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Iraque |
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12/01/2005 se esconde por detrás de
máscaras O jornalismo é um mundo de frases feitas, mas aqui, a primeira frase feita que vem à mente é verdadeira. Bagdade é uma cidade de medo. Iraquianos temerosos, milicianos temerosos, soldados norte-americanos temerosos, jornalistas temerosos. O dia em que as bênçãos da
democracia choverão sobre nós, 30 de Janeiro, aproxima‑se com toda a
certeza e velocidade do dia do juízo final. O último vídeo de Zarqawi mostra
a execução de seis polícias iraquianos. Cada um é morto com um tiro na nuca,
um a um. Um sobrevivente finge‑se morto. Então um homem armado
aproxima‑se por trás e rebenta‑lhe a cabeça à bala. Estas
imagens assombram todos. No cruzamento de al‑Hurriya,
ontem de manhã, quatro camiões cheios de guardas nacionais iraquianos – os
futuros salvadores do Iraque, segundo George W. Bush – passaram pelo meu
carro. As suas espingardas eram picos de porcos‑espinhos, apontadas a
todos os automobilistas, a todos os iraquianos no passeio, o exército
iraquiano apontando as suas armas ao seu próprio povo. E todos usavam máscaras
– capuzes pretos ou máscaras de esqui ou keffiyas que deixavam apenas fendas
para os olhos assustados. Imediatamente antes de ter finalmente caído nas mãos
dos insurgentes no Verão passado, vi exactamente o mesmo cenário nas ruas de
Mahmoudiya, a sul de Bagdade. Agora vejo‑os na capital. Na praça Kamal Jumblatt, junto do rio Tigre, dois Humvees norte-americanos aproximaram‑se da rotunda. Os seus homens armados com metralhadoras gritaram aos motoristas que se mantivessem longe deles. Um grande letreiro escrito em árabe na traseira de cada veículo dizia: «Proibido. Não ultrapasse este comboio. Mantenha‑se a 50 metros de distância». Os automobilistas atrás obedeceram; conheciam o significado da frase “força mortal” [deadly force, ou “força pronta a disparar”], que os norte‑americanos escreveram nos letreiros dos seus postos de controle. Mas os dois Humvees chegaram a um enorme engarrafamento, com os homens armados a gritar‑nos para que retrocedêssemos. Quando um táxi que não notou
que as tropas dos EUA lhe bloqueava o caminho se aproximou, o soldado no veículo
da frente arremessou uma garrafa de plástico cheia de água para o seu
tejadilho e o condutor subiu a relva da rotunda. Um camião recebeu o mesmo
tratamento do Humvee da frente. «Retrocedam», gritou o soldado armado atrás, olhando
para nós através dos seus óculos escuros. Tentámos desesperadamente voltar
atrás no engarrafamento. Sim, os russos provavelmente
teriam lançado granadas de mão em Kabul. Mas aqui estavam os aterrorizados “libertadores”
de Bagdade atirando garrafas de água aos iraquianos que eram supostos
desfrutar de uma democracia imposta pelos norte‑americanos a 30 de Janeiro. O Humvee de trás tinha «especialista
Carrol» escrito no pára-brisas. Estou
seguro que o «especialista Carrol» encara cada um de nós como potenciais bombistas
suicidas – e não posso culpá-lo. Um desses bombistas tinha acabado de se
dirigir à estação policial de Tikrit, a norte de Bagdade, e destruiu‑se
a si mesmo e às vidas de pelo menos seis polícias. No virar da esquina, descobri
a razão do engarrafamento: polícias iraquianos repeliam centenas de automobilistas
desesperados por combustível, os motoristas recusando‑se a continuar a
fazer fila por algo que o Iraque possui em grandes quantidades: petróleo. Passei pelo restaurante
Ramaya para almoçar. Fechado. Estão a construir uma parede de segurança de 20
metros em torno do local. Assim dirigi‑me ao Rif para comer uma pizza,
teclando de vez em quando o piano do restaurante, enquanto vigiava a entrada
para ver se entrava alguém que não queria ver. Os empregados estavam
nervosos. Ficaram contentes por trazer a minha pizza em 10 minutos. Não havia
mais ninguém no restaurante, entendem, e vigiavam a rua lá fora como coelhos amistosos.
Estavam à espera de O Carro. Telefonei a um velho amigo
iraquiano que costumava publicar uma revista literária durante o regime de
Saddam. «Querem que vote, mas não podem proteger-me», disse. «Talvez não haja
um bombista suicida no local de votação. Mas serei vigiado. E se apanho com uma
granada de mão em minha casa três dias mais tarde? Os norte‑americanos
dirão que fizeram o seu melhor; a gente de Allawi dirá que sou um “mártir da
democracia”. Por isso, pensas que vou votar?» Na universidade de
Moustansariya – uma das melhores do Iraque – os estudantes de literatura
inglesa estão a ponto de enfrentar o seu exame final do período. Janeiro
marca o termo do semestre iraquiano. Mas um dos estudantes contou‑me
que os seus colegas disseram ao seu professor que – tão tensos estão os tempos
– que ainda não estavam preparados para o exame. Em vez de lhes dar zeros a
todos, o professor brandamente adiou o exame. Conduzi de regresso pelo
cruzamento de al-Hurriya junto à “Zona Verde” e de repente apareceu um grande
veículo 4x4 preto, cheio de homens armados usando máscaras de esqui. «Para trás!»,
gritaram a todos os automobilistas enquanto tentavam cortar pelo canteiro
separador. Desci a janela. A porta traseira do 4x4 abriu‑se
inesperadamente. Um ocidental mascarado – loiro, olhos azuis – apontou uma Kalashnikov
ao meu carro. «Para trás!», guinchou num árabe horrendo. Então abriu passo na
intersecção seguido de três camiões blindados, com vidros polarizados, pneus
a chiar sobre o pavimento, levando os sagrados ocidentais para a duvidosa
segurança da “Zona Verde”, o complexo hermeticamente selado de onde o Iraque é
supostamente governado. Dei uma olhadela à imprensa iraquiana. Colin Powell advertiu sobre uma “guerra civil” no Iraque. Porque é que nós os ocidentais insistimos em ameaçar com a guerra civil num país cuja sociedade é tribal, mais do que sectária? De todos os jornais, é o curdo Al Takhri, leal a Mustafa Barzani, que faz a mesma pergunta. «Nunca houve uma guerra civil no Iraque», fulmina o editorial. E tem razão. Assim, “a todo o vapor” para as temidas eleições de 30 de Janeiro e para a democracia. Os generais norte-americanos – com uma singular mistura de mentira e esperança no meio da insurgência – dizem agora que só quatro das 18 províncias do Iraque poderão não participar “plenamente” nas eleições. Boa notícia. Até que nos sentamos
a analisar as estatísticas de população e nos damos conta de que – como todos
os generais o sabem – essas quatro províncias contêm mais de metade da
população do Iraque. |