Informação Alternativa

Iraque

17/01/2005

 

O jornalismo de hotel dá às tropas norte­americanas rédea solta enquanto a imprensa se abriga dentro de portas

 

Robert Fisk

 

“Jornalismo de hotel” é a única forma de chamá-lo. Cada vez mais os repórteres ocidentais em Bagdade fazem reportagem dos seus hotéis, e não nas ruas das cidades e vilas do Iraque. Alguns são acompanhados a todo o lado por mercenários ocidentais contratados, fortemente armados. Uns quantos vivem em escritórios locais, dos quais os seus editores lhes recusam permissão para sair. Muitos usam contactos iraquianos, correspondentes em tempo parcial que arriscam a sua vida para conduzir entrevistas para jornalistas norte-americanos ou britânicos, e nenhum pode contemplar uma viagem fora da capital sem dias de preparativos, a não ser que se “encaixem” nas forças norte-americanas ou britânicas.

 

Rara vez, se alguma, foi a guerra coberta por repórteres de uma forma tão distante e restringida. Os correspondentes do New York Times vivem em Bagdade por trás de uma barreira maciça com quatro torres de observação, protegidos por homens de segurança recrutados entre a população local, de espingarda em punho e camisolas com as siglas NYT. Os da cadeia de televisão NBC estão escondidos num hotel com grades de ferro sobre a porta, proibidos pelos seus conselheiros de segurança de visitar a piscina ou o restaurante, «quanto mais o resto de Bagdade», não vá acontecer que os ataquem. Vários jornalistas ocidentais não saem dos seus quartos enquanto estão atribuídos em Bagdade.

 

Tão graves são as ameaças aos jornalistas ocidentais que algumas estações de televisão falam de retirar os seus repórteres e técnicos. No meio de uma insurgência em que os ocidentais – e muitos árabes, bem como outros estrangeiros – são sequestrados e assassinados, cobrir esta guerra está a tornar-se quase impossível. O assassinato videofilmado de um correspondente italiano, o homicídio a sangue frio de um dos principais repórteres da Polónia e do seu operador de câmara búlgaro, e o igualmente sanguinário assalto a um repórter japonês na notória Estrada Nacional 8, a sul de Bagdade, no ano passado, persuadiram muitos jornalistas de que uma grande dose de discrição é a melhor parte da valentia.

 

O The Independent, juntamente com vários outros jornais britânicos e norte­‑americanos, ainda cobre as notícias em Bagdade em pessoa, movendo­‑se com vacilação – para não falar de trepidação – pelas ruas de uma cidade que a pouco e pouco está a ser tomada pelos insurgentes. Há apenas seis meses, ainda era possível partir de Bagdade de manhã, ir de carro a Mosul ou Najaf ou outras grandes cidades para cobrir uma história, e voltar ao anoitecer. Em Agosto, levava­‑me duas semanas a negociar uma duvidosa segurança para uma viagem de uns meros 130 quilómetros fora de Bagdade.

 

Encontrava os postos de controle militar nas auto­‑estradas desertos, as estradas ladeadas de camiões norte-americanos destroçados e veículos da polícia incendiados. Hoje, é quase impossível. Os motoristas e intérpretes que trabalham para jornais e companhias de televisão estão ameaçados de morte. Vários pediram para ser dispensados das suas funções a 30 de Janeiro, para que não sejam reconhecidos nas ruas durante as eleições iraquianas. Na brutal guerra dos anos 90 na Argélia, pelo menos 42 repórteres locais foram assassinados e um operador de câmara francês foi morto a tiro na kasbah de Argel. Mas as forças de segurança argelinas ainda podiam dar um mínimo de protecção aos repórteres. No Iraque, nem sequer se podem proteger a si mesmas.

 

A polícia e a Guarda Nacional Iraquiana – muito alardeadas pelos norte­‑americanos como os homens que tomarão as rédeas após uma retirada norte­‑americana – estão fortemente infiltradas por insurgentes. Os postos de controle podem ser controlados por polícias, mas não está claro neste momento para quem trabalham. Os soldados norte­‑americanos que operam dentro e nos arredores de Bagdade são agora evitados pelos jornalistas ocidentais, a não ser que estejam “encaixados”, tal como o são por iraquianos por causa da indisciplina com que abrem fogo sobre civis à menor suspeita.

 

Nesta situação afloram as perguntas. Quanto vale a vida de um repórter? A história vale o risco? E, algo muito mais sério do ponto de vista ético, porque é que não há mais jornalistas a informar sobre as restrições sob as quais operam? Durante a invasão anglo-americana de 2003, os editores insistiam em prefaciar os despachos dos jornalistas do Iraque de Saddam, falando sobre as restrições sob as quais operavam. Mas hoje, quando os nossos movimentos estão muito mais circunscritos, nenhuma “saudável advertência” como essa acompanha as suas reportagens. Em muitos casos, os telespectadores e os leitores ficam com a impressão de que o jornalista é livre de viajar pelo Iraque para verificar as notícias que ele ou ela com tanta confiança enviam diariamente. Não é assim.

 

«Os militares dos Estados Unidos não poderiam estar mais felizes com esta situação», diz um correspondente veterano norte­‑americano em Bagdade. «Sabem que se bombardearem uma casa de pessoas inocentes, podem afirmar que era uma base “terrorista” e ficarão impunes. Não nos querem a vasculhar o Iraque, e dessa forma a ameaça “terrorista” é uma grande notícia para eles.

 

«Podem declarar que mataram 600 ou 1.000 insurgentes e não temos forma de comprová­‑lo porque não podemos ir ao cemitério nem visitar os hospitais, pois não queremos ser sequestrados ou que nos cortem o pescoço».

 

Por conseguinte, muitos repórteres estão agora reduzidos a telefonar dos seus quartos de hotel ao exército norte­‑americano ou ao governo “interino” iraquiano para pedir informações, recebendo “factos” de homens e mulheres que, na Zona Verde de Bagdade, em torno do antigo palácio republicano de Saddam Hussein, estão ainda mais isolados do Iraque do que os jornalistas. Ou recebem reportagens dos seus correspondentes “encaixados” nas tropas norte-americanas e que obterão, necessariamente, apenas o lado norte­‑americano da história.

 

Sim, ainda é possível informar das ruas em Bagdade. Mas cada vez menos de nós estão a fazer isto, e pode chegar um momento em que tenhamos que pesar o valor das nossas reportagens contra o risco das nossas vidas.

 

Não chegamos ainda a esse ponto. Até agora, ainda vemos um pouco mais do Iraque do que as pessoas que afirmam estar a governar este país.