Informação Alternativa

Mundo

08/01/2005

 

Uma história rotineira dos nossos tempos:

abuso, espancamentos, encarceramento e injustiça

 

Robert Fisk

 

Viajei a Zarqa na véspera de Natal – Zarqa como em “Zarqawi”, já que é de facto a cidade natal do mais recente papão dos Estados Unidos, uma cinzenta, suja e pobre, cidade ventosa a sul de Amman. O homem que fui ver era palpavelmente inocente de qualquer crime – na verdade, até tem um documento do exército norte-americano que o comprova – mas passou quase dois anos da sua vida preso no Afeganistão e na Baía de Guantánamo. A história de Hussein Abdelkader Youssef Mustafá diz­‑nos muito sobre a “guerra contra o terror” e dos abusos que esta traz consigo.

 

É um homem delgado, ascético, com longa barba encarapinhada, e sentou­‑se no chão de cimento da casa do seu irmão vestido com uma capa comprida e um barrete de lã preto e óculos sem armação. É palestiniano de nascimento mas tinha residido no Paquistão desde 1985, trabalhando numa escola perto de Peshawar ensinando afegãos que tinham fugido da invasão soviética de 1980, visitando o Afeganistão apenas uma vez, em 1988, para ensinar numa escola perto de Mazar­‑e­‑Sharif. Então, em 25 de Maio de 2002, soldados paquistaneses e polícias vestidos à paisana irromperam em sua casa, amarraram Mustafá, levaram­‑no para fora de casa passando por dois ocidentais, um homem e uma mulher vestidos em roupas civis – ele supõe que eram agentes do FBI – e largaram­‑no na velha prisão de Khaibar por 10 dias. Foi aí interrogado por um norte-americano loiro que falava árabe e depois levado para o aeroporto de Peshawar, onde foi transladado, junto com outros 34 árabes – ilegalmente segundo o direito internacional – para a grande base norte­‑americana de Bagram, no Afeganistão.

 

«Tínhamos sido encapuzados no avião, e quando chegámos despiram­‑nos e deram­‑nos fatos­‑macacos com números. Eu era o 171 e então passei dois meses sob interrogatório», disse-me Mustafá. «Eram norte-americanos, usualmente em uniforme mas sem nomes. Queriam saber da minha vida, sobre os afegãos que conhecia, sobre de onde vinham os passaportes falsos. Não sabia nada disto. Disse­‑lhes tudo sobre mim. Disse que era inocente. Fizeram-me ficar parado sobre uma perna ao sol. Não me deixavam dormir por mais de duas horas. Tínhamos apenas um barril como casa de­ banho e tínhamos que usá­‑lo diante de todos».

 

Nas horas seguintes, fiquei a saber que as autoridades jordanas disseram a Mustafá que não falasse mais das suas experiências – sem dúvida, os norte­‑americanos disseram aos jordanos que o calassem. Mas ele admitiria mais tarde: «A minha tortura foi ainda menor do que fizeram a outros. Inseriram-me um pau de vassoura por atrás e fui golpeado severamente e água foi lançada em mim antes de enfrentar um ar condicionado». E porque pensa que os norte-americanos lhe fizeram isto? «Se um prisioneiro não cumpria e não cooperava em dar detalhes em Bagram, ele seria abusado de acordo com quão convencido o interrogador pensasse que ele era culpado; e para atingir o nível de “não culpado” aos olhos do interrogador, tinha que suportar um longo período de abusos físicos».

 

Após dois meses, e 15 interrogatórios, Mustafá diz que um dos seus interrogadores norte­‑americanos lhe disse que acreditava que ele estava inocente. «Disse­‑me: “Viste Cuba na televisão? Vou fazer de ti um dos prisioneiros lá. Sinto muito, está fora das nossas mãos. Tens de ir para Cuba”». «Fomos amarrados, vendaram­‑nos os olhos, algemaram­‑nos e prenderam­‑nos com correntes. Puseram-nos óculos escuros de modo que não pudéssemos ver. Cobriram-nos os nossos ouvidos, e nariz e boca e mal podia respirar. No avião, meteram três ou quatro comprimidos na minha boca, drogas. Senti todo o tempo que estava entre dormindo e acordando. Levou 24 horas a chegar a Cuba e parámos uma vez no caminho e mudámos de avião cerca de quatro horas depois de sair de Bagram».

 

Diego Garcia? Era esta a misteriosa base aérea? Foram estes muçulmanos acorrentados, encapuzados, drogados, transladados via a muito nossa e muito britânica Diego Garcia?

 

Mustafá diz que foi tratado com menos dureza na Baía de Guantánamo. Um dos seus interrogadores era um iraquiano norte-americano. «Fui encerrado primeiro em isolamento num quarto todo feito de metal. Mesmo o chão era metálico. Havia apenas uma pequena fenda na porta. Reviram os relatórios que tinham sobre mim, fazendo­‑me uma e outra vez as mesmas perguntas. Porque era eu um professor no Paquistão? Porque tinha ido para o Afeganistão? Às vezes nos chuveiros, as mulheres soldados norte­‑americanas podiam ver­‑nos nus. Barbearam-nos as barbas. Se não obedecêssemos às ordens rapidamente, burrifavam­‑nos a cara com aerosol paralisante. Em Bagram golpeavam os homens com paus. Aqui não faziam isso. Mas muitos homens tentaram cometer suicídio em Guantánamo. Recordo pelo menos 30. Víamo­‑los enforcar­‑se a si mesmos e gritávamos: “Soldados! Rápido!”, e os norte­‑americanos vinham e desciam­‑nos».

 

Ao todo, Mustafá passou 20 meses em Cuba, e nos últimos 10 desses meses, diz, ninguém lhe fez uma só pergunta. «Então um dia, fizeram­‑me um teste com detector de mentiras e exames médicos e mediram­‑me para saber o meu tamanho de roupa e deram­‑me jeans e um casaco e ténis. Três dias mais tarde, um intérprete norte­‑americano disse­‑me que íamos embora. Perguntei-lhe para onde, e respondeu: “Não faço ideia, mas não temos nada mais que fazer contigo”».

 

Cinco dias mais tarde, encapuzado e atado, Mustafá foi posto num avião junto com um iraquiano, um turco e dois tajiques, e voou de regresso a Bagram. As íris dos seus olhos foram fotografadas. «Disseram­‑nos que agora éramos “hóspedes”, mas passei outros quatro meses em Bagram. Então um oficial norte-americano veio ver-nos e disse: “Como vocês sabem, fomos objecto de um grande ataque e milhares dos nossos cidadãos foram assassinados. Foi por isso que prendemos todas estas pessoas. Agora voltarão para os vossos países como qualquer outro cidadão e não terão nenhum problema que enfrentar”. E isso foi tudo? Nenhuma desculpa, nada. Levaram-me de regresso a Amman».

 

Entregaram a Mustafá um documento da força de tarefa conjunta 76 dos EUA em Bagram. Diz: «Foi determinado que este indivíduo não coloca nenhuma ameaça às forças armadas dos Estados Unidos ou aos seus interesses no Afeganistão. Este indivíduo foi libertado perto do seu local de captura».

 

A Cruz Vermelha confirmou a libertação de Mustafá num documento que chamava à sua cidade natal «Silat al­‑Hatezia, Palestina». Mas os norte-americanos não tinham tanta coragem. Enfrentados com o pequeno problema do país natal de Mustafá, podem imaginar como devem ter­‑se afligido com este. Atrever-se­‑iam a pôr a palavra “Palestina”? Claro que não. Assim, ao lado de “País”, escreveram “Cisjordânia”.

 

Mustafá está desempregado e vive com a sua família em Zarqa, mas sem futuro. Roubaram­‑lhe dois anos da sua vida, e a sua história – por vergonhosa que seja – é agora tão rotineira que se presta a ser esquecida. Quando a Cruz Vermelha primeiro me revelou em 2002 que Mustafá tinha sido transladado ilegalmente do Paquistão para o Afeganistão, escrevi acerca disso no The Independent. Nem um jornal retomou a história. Mas diz­‑nos muito acerca do mundo ilegal em que George Bush pensa que devemos viver. O 11 de Setembro de 2001 tornou­‑se se num artigo de legislação. Permite-nos deter quem quisermos, interrogar quem quisermos, abusar quem quisermos, prender quem quisermos, invadir os países que quisermos. Este é o memorial da administração Bush aos mortos do World Trade Center e do Pentágono e da Pennsylvania. Golpes, abusos, encarceramento de inocentes – apenas, é claro no caso de Mustafá, por informação – e para o diabo com isso. E, até podemos inventar um novo nome para o país de origem de um prisioneiro. Cisjordânia, claro que sim!