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29/01/2005 da maneira que os norte‑americanos
imaginaram Os muçulmanos xiitas estão prestes a herdar o Iraque, mas as eleições que amanhã os levarão ao poder estão a criar receios profundos entre os reis e ditadores árabes do Médio Oriente de que a sua liderança sunita esteja ameaçada. Os Estados Unidos insistiram nestas eleições – que produzirão um parlamento maioritariamente xiita que representará a maior comunidade religiosa do Iraque – porque são supostas providenciar uma estratégia de saída para as assediadas forças dos EUA, mas parecem destinadas a mudar o mapa geopolítico do mundo árabe de uma forma que os norte‑americanos jamais imaginaram. Para George Bush e Tony Blair este é o grande mandato da lei de consequências não intencionais. No meio de toques de recolher, encerramentos de fronteiras e restrições às deslocações em todo o país, a votação no Iraque começará amanhã sob a ameaça do parecer de Osama Bin Laden de que as eleições representam uma “apostasia”. A votação começou entre os iraquianos expatriados ontem na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, na Suécia, na Síria e noutros países, mas o comparecimento às urnas foi muito menor do que o esperado. Os norte-americanos levantaram a possibilidade de derramamento de sangue em massa amanhã e as autoridades de inteligência dos EUA advertiram o seu pessoal na embaixada em Bagdade de que os insurgentes podem ter “reservado” bombistas suicidas para ataques em massa contra locais de voto. Mas fora do Iraque, os líderes árabes estão a falar de um “Crescente” xiita que irá do Irão pelo Iraque até ao Líbano via a Síria, cuja liderança alawita forma um ramo do islão xiita. Os desvalidos do Médio Oriente, reprimidos pelos otomanos, pelos britânicos e pelos ditadores pró‑ocidentais da região, serão uma nova e potente força política. Embora os partidos políticos xiitas no Iraque tenham prometido que não exigirão uma república islâmica – os seus discursos sugerem que não desejam recrear a revolução iraniana no seu país – a sua vitória inevitável numa eleição que será boicotada pela maioria dos iraquianos sunitas implica que este país será a primeira nação árabe governada por xiitas. Na superfície, isto pode não ser aparente; Iyad Allawi, ex agente da CIA e actual primeiro‑ministro “interino” xiita, é largamente indicado como a única escolha viável para próximo primeiro‑ministro – mas os reis e emires do Golfo Pérsico encaram essa perspectiva com alarme. No Bahrain, a monarquia sunita governa sobre a maioria xiita que protagonizou uma mini‑insurreição nos anos 90. A Arábia Saudita durante muito tempo tratou a sua minoria xiita com suspeita e repressão. No mundo árabe diz‑se que Deus favoreceu os xiitas com petróleo. Estes vivem em cima das mais ricas reservas de petróleo da Arábia Saudita e de alguns campos petrolíferos kuwaitianos. Com a excepção de Mosul, os xiitas iraquianos vivem quase exclusivamente entre os massivos campos de crude do seu próprio país. A riqueza petrolífera do Irão é controlada pela esmagadora maioria xiita do país. O que é que tudo isto pressagia para os potentados sunitas da península arábica? A nova Assembleia Nacional do Iraque e o próximo governo interino que esta eleja darão poder aos xiitas da região, convidando‑os a questionar porque é que também a eles não poderá ser dada uma quota parte justa nas decisões dos seus países. Os norte-americanos temiam originalmente que as eleições parlamentares no Iraque criassem uma república islâmica xiita e fizeram inevitáveis – e desnecessárias – advertências ao Irão para que não interferisse. Mas agora temem muito mais que sem eleições 60 porcento da comunidade xiita se una à insurgência sunita. Assim, a consulta de amanhã é, para os norte-americanos, um meio para conseguir um fim, uma forma de proclamar que – conquanto o Iraque pode não se ter tornado na democracia liberal e estável que prometeram criar – começou o seu caminho para uma liberdade de estilo ocidental e que as forças norte-americanas podem sair. Poucos no Iraque acreditam que estas eleições terminarão com a insurgência, quanto mais que tragam paz e estabilidade. Ao celebrar a consulta agora – quando os xiitas, que não combatem os norte-americanos, votam e os sunitas, que combatem os norte‑americanos, não – as eleições só podem agudizar as divisões entre as duas maiores comunidades do país. Porquanto Washington não tinha claramente previsto os resultados da sua invasão deste modo, a sua exigência de “democracia” está agora a mover as placas tectónicas do Médio Oriente numa nova e incerta direcção. Os estados árabes fora do “Crescente” xiita temem o poder político xiita ainda mais do que os assusta a democracia genuína. Não surpreende, portanto, que o rei Abdullah da Jordânia esteja a advertir que isto poderia desestabilizar o Golfo Pérsico e colocar “um desafio” aos Estados Unidos. Isto também explica a atitude tolerante da Jordânia para com a insurgência, muitos de cujos líderes cruzam livremente a fronteira com o Iraque. A asseveração norte-americana de que se movem secretamente da Síria para o Iraque parece amplamente falsa; não é provável que os homens que encabeçam a rebelião contra o domínio dos EUA no Iraque atravessem ilegalmente o deserto sírio‑iraquiano quando podem cruzar “legalmente” a fronteira com a Jordânia. A eleição de amanhã pode ser sangrenta. Pode bem produzir um parlamento tão sobrecarregado de xiitas que os norte-americanos sentirão a tentação de “completar” os membros sunitas da Assembleia escolhendo alguns dos seus, que serão inevitavelmente acusados de colaboracionistas. Mas estabelecerá o poder xiita no Iraque – e no mais alargado mundo árabe – pela primeira vez desde a grande ruptura entre sunitas e xiitas que se seguiu à morte do profeta Maomé. |