Informação Alternativa

Médio Oriente

30/10/2004

 

A verdade é que Arafat morreu faz anos

 

Robert Fisk

The Independent; visto em Znet

 

Uma vez mais, Yasser Arafat está a morrer. Pensámos que o tinham matado lá por 1982, quando a força aérea israelita voou em redor de Beirute, atacando blocos de departamentos e casas onde se acreditava que estava de visita. As bombas despedaçaram centenas de civis libaneses inocentes, mas Arafat jamais esteve ali. Depois Pensámos que morreu ao despedaçar-se o seu avião no deserto líbio – mas foi o piloto que faleceu, assim como o guarda-costas que o protegeu com o seu corpo no assento. Depois pensámos que tinha chegado ao seu fim a caminho de Bagdade, onde sofreu uma trombose arterial. Mas médicos jordanos trouxeram­‑no de regresso ao mundo dos vivos. Agora, uma vez mais, preparamo-nos para o falecimento do ancião. E no entanto, como o Papa, parece seguir adiante uma e outra vez.

 

É um homem cansado, não só pelas suas repetidas mortes, mas pela vida também, um homem que se casou com a revolução – como descobriu a sua esposa – em vez de desenvolver uma estratégia coerente para um povo submetido a ocupação. E no final tornou­‑se, como tantos outros líderes árabes – e como os israelitas queriam que fosse – um pequeno ditador, que repartia dólares e euros entre os seus avelhentados mas fiéis comparsas, fazendo promessas falsas de democracia, aferrando­‑se ao poder nas ruínas do seu escritório de Ramallah. Se tivesse feito o que se esperava dele – se tivesse governado a “Palestina” (as comas são cada dia mais importantes) com mão de ferro e esmagado toda a oposição e aceitado todas as exigências israelitas – agora seria capaz de visitar Jerusalém, inclusive Washington.

 

Recordo como, pouco depois do famoso apertão de mãos no jardim da Casa Branca, disse a um amigo israelita em Jerusalém que me parecia justo que agora tivesse que viver com Arafat como vizinho. Depois de tudo, disse-lhe, eu tinha tido que sofrer a sua quase ocupação de Beirute ocidental durante sete anos. Eram os dias em que prometeu o regresso de todos os refugiados da Palestina anterior a 1948 aos seus lares, quando deliberadamente sacrificou milhares de vidas palestinas no campo Tel­ el­‑Zaatar para ganhar a simpatia do mundo, quando tolerou os sequestros de aviões e falava de «democracia entre as armas», e com o tempo deixou a seu povo à mercê dos verdugos israelitas da Falange.

 

A cara de Arafat jamais chegaria aos muros universitários como os rostos de Guevara ou mesmo de Castro. Havia – e há ainda – verdadeiro desalinho nela e talvez isso é o que os israelitas viram também, um homem em quem se podia confiar para servir de polícia do seu povo nos seus pequenos bantustões, outro testa de ferro que dirigisse o espectáculo quando a ocupação se tornasse demasiado fatigante. “Pode Arafat controlar o seu povo?” Essa era a pergunta que fazia Israel e o mundo a repetia obedientemente sem se dar conta da verdade: que essa era precisamente a razão por que permitiam o regresso de Arafat aos territórios autónomos – para “controlar” o seu povo. A única vez que enfrentou os seus amos israelitas e estadunidenses – quando se negou a aceitar 64 por cento dos 22 por cento da Palestina que lhe deixaram – regressou em triunfo a Gaza e deixou que os israelitas apregoassem que lhe tinham oferecido 95 por cento mas que ele escolheu a guerra.

 

Quando começou a negociar com os israelitas, nem sequer tinha visto um assentamento judeu, mas depositou a sua confiança nos estadunidenses – o que sempre resulta perigoso no Médio Oriente – e quando Israel começou a renegar as retiradas, não houve ninguém que o ajudasse o. Israel rompeu cinco vezes os acordos de desocupação.

 

Depois vieram a segunda intifada, os ataques suicidas palestinos e o 11 de Setembro de 2001, e foi questão de tempo – umas seis horas, para ser exactos – antes que Israel unisse Arafat com Osama bin Laden e dissesse que também Ariel Sharon combatia o terrorismo na sua batalha contra o “terrorista” Arafat. Num país onde a palavra terrorista se usa ainda com mais promiscuidade que nos Estados Unidos, foi aplicada a Arafat por cada oficial de polícia israelita, e por cada jornalista de direita fora de Israel.

 

Sentado como uma coruja velha e moribunda no seu quartel de Ramallah, Arafat deve ter pensado que possuía uma distinção singular. Alguns “terroristas” – Komeini, por exemplo – morreram de velhos. Outros – Kadafi vem à mente – tornaram­‑se estadistas por cortesia de sujeitos mendazes como Tony Blair. Outros – Abu Nidal é um candidato óbvio – foram assassinados, com frequência pela sua própria gente. Mas Arafat é talvez o único homem que começou como um “superterrorista” e da noite para o dia se converteu, por virtude dos acordos de Oslo, num “superestadista”, e depois voltou a ser um “superterrorista”. Não é raro que com frequência pareça perder concentração, que se equivoque nos dados e caia doente.

 

Como todos os ditadores, assegurou-se de não ter sucessor. Pôde ter sido Abu Jihad, mas foi assassinado pelos israelitas em Tunes. Pôde ter sido um dos líderes militantes que os israelitas têm estado a executar mediante ataques aéreos nos dois anos recentes. Ainda poderia ser, com escassas possibilidades, o encarcerado Marwan Barghouti. E se os israelitas decidirem que este poderia ser o líder – tenham a certeza que os palestinianos nada terão a dizer sobre o assunto –, então as portas da prisão poderiam abrir-se para ele.

 

Sim, Arafat poderia morrer. O funeral seria a costumeira tortura do banho de retórica. Mas a verdade, temo, é que Arafat morreu faz anos.