Informação Alternativa

Iraque

30/01/2005

 

Continuaremos a celebrar a “democracia”

– e os iraquianos continuarão a morrer

 

Robert Fisk

 

Ontem em Bagdade supunha-se que estivessem a preparar-se para uma eleição. Mas estavam a preparar-se para uma guerra.

 

Os veículos blindados Bradley norte­‑americanos nas ruas, as patrulhas a pé dos EUA, os velhos veículos russos de transporte que Saddam Hussein comprou à União Soviética – agora disfarçados com a pintura opaca de camuflagem que distingue o “novo” exército iraquiano – os polícias encapuzados e mascarados; não parecem o prelúdio de uma experiência de democracia. Estão à espera dos rios de sangue de que advertiram os insurgentes. Mas haverá democracia no Iraque.

 

Choveram morteiros esta manhã na Zona Verde, onde as embaixadas dos EUA e britânica estão localizadas. Um ruído estrepitoso trouxe os helicópteros Apache  norte­‑americanos sobre as estradas das redondezas em menos de 30 segundos, mas os rebeldes tinham desaparecido. A seguir, desencadeou-se um feroz tiroteio no centro de Bagdade entre norte­‑americanos e insurgentes. Demasiado tarde outra vez, os homens armados escaparam. Ataques de fantasia antes de uma eleição de fantasia. Muitos iraquianos não conhecem os nomes dos candidatos, quanto mais as suas políticas. Mas haverá democracia no Iraque.

 

Espera-se que os rapazes dos media participem no jogo. “Transição de poder”, diz o logotipo que aparece na cobertura ao vivo das eleições feita pela CNN, apesar de a consulta ser para eleger um parlamento que redigirá uma Constituição e os homens que formarão uma maioria nesse corpo, não terão poder algum.

 

Não terão controle sobre o seu petróleo, nem autoridade nas ruas de Bagdade, para não dizer no resto do país, não disporão de um exército operacional nem de uma polícia leal. O seu único poder é o do exército norte­‑americano e dos seus 150.000 soldados, os quais pudemos ver nos principais cruzamentos de Bagdade ontem.

 

As grandes cadeias de televisão têm recebido uma lista de cinco secções eleitorais onde lhes será “permitido” filmar. Uma análise minuciosa da lista mostra que quatro das cinco se encontram em zonas muçulmanas xiitas – onde a participação será provavelmente elevada – e uma numa zona sunita rica, onde será moderada. Todas as urnas localizadas em zonas sunitas da classe trabalhadora estarão vedadas à imprensa. Pergunto-me se os rapazes da televisão nos contarão isto hoje quando mostrarem os eleitores a chegarem às urnas “em bandos”.

 

Ontem, no distrito de Karada, encontrámos três camiões cheios de jovens, todos agitando bandeiras iraquianas, todos – como os desempregados que têm estado a colar cartazes nas paredes de Bagdade – pagos pelo governo para “promover” a eleição. E havia um operador de câmara da televisão estatal iraquiana, controlada pelo governo “interino” de Iyad Allawi.

 

A verdadeira “história” encontra-se fora de Bagdade, nas dezenas de milhares de quilómetros quadrados que estão fora do controle governamental e do campo visual dos jornalistas independentes, sobretudo nas quatro províncias sunitas que constituem o coração da insurreição iraquiana.

 

Até à hora da abertura das urnas, os jactos dos EUA continuaram a bombardear “alvos terroristas”, os últimos na cidade de Ramadi – a qual, ainda que George W. Bush e Tony Blair não o admitam – está agora em poder dos insurgentes tão seguramente como esteve Faluja antes de os norte­‑americanos a destruírem.

 

Todos os meses desde que Allawi, ex-agente da CIA, foi nomeado pelo governo dos EUA como primeiro-ministro, os bombardeamentos aéreos norte­­‑americanos aumentaram exponencialmente. Não há repórteres “encaixados” na gigantesca base aérea dos Estados Unidos no Qatar ou a bordo dos porta-aviões norte­­‑americanos posicionados no Golfo Pérsico, a partir dos quais se lançam estas missões cada vez mais numerosas e mortais. Elas não são registadas, noticiadas; são parte da guerra de “fantasia” que é muito real para as vítimas, mas que se mantém oculta para nós, os jornalistas que se escondem, acovardados, em Bagdade.

 

A realidade é que boa parte do Iraque se converteu numa zona de fogo livre — (...) — e os norte-americanos estão a conduzir esta guerra secreta de maneira tão eficiente e desapiedada como conduziram a sua anterior campanha de bombardeamentos contra o Iraque entre 1991 e 2003, com um ataque aéreo por dia, ou dois, ou três. Então estavam a atacar os “alvos militares” de Saddam no Iraque. Agora estão a atacar os “alvos terroristas estrangeiros” ou as “forças anti-iraquianas”. Gosto especialmente desta última pois acontece que os estrangeiros envolvidos nesta violência são, na realidade, norte-americanos que atacam, sobretudo, iraquianos.

 

E não apenas em áreas sunitas. Só este mês, por exemplo, um avião dos EUA disparou mísseis contra um dormitório de estudantes da Universidade de Erbil, no norte curdo do país. Entre os curdos feridos estava um sobrevivente do ataque com gás venenoso que Saddam lançou sobre Halabja – uma das razões porque Bush e Blair supostamente invadiram este lugar infeliz. Os norte-americanos não deram explicações.

 

Por que bombardearam curdos? Para avisá-los de que não lhes será dada a independência? Ou para que parem de disputar a cidade de Mossul, que o “novo” Iraque quer conservar como parte do seu território nacional, não entregá­‑la a um futuro “Curdistão”?

 

Sim, sei como tudo será apresentado. Os iraquianos comparecerão valentemente para votar apesar das ameaças de banhos de sangue dos inimigos da democracia. Finalmente, as políticas norte-americanas e britânicas serão realizadas – será instaurada uma democracia verdadeira e funcional para que possamos partir em breve. Ou no próximo ano. Ou numa década mais ou menos. O simples facto de celebrar estas eleições — um acto de loucura, aos olhos de muitos iraquianos — será um “êxito”.

 

Os xiitas votarão em massa, o sunitas abster-se-ão na maioria. O poder xiita tomará posse pela primeira vez num país árabe. E então começará a manipulação e as acusações de fraude e as admissões de que as eleições poderão ter tido “falhas” em algumas zonas.

 

Mas continuaremos a dizer “democracia” e “liberdade” uma e outra vez, a insurgência continuará e crescerá de forma ainda mais violenta, e os iraquianos continuarão a morrer. Mas haverá democracia no Iraque.