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Iraque |
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15/01/2005 – até aterrar em Bagdade Experimentei o novo serviço aéreo Beirute‑Bagdade esta semana,. Era um pequeno aparelho aerodinâmico de 20 lugares e duas hélices, um piloto libanês-canadense e um nome cheio de nostalgia. Chamava-se “Linhas aéreas Tapete Voador”. Como o comandante Queeg disse em Motim no Caine, não estou a brincar convosco. Dizia “Tapete Voador” nos pequenos bilhetes de embarque azuis, por baixo da cabina do capitão e nas cobertas das cabeceiras dos passageiros, onde o avião podia ser visto a planar pelo céu num tapete de pelo felpudo. E é também um voozinho estranho. Chega‑se ao novo e elegante aeroporto de Beirute de aço e cristal, onde se indica ao passageiro que procure o balcão de check‑in em frente ao posto de correio, na sala de chegadas. Havia um grupo de norte‑americanos desconsolados – “contratistas” que passaram o fim de semana nos bordéis – e temerosos homens de negócios libaneses e, bem, adivinharam, o igualmente temeroso correspondente do The Independent. Demorou algum tempo até me dar conta de que tudo era uma espécie de metáfora iraquiana. Da sala de chegadas de Beirute, passa‑se pelos detectores de metais das portas de saída, atravessa‑se descontraídamente o flamejante e novo duty free, toma‑se um cappuccino e depois – lá vamos nós – dirigimo‑nos à porta de saída especial reservada para as peregrinações a Meca. Numa sala que parece uma caixa pintada de branco, espera‑se um pequeno autocarro azul que eventualmente avança inocentemente de entre os hangares que ainda têm as marcas deixadas pelas bombas da guerra, que o Líbano está feliz por esquecer, até chegar à escada do único avião na frota da Tapete Voador. Só quando já tinha subido, meio encurvado, para o meu lugar no avião, me apercebi que estávamos a apenas umas centenas de metros do lugar da base da marinha dos EUA, que sofreu um atentado suicida em 1983, custando 241 vidas norte‑americanas. Recordo como a pressão do ar mudou dentro do meu apartamento em Beirute quando a bomba explodiu e como, alguns dias mais tarde, vi o vice‑presidente George Bush pai parado entre os entulhos, dizendo-nos: «Não permitiremos que um punhado de insidiosos terroristas covardes mude a política externa dos Estados Unidos». Eh hum. Então, em meses, o presidente Ronald Reagan decidiu “reposicionar” os seus marines a bordo de navios ao largo da costa, uma manobra que figurou ao lado de outras grandes vitórias militares como o reposicionamento de Napoleão em Moscovo e o reposicionamento britânico em Dunquerque. Estes, claro, eram pensamentos hereges enquanto nos elevámos acima das montanhas libanesas nevadas, cruzámos a fronteira com a Síria e depois voámos para leste, pelos eternamente escurecidos, castanho‑carregados desertos da Síria e do Iraque. Abri o meu jornal matutino. E lá estava o filho rabugento do velho George Bush, com o seu sorriso bobo, dizendo ao mundo que conquanto possam existir alguns problemas no velho “Ayrak”, as eleições de 30 de Janeiro celebrar‑se‑ão; a violência será derrotada; os maus não poderão deter o avanço da democracia. Em outras palavras, ele não ia deixar que um punhado de insidiosos terroristas covardes mudasse a política externa de Estados Unidos. Eh hum. Evidentemente, no momento em que chegamos ao cenário da nova grande experiência em democracia de Bush – e todos esperamos as eleições em Bagdade com o mesmo entusiasmo que as pessoas de Dresden mostraram quando os primeiros aviões Lancaster sobrevoaram o Elba – tudo parece muito diferente. O aeroporto de Bagdade está repleto de mercenários armados e gurkas amistosos, mas igualmente armados. E há um enorme cartaz perto do terminal com uma maciça fotografia a cores das consequências de um ataque com carro bomba em Bagdade, completo com o cadáver de uma mulher seminua na parte inferior direita. O texto por baixo desta obscenidade está em árabe. «Querem destruir o nosso país – atacam escolas. Estes cães querem manter os nossos filhos na ignorância para lhes poder ensinar a odiar. Precisamos da ajuda das forças multinacionais para lhes mostrar que faremos tudo para recuperar o nosso país e extirpar os assassinos e saqueadores das nossas estradas que têm a total responsabilidade por estes crimes terríveis cometidos contra o nosso pacífico povo iraquiano. O povo iraquiano recusa‑se a ser vítima porque é uma comunidade forte que nunca morrerá». Eh hum, de novo. Porquanto os iraquianos querem segurança, um número cada vez maior deles estão a apoiar os cães e cada vez menos desejam a assistência das “forças multinacionais” que, em Bagdade e em muitas das províncias sunitas sob controle dos insurgentes, significam o exército do presidente Bush. É claro, as sondagens de opinião – uma invenção do Ocidente, não do Oriente – mostram que a maioria dos iraquianos gostaria de um pouco da democracia de Bush. Nos dias do brutal Saddam, seguramente queriam‑na ainda mais – embora, na época, estivéssemos ocupados a apoiar o regime de Saddam para que ele pudesse extirpar todos os assassinos no Irão, para não mencionar os comunistas iraquianos, os xiitas iraquianos e os curdos que estavam a tentar destruí-lo. As sondagens de opinião também demonstrarão que uma maioria de iraquianos – uma maioria ainda maior, suspeito – gostaria de alguma segurança da parte dos assassinos e saqueadores que a actual força multinacional não parece ser capaz de apanhar. E a maior maioria de todos os iraquianos gostaria, sem dúvida, de ter passaportes norte‑americanos. De facto, ocorreu‑me com frequência que a única forma segura de terminar com a guerra do Iraque seria dar a cidadania norte‑americana a todos os iraquianos, exactamente da mesma maneira como os romanos faziam dos povos conquistados cidadãos de Roma. Mas como esta não é uma ideia que se recomende a Bush e aos seus construtores de império, os iraquianos vão ter que suportar a democracia nos seus povoados e cidades violentos, sem electricidade e sem petróleo. Os xiitas, evidentemente, têm estado impacientemente à espera de eleições há quase dois anos. O procônsul norte‑americano, Paul Bremer, tinha demasiado medo de celebrá‑las pouco depois da invasão – quando poderiam ter lugar sem muita violência – caso o Iraque se convertesse numa teocracia xiita. Os curdos também estão à espera de deixar a sua marca no seu pequeno estado emergente a norte. O problema é que sem a participação dos muçulmanos sunitas, os resultados destas eleições - conquanto serão livres no sentido em que as de Saddam não o eram – serão tão pouco representativas da nação iraquiana como as votações que costumavam dar à Besta 98,86 por cento dos votos. Os norte‑americanos ameaçam agora com “completar” o parlamento com alguns sunitas escolhidos por eles mesmos. E todos sabemos quão representativos eles serão da comunidade sunita que é o coração da insurgência contra a ocupação norte‑americana. No conjunto, uma poderosa
confusão a considerar depois das eleições de 30 de Janeiro. Os rastilhos de incêndios
já estão a ser ateados, mas não temam, Bush e Blair dir‑nos‑ão
que sempre souberam que as coisas ficariam violentas no dia da votação – o
que fará com que esteja bem, suponho – e que, se a violência piorar, só
demonstrará quão bem sucedidas essas eleições foram porque fizeram os
assassinos, saqueadores e cães zangar‑se. Um punhado de insidiosos
terroristas covardes não vai mudar a política externa dos Estados Unidos. Bem,
veremos. Entretanto, estou a verificar os horários de voo para ver se o meu
tapete voador me pode levar de regresso a Beirute depois de 30 de Janeiro. |