Informação Alternativa

Iraque

30/12/2004

 

Um atoleiro de morte, mentiras e atrocidades

 

Robert Fisk

 

Quem o disse e quando?

 

«O povo de Inglaterra foi conduzido à Mesopotâmia para cair numa armadilha da qual será difícil sair com dignidade e honra. Foi levado a isso por uma constante retenção de informação. Os comunicados de Bagdade são tardios, insinceros, incompletos. As coisas têm sido muito piores do que nos têm dito, a nossa administração é mais sangrenta e ineficiente do que o público sabe... Hoje não estamos longe do desastre».

 

Resposta: T.E. Lawrence (da Arábia, o famoso) no The Sunday Times em Agosto de 1920. E cada uma das suas palavras é verdadeira hoje. Mentiram­‑nos sobre armas de destruição em massa. Mentiram­‑nos sobre as ligações entre Saddam Hussein e o 11 de Setembro de 2001. Mentiram­‑nos sobre os insurgentes – recordam­‑se que eles eram apenas “nostálgicos desesperados” [dead-enders] e “restos”? – e mentiram­‑nos sobre as melhorias no Iraque quando todo o país estava paulatinamente a sair das mãos das potências ocupantes ou das do governo de sátrapas que elas instalaram no seu lugar. Suspeito que também nos mentem sobre as eleições no próximo mês. 

 

Durante o ano passado, houve suficiente evidência de que todo o nosso projecto no Iraque é defeituoso sem esperança, que os exércitos ocidentais – quando não estão a torturar prisioneiros, a matar inocentes e a destruir uma das maiores cidades iraquianas – estão a ser vencidos por um feroz exército de guerrilha, um como nunca se tinha visto no Médio Oriente. Os meus cálculos sugerem – provavelmente conservadores, pois há muitos actos violentos de que nunca nos falam – sugerem que nos últimos 12 meses pelo menos 190 bombistas suicidas se fizeram explodir, por vezes ao ritmo de dois por dia. Como é que isto acontece? Há um supermercado de bombistas suicidas, uma loja a retalho? Que fizemos nós para criar esta extraordinária indústria? Houve uma época, no Líbano, em que um atentado suicida ocorria uma vez por mês. Ou na Palestina/Israel, uma vez por semana. Agora, no Iraque, é por dia ou duas vezes por dia.

 

E as tropas norte­‑americanas estão a enviar para casa histórias cada vez mais terríveis sobre a morte gratuita de civis por forças dos EUA nos povoados e cidades do Iraque. Aqui, por exemplo, estão as provas apresentadas pelo ex sargento de marines Jimmy Massey, testemunhando ante uma audiência de refugiados no Canadá, no princípio deste mês. Massey contou ao tribunal canadense – que deverá decidir se outorgará o estatuto de refugiado a um desertor norte­‑americano da 82ª brigada aerotransportada – que ele e os seus colegas marines dispararam e mataram mais de 30 homens desarmados, mulheres e crianças, incluindo um jovem iraquiano que saiu do seu carro com os seus braços levantados.

 

«Matámos o homem», afirmou Massey. «Disparámos a uma taxa cíclica de 500 balas por veículo». Massey assumiu que os iraquianos mortos não entenderam os gestos para parar. Noutra ocasião, de acordo com Massey, marines em reacção a uma bala perdida – abriram fogo e mataram um grupo de manifestantes e transeuntes desarmados.

 

«Eu estava profundamente preocupado pelas mortes de civis», assinalou Massey. «O que eles (os marines) estavam a fazer era cometer assassinato». O desertor da brigada 82ª brigada aerotransportada, Jeremy Hinzman, disse à corte que «foi­‑nos dito para considerar todos os árabes como potenciais terroristas... para adoptar uma atitude de ódio que nos faz ferver o sangue».

 

Tudo isto, evidentemente, é parte da “informação retida”. Levou meses antes que a tortura e os abusos em Abu Ghraib se fizessem públicos – apesar de a Cruz Vermelha Internacional ter já alertado as autoridades norte­­‑americanas e britânicas. Levou meses, já agora, para que o governo britânico reagisse aos espancamentos ultrajantes – e um assassinato – perpetrados contra iraquianos indefesos em Bassora, expostos pela primeira vez pelo The Independent. Nos primeiros sete meses do ano passado, as autoridades mantiveram que ainda «controlavam» o Iraque, apesar de – quando conduzi 110 quilómetros ao sul de Bagdade, em Agosto – só vi postos de controle abandonados ao longo das estradas cheias dos restos queimados de camiões norte­‑americanos e veículos policiais.

 

Ainda não se nos diz quantos civis morreram no assalto norte­‑americano a Fallujah. A afirmação norte­‑americana de que mataram mais de 1.000 insurgentes – só insurgentes, notem, nem um só civil entre eles – é absurda. Ainda não somos livres de entrar na cidade. Nem, dado o facto de que parece que ainda há insurgentes lá, é provável que alguém o possa fazer. Porque é que os aviões norte­­‑americanos continuam a bombardear Fallujah, semanas depois de o exército dos EUA reivindicar tê­‑la capturado?

 

É difícil, em todo o ano passado, pensar em algo não tenha saído mal ou que não tenha piorado no Iraque. A rede eléctrica está a entrar em colapso de novo, as filas para conseguir petróleo são maiores do que eram nos dias que se seguiram à invasão ilegal em 2003, e a segurança é inexistente em todo o país, com a excepção do norte curdo. 

 

A proposta de submeter a juízo os favoritos de Saddam parece cada vez mais uma tentativa de justificar a invasão e distrair a atenção dos horrores por vir. Mesmo as próximas eleições começam a parecer cada vez mais uma distracção. Pois se os sunitas não podem – ou não irão – votar, de que valerá esta eleição? Donald Rumsfeld deu­‑nos a primeira dica de que as coisas poderiam não correr de acordo com o plano quando falou antes das presidenciais norte­‑americanas de levar a cabo eleições por “partes” no Iraque. O que quer isto dizer?

 

Contudo, os invasores ainda nos dizem que as coisas estão a melhorar, que o Iraque está a ponto de ingressar na irmandade de nações. Bush até foi reeleito depois de dizer esta mentira. Os sacos com cadáveres estão a regressar a casa com maior frequência que nunca – não é suposto que perguntemos quantos iraquianos estão a morrer – mas ainda assim é­‑nos dito que a invasão valeu a pena, que os iraquianos estão melhor, a segurança melhorará e – esta é minha favorita – que a situação piorará à medida que se aproximem as eleições.

 

Esta é a mesma velha história que Bush e Rumsfeld usaram na primavera passada: que as coisas estão a melhorar – motivo pelo qual os insurgentes geram tanta violência; por outras palavras, quanto melhor as coisas estão, pior as coisas vão ficar. Quando lemos estes absurdos em Washington ou em Londres, pode fazer sentido. Em Bagdade, é loucura. Eu não diria isto aos jovens soldados norte­‑americanos que foram tão arrogantemente informados por Rumsfeld que «vai­‑se à guerra com o exército que se tem».

 

Seria agradável registar alguma felicidade em algum lugar no Médio Oriente. As eleições palestinas no Ano Novo? Bem, sim, mas se o descolorido e antidemocrático Mahmoud Abbas é o melhor a que os palestinianos podem aspirar, depois do demasiado colorido Yasser Arafat, então as suas hipóteses de conseguir um Estado são tão deprimentes como eram quando Arafat residia no seu bunker de Ramallah. 

 

O primeiro­‑ministro israelita, Ariel Sharon, não está a tentar encerrar os assentamentos judeus ilegais em Gaza porque quer ser simpático com os palestinianos; e as desdenhosas declarações do seu porta­‑voz sobre a Cisjordânia – de que a retirada de Gaza «conservaria em formol» um Estado palestino – não sugerem que os ocupados vão receber um Estado dos ocupantes. O que significa, de uma maneira ou outra, que a intifada recomeçará. Ponto em que os israelitas se queixarão que Abbas não pode «controlar a sua própria gente», e os israelitas e palestinianos voltarão ao seu conflito sem esperança.

 

É impossível reflectir sobre este ano no Iraque sem nos darmos conta do quão profundamente a luta israelo‑palestina afecta todo o Médio Oriente. Os iraquianos seguem a batalha palestina com grande seriedade. O apoio de Saddam aos palestinianos era uma das coisas com que muitos iraquianos se podiam identificar - mesmo que detestassem o seu próprio ditador. E duvido muito que o bombista suicida tivesse amadurecido tão rapidamente no Iraque sem o precedente estabelecido pelos bombistas suicidas palestinos e, antes deles, os do Líbano.

 

É esta capacidade de estabelecer precedentes dos acontecimentos no Médio Oriente – não os míticos «combatentes estrangeiros» do mundo de fantasia de Bush – que está a custar aos EUA tanto sangue no Iraque. Quando Sharon tenta impedir um Estado palestino, os iraquianos recordam que o seu aliado mais próximo está representado no Iraque por um exército que a maioria deles considera de ocupação. Quando as forças dos EUA aprendem dos israelitas as suas técnicas de combate à guerrilha – quando bombardeiam casas do ar, quando abusam de prisioneiros, quando erguem arame farpado em redor de aldeias recalcitrantes – é de surpreender que os iraquianos tratem os norte­‑americanos como substitutos dos israelitas?

 

Não deveríamos precisar das provas do ex­‑marine Massey para nos mostrar quão brutais os exércitos de ocupação se tornaram – e quão irrelevante o governo “interino” do Iraque é verdadeiramente. Em Washington ou em Londres, estes “ministros” representam o papel de homens de estado internacionais, mas em Bagdade, onde vivem escondidos atrás dos muros do seu pequeno e perigoso enclave, têm tanto estatuto como presidentes de câmara rurais. Além disso, nem sequer podem negociar com os seus inimigos.

 

O que nos leva ao facto evidente no ano passado de caos, e anarquia e brutalidade no Iraque. Ainda não sabemos quem são os nossos inimigos. Com a excepção do nome “Zarqawi”, os norte­‑americanos – com todos os milhares de milhões de dólares que aplicaram em inteligência, os seus computadores de grande capacidade da CIA e os seus enormes pagamentos a informadores – simplesmente não sabem contra quem estão a lutar. “Recapturam” Samarra – três vezes – e depois perdem­‑na outra vez. Nem sequer podem controlar as ruas principais de Bagdade. 

 

Quem teria acreditado, em 2003, quando as forças dos EUA entraram em Bagdade, que dentro de dois anos estariam atoladas na maior guerra de guerrilha desde o Vietname? Os poucos de nós que predisseram isso mesmo – e o The Independent esteve entre eles – foram ridicularizados como negativos, profetas da desgraça, pessimistas.

 

O Iraque está a provar de novo o que devíamos ter aprendido no Líbano e na Palestina/Israel: os árabes perderam o seu medo. Foi um processo lento. Mas há um quarto de século, os árabes viviam acorrentados, amedrontados por ocupantes e regimes opressivos. Eram uma sociedade submissa e faziam o que lhes diziam. Já não. O maior desenvolvimento no Médio Oriente durante os últimos 30 anos foi este sacudir do medo. Medo – do ocupante, do ditador – é algo que não se pode voltar a reincutir nas pessoas. E isto, suspeito, foi o que ocorreu no Iraque.

 

Os iraquianos simplesmente não estão preparados para voltar a viver com medo outra vez. Sabem que devem depender deles mesmos – a nossa traição ao levantamento de 1991 contra Saddam provou isso – negam­‑se a ser intimidados pelos seus ocupantes. Fomos nós que os advertimos sobre os perigos de uma guerra civil, apesar de nunca ter existido uma guerra civil no Iraque. Como povo, viram os ocidentais aparecer aos milhares para ganhar dinheiro à custa de um país que foi abatido por uma ditadura corrupta e pelas sanções da ONU. É de surpreender que os iraquianos estejam zangados?

 

O colunista norte­‑americano Tom Friedman, num dos seus artigos menos messiânicos, colocou uma boa questão antes da invasão de 2003. Quem sabe, perguntou, que morcegos sairão a voar da caixa quanto chegarmos a Bagdade? Bem, agora sabemos. Portanto, devíamos repetir a arrepiante observação de Lawrence – sem as comas e a data de 1920. Hoje não estamos longe do desastre.