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Iraque |
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31/01/2005 milhões votam, apesar dos
bombistas suicidas Mesmo enquanto as explosões troavam em Bagdade, as
pessoas chegavam às centenas e depois aos milhares. Famílias inteiras, homens
idosos aleijados sustidos pelos seus filhos, crianças ao seu lado, bebés nos
braços das suas mães, irmãs e tias e primos. Assim foi como os muçulmanos xiitas de Bagdade
votaram ontem. Caminharam calmamente para a escola do mártir Mohamed Bakr
Hakim em Jadriya, sem falar, através das ruas sem trânsito, a pressão do ar
mudando em seu redor enquanto os morteiros choviam sobre os complexos da
embaixada britânica e norte‑americana e o primeiro dos bombistas
suicidas do dia se imolava juntamente com as suas vítimas – a maioria delas, xiitas
– a três de quilómetros dali. Os curdos votaram, também, às dezenas de
milhares, mas os sunitas – 20 por cento da população do Iraque, cuja insurgência
era a principal razão para esta eleição – boicotaram ou foram intimidados para
fora dos centros de votação. A comparência – estimada em 60 por cento dos 15
milhões de eleitores iraquianos registados – representou uma vitória e uma
tragédia. Pois enquanto os xiitas votaram aos milhões com imensa coragem, a
voz sunita do Iraque permaneceu silenciosa, lançando em semi-ilegitimidade a Assembleia
Nacional cuja existência é suposta fornecer aos Estados Unidos uma desculpa
política para se desembaraçar do seu “pequeno Vietname” no Médio Oriente. E sim, claro, houve a violência que todos
esperávamos. Houve nove bombistas suicidas em Bagdade – o maior número num só
dia em qualquer lugar do Médio Oriente. Um mercenário norte-americano e um soldado dos
EUA estiveram entre os primeiros a morrer em Bagdade quando uns morteiros
explodiram, depois mais de 20 votantes – quatro assassinados junto de um centro
de votação na cidade de Sadr – foram abatidos; antes do crepúsculo chegaram notícias
de que um Hércules C‑130 de transporte da Royal Air Force se tinha
despedaçado a 40 quilómetros a noroeste de Bagdade em rota para a cidade de
Balad, largamente sob controle dos insurgentes, local de uma grande base
aérea dos EUA. Ao todo, quase 50 homens e mulheres foram mortos no Iraque. Mas quantos foram mortos no avião da RAF? A declaração
estranhamente temerosa de Tony Blair acerca das eleições ontem à noite
reconheceu algumas mortes, mas não forneceu outros detalhes. Porque não? Houve
três mortos entre a tripulação britânica? Ou cinco? Ou muitos, muitos mais? E
havia passageiros dos EUA? O presidente Bush também se referiu a mortos dos
EUA, como se incluíssem mais do que os dois mortos da manhã. Houve algo que
poderá ser revelado hoje, quando o “sucesso” das eleições tenha sido polido
sem uma tragédia que o deslustre? É claro, era a visão de milhares de xiitas, as
mulheres vestidas com um “hejab” negro, os homens nos seus casacos de couro
ou longas túnicas, as crianças caminhando ao seu lado, que cortava a
respiração. Se Osama bin Laden tinha chamado a estas eleições uma apostasia, muitos
não prestaram atenção às suas ameaças wahabitas. Vieram reclamar o poder a
que têm direito na terra – é por isso que o ayatolá Ali al‑Sistani, o
grande marja dos xiitas do Iraque, lhes disse para votar – e que a desgraça
atinja os norte‑americanos e os britânicos se o não entenderem. Porque se esta
eleição resultar numa coligação parlamentar que divida os xiitas e deixe o
seu maior partido na oposição, então a insurgência sunita converter‑se‑á
num levantamento nacional. «Vim aqui», contou-me um homem em Jadriya, «porque
o nosso grande marja nos disse que votar hoje era mais importante do
que rezar e jejuar». Mesmo o agente de eleições local estava quase em lágrimas.
Taleb Ibrahim admitiu‑me que tinha participado na eleição, de um só
homem, de Saddam, mas que este dia marcava o momento em que os xiitas –
depois de terem recusado vingar‑se dos seus opressores baathistas –
mostrariam magnanimidade. Mesmo que os sunitas estejam a boicotar a
consulta, disse ele, «existe um velho ditado que diz que “se o pai se zanga,
não teremos problemas com os seus filhos”. Faremos com que estes filhos, os
sunitas, tenham direitos iguais a nós». Num centro de votação, perguntei ao
primeiro dos jovens soldados iraquianos que nos deviam revistar – todos, devo
acrescentar, usavam máscaras pretas de lá para que nunca pudessem ser
identificados – se tinha medo. «Não interessa», disse muito firme. «Estou
pronto para morrer por este dia. Temos que votar». Sete horas mais tarde,
falei com ele novamente, e agora ele, também, tinha a tinta indelével no seu
polegar. «É como se pudéssemos mudar o nosso futuro ou a nossa fé», disse. «Só
tivemos golpes militares e revoluções anteriormente». Votávamos “Sim” ou “Sim”.
Agora votamos por nós próprios». Era fácil ser embriagado com estas palavras, beber
o falso optimismo das cadeias de televisão ocidentais e dos disparates sobre
este dia “histórico” do Iraque – porque só terá sido histórico se mudar este
país, e muitos temem que o não fará. Nenhuma das pessoas que encontrei ontem acredita
que a insurgência terminará. Muitos opinaram que crescerá mais feroz e os xiitas
nos centros de votação disseram em uníssono que também estavam a votar para livrar
o Iraque dos norte‑americanos, não para legitimar a sua presença. Ontem nas ruas, os norte‑americanos
mobilizaram milhares de tropas, a maioria delas tentando mostrar algum
respeito pelas pessoas. Um certo capitão Buchanan do Arkansas até arriscou um
pensamento político. «É uma pena que os sunitas não estejam a votar – são eles
que perdem», disse. Mas é claro que é também uma perda para o Iraque e, de um
modo directo, uma perda para os xiitas – e possivelmente para os Estados
Unidos. Porque sem a vital componente da minoria, quem acreditará no novo
parlamento ou na Constituição que é suposto produzir ou no próximo governo que
é suposto criar? Perguntei ontem a um guarda de segurança muçulmano sunita qual
pensava que seria o futuro do seu país. Ele não tinha votado, é claro – em
muitas cidades sunitas, somente um terço dos centros de votação abriram – mas
tinha pensado muito na questão. «Não podem dar-nos “democracia” sem mais», disse. «Este é um dos vossos sonhos ocidentais, estrangeiros. Antes, tivemos Saddam e ele era um homem cruel e tratou‑nos cruelmente. Mas o que vai acontecer depois desta eleição é que vocês nos vão dar uma grande quantidade de pequenos Saddam». |