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13/01/2005 dizem refugiados de
Fallujah Vivem debaixo de velhas tendas que o vento levanta, no parque de estacionamento da mesquita de Mustafá e as suas cozinhas de lona encontram-se junto a um charco de águas infectas, mas os refugiados de Fallujah não regressarão a casa. Em primeiro lugar, porque muitos não têm casa para onde ir; em segundo lugar, porque estão – com o encorajamento de clérigos locais – a listar uma série de reivindicações que incluem a retirada de todos os soldados norte‑americanos da cidade, a manutenção da segurança pelos próprios habitantes de Fallujah, pagamentos maciços de compensação e a devolução de dinheiro e artigos de valor que aqueles que acabam de visitar Fallujah dizem terem sido roubados pelas tropas norte‑americanas. E muito definitivamente não irão votar nas eleições de 30 de Janeiro. Acocorado no solo do seu escritório com paredes de cimento, com a sua túnica negra, para comer o seu almoço de frango com arroz, o xeque Hussein – ele rogou‑me que não publique o seu nome de família – insistiu que a sua gente não está contra as eleições. «Não recusamos estas eleições porque sim», disse. «Recusamo‑las porque são o “pilar” da ocupação. São o veículo para os norte‑americanos assegurarem que [o primeiro‑ministro interino Iyad] Allawi volte a entrar. E ainda estamos sob ocupação». Um académico barbudo e de óculos estava sentado ao lado do xeque, o doutor Abdul‑Kader, do Departamento de Ciências Islâmicas da Universidade de Bagdade, que sério me recordou os mortos civis de Fallujah. «Houve centenas», assinalou. «Encontrámos cadáveres nas casas e sepulturas nos jardins das casas». Os familiares mais próximos do xeque vivem em Fallujah; a sua própria mesquita sunita encontra‑se no centro do acampamento em Bagdade onde 925 dos 200.000 refugiados de Fallujah estão a viver. Mas afirmou ter viajado em duas ocasiões até às casas dos seus familiares e contou uma história perturbadora do que encontrou. «A primeira vez que fui depois de os norte-americanos ocuparem a cidade, a nossa casa estava de pé. Tinha sobrevivido. Tudo o que estava dentro, camas, móveis, tapetes, estava a salvo. Mas quando regressei uma semana depois, tinha sido destruída. Muitas outras casas estavam no mesmo estado. «Sobreviveram intactas aos combates entre os norte-americanos e a resistência, mas foram destruídas depois. Porquê? As pessoas lá disseram‑me que viram câmaras de filmar e que os norte‑americanos lançavam obuses para as casas vazias e que estavam a fazer algum filme». As histórias de roubo norte-americano em cidades iraquianas não são novas. A Amnistia Internacional listou numerosos incidentes em que tropas dos EUA levaram dinheiro de lares ou das roupas de homens detidos. As autoridades dos EUA reconheceram um caso de pilhagem a grande escala cometido por um jovem oficial norte‑americano a sul de Bagdade em 2003, mas afirmaram que ele tinha sido retirado do Iraque e seria “demasiado difícil” localizá-lo. As histórias de pilhagem em Fallujah só pioram a sensação de agravo dos refugiados. E as reivindicações demasiado entusiastas de compensação. «Contentar‑nos‑emos com 5 mil a 10 mil milhões de dólares», afirmou o xeque Hussein. «Isto é pela destruição de Fallujah, pelo derramamento de sangue e pelo assassinato de inocentes; a história registará isto. Os norte-americanos começaram matando nativos norte‑americanos e ainda matam pessoas que vêem como inferiores». Todos na habitação, incluindo um estudante de ciências da computação de Fallujah, que até aí tinha escutado em absoluto silêncio, acenaram vigorosamente as suas cabeças. «Um dia», continuou o xeque, «fui detido e levado para uma base norte‑americana, e fui interrogado pela CIA, e disseram: “Você é um homem religioso e queremos que nos aconselhe”. Eu respondi: “O que lhes quero dizer é que não entrem nas cidades porque as pessoas estão à espera de uma oportunidade para vos atacar. Far‑vos‑ão sofrer de diferentes maneiras. Retirem as vossas tropas para os desertos, longe dos disparos da resistência, ainda que isso aumente muito a distância”. Mas eles foram muito, muito estúpidos. Não aproveitaram a oportunidade para sair. Ficaram para nos forçar a ter eleições para poderem sair e deixar os seus agentes no poder. Digo isto: as tropas norte‑americanas retirarão subitamente, ou encontrar-se‑ão prisioneiras dentro da armadilha do Iraque. Sabe, vocês os ocidentais riem‑se de nós os orientais, especialmente quando dizemos “Se Alá quiser”. Mas o Profeta – a paz seja com ele – uma vez disse que os iraquianos seriam flagelados pela fome, que não receberiam um só dirham [cêntimo] ou um grão de arroz na mãos, e isto ocorreu no embargo económico dos anos 90. «Então os Estados Unidos chegaram cá depois de 9 de Abril de 2003, com todo o seu poder e soldados, tão orgulhosos de se verem livres de Saddam Hussein. Mas agora a moral destes soldados está a apodrecer dia a dia. Têm problemas psicológicos. O meu conselho para eles é que se vão embora. Têm uma escolha a fazer: devem ir‑se embora ou serão forçados a sair». Os combates continuam cada noite em Fallujah apesar da proclamação norte‑americana de vitória e de estarem a “partir a coluna vertebral” da insurgência. Como disse o xeque, não sem algum sentido de humor: «Os norte-americanos circulam pelas ruas durante o dia, das 6 da manhã às 6 da tarde, mas não se mexem quando a muqawama [resistência] impõe o seu próprio recolher entre as 6 da tarde e as 6 da manhã». Lá fora no parque de estacionamento ventoso, as tendas agitavam‑se e os refugiados formavam fila para tomar sopa de um caldeirão de um metro de profundidade, cheio de caldo amarelo, espumoso. Sacos de tâmaras tinham‑se rompido e estavam derramados no chão de cimento. É Fallujah em miniatura. Vinte professores da cidade dirigem agora uma escola do acampamento para 120 crianças. Os médicos vêem os pacientes no lar privado do xeque. Um bisavô do acampamento disse‑me que não pode voltar à sua cidade enquanto os norte‑americanos lá estiverem. E quando lhe perguntei se vai votar, riu‑se de mim. «Os norte-americanos devem sair de Fallujah», disse o xeque. «Fizeram demasiado dano lá para serem aceites». Sugeri que os problemas de
Fallujah começaram no dia em que o 82º batalhão aerotransportado matou 18
manifestantes à porta de uma escola local, logo depois da queda de Bagdade,
em 2003. O doutor Abdul Kader admoestou‑me. «Começou ainda antes
disso», disse. «O povo de Fallujah sofreu sob Saddam e libertou a sua própria
cidade. Não o fizeram para viver sob ocupação». |