Informação Alternativa

Iraque

19/12/2004

 

Um exército sem compaixão

 

Robert Fisk

The Independent; traduzido de Information Clearing House

 

Foi a despreocupação, a absoluta indiferença do gabinete de imprensa do exército britânico em Bassora o que me chocou.

 

Ali tinha eu documentos – um deles assinado por um oficial britânico – declarando que Baha Mousa tinha morrido sob custódia britânica, outro que um colega de Mousa tinha sido «assaltado» quando também ele era um prisioneiro e sofreu «disfunção renal aguda», a declaração do seu pai de que o exército britânico esperou três dias antes de admitir perante a família que ele estava morto – e o porta­‑voz britânico disse que não podia ajudar.

 

Tony Blair estava quase a chegar a Bassora. Todos estavam ocupados. Porque é que eu não ligava ao Ministério da Defesa em Londres? Houve bocejos. Nem uma palavra de compaixão pelo defunto, cuja esposa acabava de morrer de cancro, nem sequer uma palavra para os seus filhos pequenos e agora órfãos.

 

Isto ocorreu quase ao mesmo tempo em que os britânicos e os norte­‑americanos foram informados pela Cruz Vermelha Internacional da brutalidade do exército dos EUA em Abu Ghraib – e nada fizeram a respeito. Quando soldados britânicos e norte­‑americanos morriam, era­m nomeados, eram identificados, as suas mortes eram lamentadas. Quando morriam iraquianos, simplesmente não nos importava.

 

Sempre recordarei a forma em que o irmão de Baha Mousa, Alaa, me contou como um sargento britânico veio à sua casa e se identificou como «Jay»: «Sentou­‑se no nosso sofá e disse, “Vim para lhe dizer que o seu irmão Baha morreu”. Houve gritos e berros e choro».

 

Baha Mousa tinha sido brutalmente espancado enquanto estava encapuzado e amarrado – nenhum dos outros prisioneiros que sofriam com ele foram alguma vez acusados de qualquer crime – por soldados que lhes deram nomes de futebolistas. O seu pai era um coronel da polícia e tinha visto o seu filho antes da sua detenção num hotel local. Obteve mesmo um bilhete do oficial de detenção que lhe prometia cuidar de Baha. O seu nome – tipicamente – nada significava: estava assinado «Segundo tenente Mike».

 

O coronel Mousa estava em lágrimas. «O que posso fazer?», perguntou-me, e eu apenas lhe disse: a lei, obtenha um advogado, contacte a Amnistia, leve o assunto a Londres. Nunca mais o vi, mas o caso da sua família mostra que se o exército britânico e o governo são indiferentes ao sofrimento dos iraquianos – especialmente quando o “nosso” lado causa esse sofrimento – há homens honestos e verdadeiros prontos a emendar tais injustiças. Mas não os suficientes. Os dois juízes superiores da Corte Suprema que ordenaram ao Ministério da Defesa levar a cabo um inquérito independente sobre a morte brutal de Baba Mousa não poderão curar o mal­‑estar da quase irresponsável apatia face a tais injustiças que contamina tantos exércitos, incluindo o nosso.

 

Ao indagar sobre a brutalidade do exército britânico na Irlanda do Norte fui recebido com o mesmo ar fatigado, casual por uma geração anterior de oficiais de imprensa e subalternos.

 

Relendo as minhas notas sobre o Iraque posterior à invasão, descubro que estão cheias de relatos de outros Baha Mousas: um ancião de Fallujah que morreu de maus tratos e acabou numa laje em Abu Ghraib; cruéis espancamentos nessa mesma prisão; iraquianos inocentes quase incontáveis abatidos por disparos nervosos de soldados britânicos e norte­‑americanos.

 

Conheço o velho argumento: Saddam era pior. Mas devemos sempre comparar­‑nos com este tirano quando queremos alegar a nossa duvidosa inocência? E devem os oficiais destes exércitos de ocupação no Iraque ficar sempre indignados ante a mera sugestão de que os seus soldados assassinaram inocentes, quando devem saber que é assim?

 

Imaginem se forças iraquianas de ocupação espancassem e matassem um empregado de hotel britânico de 26 anos em Manchester e depois mostrassem indiferença para com a sua morte. Ou tentassem trapacear a família com uma rápida compensação em dinheiro para se absolverem a si próprios de qualquer responsabilidade – que é o que os britânicos tentaram fazer.

 

É fácil sugerir uma reposta para tudo isto: instaurar um sistema especial de justiça no Iraque para lidar com todos os casos semelhantes, imediatamente e em público. Mas não resultaria. Até a Real Polícia Militar arrastou os seus pés sobre a morte de Baha Mousa. E de qualquer modo, é agora demasiado tarde para remediar todas as injustiças que causamos no Iraque. Pelo menos, não perguntem porque é que “eles” nos odeiam.