, todos em chamas. Ali, o guarda, o pobre tipo, já não estava.
Não é justo dizer que morreu: deixou de existir por completo. Não ficou nada
dele. Foi desintegrado». Nem Um Ghassen e Um Bassem. «Morreram de imediato e encontramos
partes delas, mas não conseguimos encontrar as suas cabeças». Aqui Abu Ali
recusou outro cappuccino, e olhou quase com desespero em torno do
vazio e frio café onde estávamos sentados. «Dois dias mais tarde encontrámos
as cabeças no terraço do edifício. Uma delas tinha ficado presa em parte do
telhado e demorou uma hora a soltá-la. E agora cá estou, um homem secular, a
pensar no seu sacrifício. Morreram por mim? É assim que devo ver o seu
sacrifício? Não sou uma pessoa religiosa, mas agora provavelmente reflicto
mais sobre Deus e sobre o que isto significa». Comentei, sem má intenção, que
parecia haver uma terrível ironia em tudo isto; que o atacante suicida que
escutava as palavras do seu Deus tinha indirectamente encorajado Abu Ali, com
o seu assassinato de oito pessoas nessa explosão, a tomar mais a sério esse
mesmo Deus. «O cometimento de suicídio está proibido pelo Islão», disse.
«Imolar-se por Deus ou pela pátria é outra coisa. Mas matar muçulmanos
inocentes? Sabe, foi‑me dito pelo sobrevivente de outro atentado à
bomba que viu o atacante com a bomba debaixo da camisa a dançar na rua e a
cantar uma canção tonta que falava de uma formosa mulher anjo. Pense nisso,
estava a dançar. Estava em transe, a pensar na mulher que ia recompensá-lo
uns segundos mais tarde no paraíso». Pensei na palavra “transe” e recordei
como se inspiraram nos sonhos os wahabitas sunitas, como Mullah Omar dos
Taliban anunciou que tinha levado a sua milícia à batalha depois de um sonho
de que tinha que acabar com a corrupção no Afeganistão, como os homens da al‑Qaeda
me disseram que tinham discutido os seus sonhos. Não recebeu o profeta Maomé
a sua mensagem de Deus em sonhos? «É uma obsessão entre os bombistas», foi
tudo o que disse o laico Abu Ali enquanto saíamos. Lá fora nas rua, três veículos Humvees patrulhavam sorrateiramente,
com os automóveis afastando‑se rapidamente deles para não serem apanhados
num ataque. Olhei para o soldado norte‑americano encarregado da
metralhadora da frente. Os seus olhos estavam estreitos como navalhas,
olhando vesgamente, observando com tanta atenção que me perguntei se isso não
deformará a sua cara. Também ele tinha as suas obsessões, claro, pois
procurava homens que sonharam sonhos e crêem que já estão mortos. Os sonhos podem não dominar as vidas de todos os iraquianos, mas a morte sim. Assim, findei o meu dia de ontem fazendo a minha peregrinação agora familiar ao lugar da morte, a mal cheirosa morgue da cidade. Este, claro, é um lugar de corpos e estatísticas, se ao menos os norte‑americanos e o seu governo nomeado se preocupassem o suficiente com os iraquianos para calcular quais são estes números. Ontem cruzei-me com uma família desesperada cujo filho tinha acabado de ser abatido a tiro. «Era o motorista do adjunto do ministro da saúde», disse o seu tio. «Apareceu como habitualmente para conduzir e havia homens armados à espera e abateram‑no a tiro». Não houve notícias disto e de novo devemos usar frases como “é claro” acerca de qualquer canal de rádio ou de televisão iraquiano. Na terça‑feira, um marido e uma esposa e a sua filha foram trazidos para a morgue, todos mortos a tiro. Ninguém entre os que trabalhavam na morgue sabia quem os matou. Mas era a grande dimensão das mortes violentas o que era tão chocante. Ontem, 23 corpos foram trazidos para a morgue. Havia 22 trazidos na terça‑feira. Há uma semana e meia atrás, em apenas um dia, quase 80 cadáveres chegaram; noutro dia, 50. Mesmo à razão de 20 por dia, uma cifra muito conservadora, isto significa que só em Bagdade, 140 civis morrem por semana, 560 em cada mês. De novo, não houve notícias disto. Durante os três dias das eleições, quando conduzir na cidade estava proibido, as cifras baixaram. Mas agora estão de volta ao normal. Assim, o que podemos concluir das lágrimas, da dor e da gritaria no recinto do funeral onde os corpos, metidos em caixões de madeira das mesquitas, são levados pelas famílias nas traseiras de camiões brancos e amassados? Na morgue, podíamos ouvir mais explosões troando sobre Bagdade. Morteiros? Bombas? Algumas famílias estavam tão zangadas que não podiam exprimir os seus pensamentos, quanto mais os detalhes dos mortos, no meio da sua raiva e pranto. Era o suficiente para fazer uma pessoa sonhar sonhos e pensar que já estava morto. |