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30/01/2005 – e os iraquianos
continuarão a morrer Ontem em Bagdade supunha-se que estivessem a
preparar-se para uma eleição. Mas estavam a preparar-se para uma guerra. Os veículos blindados Bradley norte‑americanos
nas ruas, as patrulhas a pé dos EUA, os velhos veículos russos de transporte
que Saddam Hussein comprou à União Soviética – agora disfarçados com a
pintura opaca de camuflagem que distingue o “novo” exército iraquiano – os
polícias encapuzados e mascarados; não parecem o prelúdio de uma experiência
de democracia. Estão à espera dos rios de sangue de que advertiram os
insurgentes. Mas haverá democracia no Iraque. Choveram morteiros esta manhã na Zona Verde, onde
as embaixadas dos EUA e britânica estão localizadas. Um ruído estrepitoso
trouxe os helicópteros Apache norte‑americanos
sobre as estradas das redondezas em menos de 30 segundos, mas os rebeldes
tinham desaparecido. A seguir, desencadeou-se um feroz tiroteio no centro de
Bagdade entre norte‑americanos e insurgentes. Demasiado tarde outra
vez, os homens armados escaparam. Ataques de fantasia antes de uma eleição de
fantasia. Muitos iraquianos não conhecem os nomes dos candidatos, quanto mais
as suas políticas. Mas haverá democracia no Iraque. Espera-se que os rapazes dos media participem no
jogo. “Transição de poder”, diz o logotipo que aparece na cobertura ao vivo
das eleições feita pela CNN, apesar de a consulta ser para eleger um
parlamento que redigirá uma Constituição e os homens que formarão uma maioria
nesse corpo, não terão poder algum. Não terão controle sobre o seu petróleo, nem
autoridade nas ruas de Bagdade, para não dizer no resto do país, não disporão
de um exército operacional nem de uma polícia leal. O seu único poder é o do
exército norte‑americano e dos seus 150.000 soldados, os quais pudemos
ver nos principais cruzamentos de Bagdade ontem. As grandes cadeias de televisão têm recebido uma
lista de cinco secções eleitorais onde lhes será “permitido” filmar. Uma
análise minuciosa da lista mostra que quatro das cinco se encontram em zonas
muçulmanas xiitas – onde a participação será provavelmente elevada – e uma
numa zona sunita rica, onde será moderada. Todas as urnas localizadas em
zonas sunitas da classe trabalhadora estarão vedadas à imprensa. Pergunto-me
se os rapazes da televisão nos contarão isto hoje quando mostrarem os
eleitores a chegarem às urnas “em bandos”. Ontem, no distrito de Karada, encontrámos três
camiões cheios de jovens, todos agitando bandeiras iraquianas, todos – como
os desempregados que têm estado a colar cartazes nas paredes de Bagdade –
pagos pelo governo para “promover” a eleição. E havia um operador de câmara
da televisão estatal iraquiana, controlada pelo governo “interino” de Iyad
Allawi. A verdadeira “história” encontra-se fora de
Bagdade, nas dezenas de milhares de quilómetros quadrados que estão fora do
controle governamental e do campo visual dos jornalistas independentes,
sobretudo nas quatro províncias sunitas que constituem o coração da
insurreição iraquiana. Até à hora da abertura das urnas, os jactos dos
EUA continuaram a bombardear “alvos terroristas”, os últimos na cidade de
Ramadi – a qual, ainda que George W. Bush e Tony Blair não o admitam – está
agora em poder dos insurgentes tão seguramente como esteve Faluja antes de os
norte‑americanos a destruírem. Todos os meses desde que Allawi, ex-agente da
CIA, foi nomeado pelo governo dos EUA como primeiro-ministro, os
bombardeamentos aéreos norte‑americanos aumentaram exponencialmente.
Não há repórteres “encaixados” na gigantesca base aérea dos Estados Unidos no
Qatar ou a bordo dos porta-aviões norte‑americanos posicionados no
Golfo Pérsico, a partir dos quais se lançam estas missões cada vez mais
numerosas e mortais. Elas não são registadas, noticiadas; são parte da guerra
de “fantasia” que é muito real para as vítimas, mas que se mantém oculta para
nós, os jornalistas que se escondem, acovardados, em Bagdade. A realidade é que boa parte do Iraque se
converteu numa zona de fogo livre — (...) — e os norte-americanos estão a
conduzir esta guerra secreta de maneira tão eficiente e desapiedada como
conduziram a sua anterior campanha de bombardeamentos contra o Iraque entre
1991 e 2003, com um ataque aéreo por dia, ou dois, ou três. Então estavam a
atacar os “alvos militares” de Saddam no Iraque. Agora estão a atacar os
“alvos terroristas estrangeiros” ou as “forças anti-iraquianas”. Gosto
especialmente desta última pois acontece que os estrangeiros envolvidos nesta
violência são, na realidade, norte-americanos que atacam, sobretudo, iraquianos. E não apenas em áreas sunitas. Só este mês, por
exemplo, um avião dos EUA disparou mísseis contra um dormitório de estudantes
da Universidade de Erbil, no norte curdo do país. Entre os curdos feridos
estava um sobrevivente do ataque com gás venenoso que Saddam lançou sobre
Halabja – uma das razões porque Bush e Blair supostamente invadiram este
lugar infeliz. Os norte-americanos não deram explicações. Por que bombardearam curdos? Para avisá-los de
que não lhes será dada a independência? Ou para que parem de disputar a
cidade de Mossul, que o “novo” Iraque quer conservar como parte do seu
território nacional, não entregá‑la a um futuro “Curdistão”? Sim, sei como tudo será apresentado. Os
iraquianos comparecerão valentemente para votar apesar das ameaças de banhos
de sangue dos inimigos da democracia. Finalmente, as políticas
norte-americanas e britânicas serão realizadas – será instaurada uma
democracia verdadeira e funcional para que possamos partir em breve. Ou no
próximo ano. Ou numa década mais ou menos. O simples facto de celebrar estas
eleições — um acto de loucura, aos olhos de muitos iraquianos — será um
“êxito”. Os xiitas votarão em massa, o sunitas
abster-se-ão na maioria. O poder xiita tomará posse pela primeira vez num
país árabe. E então começará a manipulação e as acusações de fraude e as
admissões de que as eleições poderão ter tido “falhas” em algumas zonas. Mas continuaremos a dizer “democracia” e “liberdade” uma e outra vez, a insurgência continuará e crescerá de forma ainda mais violenta, e os iraquianos continuarão a morrer. Mas haverá democracia no Iraque. |