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Iraque |
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29/01/2005 deveria dar‑nos
esperança a todos Bush acredita no bem e no mal. Assim como o seu gémeo espiritual, Osama bin Laden. Nunca estive muito seguro acerca do mal. Mas posso acreditar no bem. O primeiro livro que a minha mãe me deu para ler por mim próprio foi o Diário de Anne Frank, a rapariga alemã judia cuja vida a esconder‑se na ocupada Amsterdão – até à traição da família às mãos dos nazis – constituiu uma tão grande inspiração para futuras gerações. Ela acreditava que todas as pessoas eram basicamente boas. Se Anne ainda acreditava nisto enquanto, deitada, morria de tifo no campo de concentração de Belsen, nunca saberemos. E se for verdadeiramente honesto, tenho de admitir que nos últimos 30 anos de cobertura de guerras na Irlanda, na Jugoslávia e no Médio Oriente, encontrei alguns homens terríveis, assassinos e violadores e carrascos, alguns dos quais claramente gostavam do seu ofício. Outras tantas razões, portanto – neste momento de temerosas eleições iraquianas – de reconhecer um excelente homem iraquiano, neste caso, o marido de Margaret Hassan que foi, se a cassete não era falsa, tão cruelmente assassinada pelos seus raptores no ano passado. Tahseen Hassan ainda vive com Margaret, no seu coração e na sua mente, e no momento em que entrei na sua casa em Bagdade pude ver porquê. O seu senso comum e bom gosto e beleza estavam em todo o lado. As mantas de seda Qom no sofá, o mobiliário, as fotografias eram tudo da sua escolha. «Veja, Margaret para mim ainda está aqui porque vivi com ela nesta casa e ela comprou esta casa, e ainda a vejo sentada ali», disse Tahseen. Apontou para uma cadeira ao lado da sala de estar e eu voltei‑me para ela como se Margaret fosse estar sentada ali. Tahseen conduz‑me em torno do quarto. «Este retrato de Margaret foi pintado da fotografia na sala de entrada. É uma boa pintura. E ali está ela quando foi a Nova Iorque para se opor à invasão. Ela não agradou aos britânicos ou norte‑americanos. Foi às Nações Unidas». Tinha esquecido a campanha de Margaret nos Estados Unidos, mas lá estava ela sorrindo sabiamente para a câmara no topo de um edifício, com a familiar silhueta de Manhattan sem o World Trade Center. Isso era bastante típico de Margaret. Odiava a repressão de Saddam – os seus esbirros interrogariam Tahseen acerca do seu trabalho inocente – e odiava as sanções letais que mataram tantas dezenas de milhares de iraquianos. Encarava a invasão de Bush‑Blair – com bastante acerto – como simultaneamente brutal e ilegal. O que pensaria ela das eleições de amanhã? Não podemos falar pelos mortos, mas ela teria entendido a violência que predicam e as divisões que semearão entre muçulmanos sunitas e xiitas. Tahseen estava muito composto – ele concorda comigo que expressões de pesar podem parecer muito banais – mas admite que suportou dias horríveis depois da sua esposa ter sido raptada. «Vinha para casa, sentava‑me aqui e chorava», disse. «Sentava‑me aqui e dava em louco chorando e soluçando. Não penso que os insurgentes fizeram isto, não penso que os iraquianos fizeram isto. E até agora, não posso ter a certeza que seja Margaret quem foi morta. Disse que não podia ver o vídeo que foi divulgado – não por ela ser minha esposa, mas porque não suporto ver alguém ser assassinado. Parece que a pessoa na cassete estava mascarada. O meu cunhado foi ao Qatar e viu a gravação. Telefonou‑me e disse: “Tenho a certeza que é Margaret”. Não sei como. Veja, tendo vivido com alguém durante três décadas, não posso acreditar que Margaret se tenha ido. Não posso acreditar que esteja morta. Se está morta, que a enterrem. Se está viva, que ma devolvam». Considero impossível em tais momentos falar a pessoas que choram pelos seus entes queridos – e ainda mais impossível quando o homem com quem falo não possui provas do seu pior pesadelo. Então sento‑me e escuto a voz do bem e tento esquecer as degolações e os tiros na cabeça e as vítimas inertes dos bombistas suicidas e os civis abatidos pelos norte‑americanos e os abusos vis de Abu Ghraib e as eleições violentas de amanhã. Porque é que, pergunto a mim mesmo, as virtudes brilham tão claramente apenas naqueles que sofreram? Tahseen é confortado pela presença do seu sobrinho Rami que nos trouxe chá, mas havia uma grande quietude na casa e Tahseen falava muito suavemente, como que ansioso por não acordar quaisquer fantasmas. «Queriam apenas matá‑la, calá‑la», disse a certa altura. «Se isto aconteceu, se Margaret foi assassinada, quem está por trás? Quem obtém o benefício de matar esta mulher? Ela devotou a sua vida aos iraquianos. Era uma mulher muito bondosa. Um dia voltou aqui a casa em lágrimas e perguntei‑lhe porquê. Ela disse: “Vi uma criança com os pés nus na rua a pedir. Não posso acreditar – este é um dos países mais ricos do mundo”. [A agência de auxílio] Care estava preocupada pela sua segurança e ofereceu‑se para lhe dar um desses carros blindados. E ela apenas disse: “E os meus colegas? Também obtêm carros blindados?” Era um alvo muito fácil. Estava por todo o Iraque – Fallujah, Amara, Bassora...» O último projecto de Margaret Hassan foi a abertura de uma clínica de reabilitação para feridos de guerra em Bagdade perto do velho edifício da ONU. «O ministro da saúde pediu para ela o fazer. Ela forneceu a todos os pacientes cadeiras de rodas, camas, ar condicionado. Tinha de fazer visita todos os dias». Tahseen fala acerca de Margaret tanto no passado como no tenso presente, mantendo‑a viva e depois, suspeito, gentilmente deixando‑a partir. Lembra-se da sua vida em conjunto de forma cronológica; como ela se casou com ele em Londres – ele era o gerente da estação da Iraqi Airways em Heathrow – e mudou para Bagdade em 1972. Ele foi despedido do seu trabalho – porque tinha casado com Margaret, uma estrangeira – mas foi empregado pela Alitalia. Ela tinha lido as notícias em inglês na televisão iraquiana e trabalhava no British Council até que fechou após a invasão do Kuwait por Saddam em 1990 – tal como o fez o escritório da Alitalia em Bagdade – mas então Margaret entrou na Care e salvou vidas iraquianas, incluindo crianças com leucemia cujos medicamentos eram pagos pelos leitores do The Independent e distribuídos por Margaret e pelos seus colegas. Ele não se consegue lembrar da data do rapto de Margaret Hassan. Não fala das videogravações da sua agonia, das lágrimas, dos apelos, da cassete que não viu da mulher parcialmente mascarada atingida a tiro na cabeça. No dia do seu rapto, caminhou até ao portão para se despedir, tal como caminhou até ao portão para se despedir de mim. «Não há ninguém, nenhum corpo, não querem saber», disse, «Podiam lançar o corpo na rua. Mas sabe, agarro‑me a algo. Chamo à minha esperança dela estar viva o meu “pequeno pedaço de fio”». Os raptores levaram o telemóvel de Maragret Hassan e ainda está registado na própria lista de telefones de Tahseen: 07901-916561. Se chamamos o número, uma voz gravada diz: “Não tem permissão de fazer esta chamada”. Desligado. Como boas pessoas estraçalhadas. Gostaria encarecidamente de acreditar no «pequeno pedaço de fio» de Tahseen. Ele acredita no bem e não fala do mal, o que – neste fim‑de‑semana de todos os fins‑de‑semana do Iraque – poderá ser o mais poderoso exemplo para este país. |