Informação Alternativa

Iraque

15/12/2004

 

Quem matou Baha Mousa?

 

Robert Fisk

The Independent; traduzido de Counterpunch

 

Baha Mousa, de 26 anos, trabalhava como recepcionista num hotel em Bassora há 14 meses quando as tropas britânicas cercaram o edifício e prenderam vários homens. Foram levados para a base britânica e foram alegadamente encapuzados e espancados. Dois dias mais tarde, Mousa estava morto. A sua família recebeu 3.000 dólares como compensação e rejeitou outros 5.000 dólares. O que eles queriam era justiça. Ontem, após mais de um ano de um silêncio de pedra oficial, os seus parentes ganharam um parecer “histórico” para forçar o Ministério da Defesa a conduzir um inquérito independente. Será a verdade dada a conhecer?

 

O parecer de ontem oferece à família do Sr. Mousa a perspectiva de uma investigação digna sobre a vergonhosa e ultrajante morte do seu filho de 26 anos, que foi preso à frente do pai, um coronel da polícia iraquiana. Documentos obtidos pelo The Independent mostram para lá de qualquer dúvida que o Sr. Mousa foi morto sob a custódia do Exército Britânico. Ele foi um entre muitos cujas mortes o ministro britânico da defesa tentou esquecer.

 

Os dois juízes superiores da Corte Suprema sentenciaram a favor da família do Sr. Mousa, afirmando que as obrigações do Reino Unido sob a Convenção Europeia dos Direitos Humanos se estendiam a «postos avançados da autoridade do estado» em terras estrangeiras; um inquérito subsequente investigará se houve uma morte ilegal. A família Mousa poderia ter direito a reparações do governo britânico se os artigos 2 e 3 da Convenção – que garantem o direito à vida e a não ser submetido à tortura e ao tratamento inumano e degradante – foram violados.

 

Soldados britânicos do regimento real do Lancashire cercaram um hotel de Bassora em Setembro do ano passado na sequência de informações de que armas estavam a ser guardadas no edifício. Um dos proprietários foi preso mais tarde. Quando Daou Mousa, um coronel da polícia iraquiana, apareceu no hotel, descobriu o seu filho jazendo no chão com as suas mãos atadas atrás das costas. Ele disse ao The Independent que o seu filho tinha visto soldados britânicos saqueando o cofre do hotel e que um oficial britânico tinha posteriormente ordenado aos soldados para devolver o dinheiro e que deviam estar desarmados. O pai de Baha Mousa mais tarde alegou que os soldados britânicos envolvidos decidiram vingar­‑se por eles mesmos do seu filho porque ele tinha revelado o roubo. No seu juízo escrito de ontem, os juízes Rix e Forbes criticaram «a lentidão do processo de investigação» conduzido pelo Ramo de Investigações Especiais (SIB) da Real Polícia Militar, declarando que era difícil dizer se a investigação do SIB «tinha sido atempada, aberta ou eficaz». Investigações do The Independent mostraram que o Sr. Mousa se queixou repetidamente aos atacantes britânicos de que estava a ter dificuldade em respirar.

 

Outros detidos iraquianos também foram alegadamente espancados cruelmente. Quando o pai de Baha, Daoud, e o irmão, Alaa, foram visitar outro desses detidos, Kifah Taha, não sabiam que Baha tinha sido morto.

 

«Kifah parecia como meio humano, tão espancado estava», disse Alaa. «Quando lhe perguntámos sobre Baha, disse que não sabia. Então disse: “Espero que Deus não mostre a nenhum ser humano o que eu testemunhei”».

 

O coronel Daoud Mousa contou ao The Independent que um oficial britânico, um 2º tenente, prometeu que o seu filho seria protegido após a sua detenção. «Três dias mais tarde, estava a olhar para o corpo do meu filho», disse o coronel. «Os britânicos vieram dizer que ele tinha “morrido em custódia”. O seu nariz estava partido. Havia sangue por cima da sua boca e eu podia ver as contusões nas suas costelas e coxas. A pele estava rasgada nos seus pulsos onde as algemas tinham estado».

 

Baha Mousa deixou dois rapazes pequenos, Hassan de cinco anos e Hussein de três anos. Ambos são agora órfãos, porque a esposa de 22 anos de Baha tinha morrido de cancro apenas seis meses antes da sua morte.

 

Quando o The Independent inicialmente indagou acerca da morte de Baha Mousa, os oficiais britânicos em Bassora pareceram despreocupados, encaminhando todos os inquéritos para o ministro da Defesa em Londres e repetindo que o regimento real do Lancashire já não operava no sul do Iraque.

 

Nenhum dos prisioneiros tomados no hotel disse ter sido interrogado acerca da alegada descoberta de armas no edifício. Os homens detidos foram levados para o antigo quartel­‑general dos serviços secretos iraquianos de Ali Hassann al­‑Majid, o brutal primo de Saddam Hussein, conhecido como “Ali, o químico” pelo gaseamento dos curdos de Halabja, o qual fazia agora parte do complexo militar britânico.

 

Um dos detidos relatou ao The Independent uma horrível história de crueldade: «Fomos postos numa grande sala com as nossas mãos atadas e com sacos sobre as nossas cabeças.

 

«Mas eu podia ver através de alguns buracos no meu capuz. Soldados entravam, soldados normais, não oficiais – a maioria com as suas cabeças rapadas, mas com uniforme – e davam­‑nos pontapés, escolhendo um a seguir ao outro.

 

«Davam­‑nos pontapés no peito e entre as pernas e nas costas. Nós chorávamos e gritávamos. Eles fixaram­‑se em Baha especialmente e ele continuava a chorar que não conseguia respirar no capuz. Continuava a pedir­‑lhes que tirassem o saco e disse que estava a sufocar.

 

«Mas eles riram­‑se dele e pontapearam­‑no mais. Um deles disse: ”Pára de gritar e serás capaz de respirar mais facilmente”

 

«Baha estava tão assustado. Então aumentaram os pontapés sobre ele e ele caiu no chão. Nenhum de nós se podia manter de pé ou sentar­‑se porque era demasiado doloroso».