Informação Alternativa

Portugal

11/07/2008

 

Sócrates não vai criar um imposto novo de 25% sobre os lucros

especulativos das petrolíferas, vai só exigir o pagamento mais cedo do IRC

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Contrariamente àquilo que Sócrates pretendeu fazer crer no debate na Assembleia da República, o governo não vai criar um novo imposto sobre os elevados lucros das petrolíferas. O que o governo se propõe fazer é apenas uma simples mudança contabilística, ou seja, alterar o sistema de custeio utilizado actualmente pelas petrolíferas para calcular o lucro sujeito a IRC. Actualmente, as petrolíferas utilizam, para efeitos fiscais, o sistema de custeio designado, tecnicamente, por “Last-In, First-Out” (LIFO), ou seja, valorizam a parcela do stock que é consumida anualmente para a produção de combustíveis ao preço da ultima aquisição do petróleo, que é o preço mais elevado. Desta forma, reduzem a matéria tributável actual, pagando menos IRC neste momento e diferindo para o futuro o pagamento de uma parcela de IRC. Agora, o que o governo pretende fazer é apenas mudar o sistema de custeio desse petróleo consumido de “Last-In, First-Out” (LIFO) para o sistema de custeio “First-In, First Out” (FIFO), ou seja, o preço de valorização desse parcela de stock consumida deixa de ser o da última aquisição, e passa a ser o da aquisição do petróleo mais antigo que se encontra ainda em stock, cujo preço é mais baixo. Desta forma, através desta simples operação contabilística, o governo consegue antecipar o pagamento do IRC sem criar qualquer imposto novo, obtendo uma receita antecipada que, relativamente a 2008, é estimada pela própria GALP em 110 milhões de euros, que poderá utilizar para fins eleitorais, como está já a fazer. É evidente que tanto os consumidores portugueses como a Economia Portuguesa não beneficiam nada com esta simples manobra contabilística. Até se corre o risco, face à total ausência de controlo dos preços, que a GALP utilize como pretexto esta manobra do governo para passar a fixação dos preços dos combustíveis à saída da refinaria, que actualmente é com base nos preços de Roterdão da semana anterior, para os do dia anterior, o que, a verificar-se, determinaria uma escalada ainda maior de preços.

 

Esta manobra do governo tem ainda uma outra consequência, a saber: sujeitar à mesma taxa de IRC os lucros resultantes quer da actividade produtiva da empresa, que não tem nada a ver com a especulação, e os lucros que resultam da especulação que se verifica actualmente no mercado internacional do petróleo e dos combustíveis. Desta forma, considerando­‑os como idênticos, o governo acaba por branquear esses lucros que não resultam do esforço produtivo da empresa, quando eles deviam ficar sujeitos a uma taxa de imposto mais elevada. Por aqui se vê que interesses de classe defende este governo e como cede perante o poder económico, por mais declarações que faça em contrário.

 

A escalada nos preços dos combustíveis, que vai continuar – e que o governo nada faz para parar –, associada ao contínuo aumento da taxa de juros, a que se junta a redução do investimento publico e a diminuição do poder de compra da população, está a determinar uma quebra acentuada na actividade económica. Os últimos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Eurostat parecem já indiciar o caminhar para uma situação que os economistas designam de “crescimento negativo”. De acordo com o INE, «o volume de negócios nos serviços registou em Maio de 2008 uma taxa de variação homóloga nominal de –0,9%» e na construção e obras públicas registou-se também em Maio de 2008 «uma variação homóloga de –3%». E os serviços e a construção e obras públicas contribuem para o PIB, ou seja, para a produção nacional, com mais de 75%. Segundo o Eurostat, no 1º Trimestre de 2008, verificou-se em Portugal uma taxa de crescimento económico (PIB) negativa de –0,2%, enquanto a nível da UE25 registou-se um crescimento de +0,6%, e na zona euro de +0,7%, portanto a divergência do nosso País em relação à UE continua. O mesmo se verificou em relação ao investimento (FBCF), que aumentou na UE25 +1%, na Zona Euro +1,6%, e em Portugal diminuiu –2,1%.

 

Tomando como base o período de Janeiro a Maio, para se poder utilizar os dados mais recentes da DGO do Ministério das Finanças, conclui-se que, entre 2006 e 2008, o saldo global do chamado “Sector Estado” diminuiu de –1.765,1 milhões para –505,3 milhões de euros, ou seja, para menos de um terço. Isso foi conseguido fundamentalmente à custa da subida das receitas de impostos (+15,4%), e por meio do congelamento das despesas com “remunerações certas e permanentes” dos trabalhadores da Administração Pública (0,1), e de uma descida muito acentuada no investimento público (–25,3%). Tudo isto está a contribuir para o agravamento da situação económica. Se adicionarmos o saldo global do chamado “subsector Estado” com o “saldo global da Segurança Social”, o saldo total, entre 2006 e 2008, relativo ao período Janeiro a Maio, passa de um saldo negativo de –1.279,7 milhões de euros para um saldo positivo de +1.556 milhões de euros, o que é conseguido fundamentalmente à custa da redução do apoio social, nomeadamente pensões e apoio aos desempregados (a despesa com subsídio de desemprego diminuiu 14% entre 2007 e 2008), o que está a contribuir para agravar a situação social.

 

“A montanha pariu um rato”, é o que rapidamente se conclui da análise da medida anunciada por Sócrates. Efectivamente, o governo não vai criar um imposto novo sobre os lucros extraordinários das petrolíferas. O que vai fazer é exigir o pagamento mais cedo do IRC. Para compreender a manobra do governo, é preciso analisar o sistema de custeio utilizado actualmente pelas petrolíferas, para efeitos fiscais, em relação ao petróleo que consomem anualmente com a produção (refinação) dos combustíveis e aquele que o governo pretende impor. E embora tudo isto seja uma matéria técnica complexa, é importante compreendê-la, pois só assim ficará clara a manobra do governo. É o que se vai procurar fazer neste estudo.

 

O IMPOSTO DE 25% DE SÓCRATES NÃO É SOBRE OS STOCKS, MAS SOBRE O LUCRO TRIBUTÁVEL, E NÃO É UM NOVO IMPOSTO, MAS O VELHO IRC

 

Por ignorância ou intencionalmente, comentadores dos media e políticos da direita, como Paulo Portas, têm afirmado que o governo vai lançar um imposto sobre os stocks, ou seja, sobre a riqueza das empresas. Isso é falso. Sócrates é tão adverso a impostos sobre a riqueza como a direita. O imposto com uma taxa de 25% anunciado por Sócrates, não é um imposto sobre os stocks, mas é o velho IRC, que já existe, com a taxa de 25%. O que o governo pretende fazer é apenas mudar o momento de tributação de uma parte dos lucros. E isso devido ao sistema de custeio que as petrolíferas utilizavam e que agora vai passar a ser outro.

 

Para efeitos fiscais, e não para determinação dos seus lucros anuais, as petrolíferas utilizavam o sistema de custeio que, tecnicamente, é designado por “Last-In, First-Out” (LIFO), ou seja, o preço que consideram na determinação do custo do petróleo que consomem anualmente para produzir os combustíveis é o da última aquisição. E isto porque é mais vantajoso, pois assim diferiam, na pior das hipóteses, para muito mais tarde o pagamento de uma parte de IRC. Como utilizavam, na determinação do custo da parcela do petróleo que estava em stock consumido anualmente, o sistema de custeio designado tecnicamente por “Last-In, First-Out” (LIFO), e como esse preço é o mais alto, por ser o último, desta forma reduziam o lucro sujeito a IRC. E isto porque o chamado lucro tributável resulta da diferença entre os “proveitos” e os “custos”, e como as petrolíferas inflacionavam daquela forma os custos da matéria prima consumida, que é o petróleo, a diferença, ou seja, o lucro sujeito a imposto diminuía, e diminuía desta forma o imposto a pagar. Mas o petróleo mais antigo, adquirido a um preço mais baixo, continuava contabilizado nas contas da GALP e um dia teria de ser utilizado a esse preço para a refinação, determinando o lucro tributável.

 

O que o governo se propõe fazer é apenas uma simples mudança contabilística, ou seja, alterar o sistema de custeio, e não criar um novo imposto. Actualmente, as petrolíferas utilizam, para efeitos fiscais, como se referiu, o sistema de custeio “Last-In, First-Out” (LIFO). Agora o governo pretende que elas passem a utilizar na determinação do custo do petróleo consumido anualmente para produzir combustíveis um outro sistema de custeio, que muitas empresas já utilizam, que é tecnicamente designado por “First-In, First Out” (FIFO), no lugar do LIFO, ou seja, o preço de valorização desse parcela de stock consumida deixa de ser o da última aquisição, e passa a ser o da aquisição do petróleo mais antigo que se encontra ainda em stock, cujo preço é mais baixo do que o da ultima aquisição de petróleo. Desta forma, através desta simples operação contabilística, o governo consegue antecipar o pagamento do IRC sem criar qualquer imposto novo, obtendo uma receita antecipada que poderá utilizar para fins eleitorais, como está a fazer. È por esta razão que a GALP divulgou logo no dia 10 de Julho um comunicado onde dizia textualmente o seguinte: A medida do governo «a nível de resultado líquido não tem qualquer impacto, uma vez que a Galp Energia já reflecte nas suas demonstrações financeiras a aplicação do critério FIFO (First in, First Out) para valorimetria dos stocks com o respectivo efeito fiscal a ser contabilizado em impostos diferidos. A nível financeiro, considerando o novo critério de valorimetria dos stocks para efeitos fiscais, poderá implicar uma antecipação do pagamento de imposto que, a título de exemplo, à data de 31 de Março de 2008 corresponderia aproximadamente a 110 milhões de euros».

 

OS ELEVADOS LUCROS DA GALP MANTÊM-SE ASSIM INTOCÁVEIS E INTACTOS

 

Esta simples mudança contabilística no sistema de custeio da GALP, do LIFO para FIFO, para efeitos fiscais não reduz os seus elevados lucros. E isto porque eles têm como origem fundamentalmente os elevados preços à saída da refinaria, os quais não resultam da soma dos custos e de uma margem de lucro não especulativa, mas sim dos preços praticados no mercado de Roterdão que, para além de reflectir a especulação verificada no preço do petróleo, reflecte também a que se verifica no mercado dos combustíveis resultante da capacidade de refinação limitada que se verifica a nível mundial. Portanto, para os consumidores portugueses, isto não vai trazer qualquer benefício, pois as petrolíferas vão continuar a sua escalada de preços. E, devido à ausência total de controlo sobre os preços dos combustíveis em Portugal, ainda se corre o risco das petrolíferas deixarem de utilizar o preço dos combustíveis praticados no mercado de Roterdão da semana anterior e passarem a utilizar o do dia anterior. É o que sempre desejaram fazer e agora poderão realizar isso com o pretexto de que já pagam imposto sobre os lucros especulativos.

 

O AGRAVAMENTO DA SITUAÇÃO ECONÓMICA E SOCIAL DO PAÍS

 

A escalada de preços que se verifica a nível dos combustíveis, associada ao contínuo aumento da taxa de juros, a que se junta a redução do investimento público e a diminuição do poder de compra da população, está a determinar uma quebra acentuada na actividade económica. Os últimos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Eurostat parecem já indiciar o caminhar para uma situação que os economistas chamam de “crescimento negativo”.

 

Assim, de acordo com o INE, «o volume de negócios nos serviços registou em Maio de 2008 uma taxa de variação homóloga nominal de –0,9%» e na construção e obras públicas registou-se também em Maio de 2008 «uma variação homóloga de –3%». E, como se sabe, os serviços e a construção e obras públicas contribuem para o PIB, ou seja, para a produção nacional com mais de 75%. Por outro lado, segundo o Eurostat, no 1º Trimestre de 2008, verificou em Portugal uma taxa de crescimento económica (PIB) negativa de –0,2%, enquanto a nível da UE25 registou-se um crescimento de +0,6%, e na zona euro de +0,7%, portanto a divergência do nosso País em relação à UE continua. O mesmo se verificou em relação ao investimento (FBCF), que aumentou na UE25 +1%, na Zona Euro +1,6%, e em Portugal diminuiu –2,1%. Se analisarmos a Balança de Bens e Serviços de Portugal, constata-se um agravamento significativo do défice que, entre o 1º Trimestre de 2007 e o 1º Trimestre de 2008, cresceu de –2.596,4 milhões de euros para –3.538,8 milhões de euros, ou seja, aumentou mais de 36% apenas num ano, o que está a determinar o aumento do endividamento do País.

 

Enquanto a situação económica do País se agrava, o governo contenta-se e encanta-se com a redução do défice. Os últimos dados divulgados pela Direcção Geral do Orçamento do Ministério das Finanças, que constam do quadro seguinte, revela como isso está a ser conseguido.

 

QUADRO I – A execução do Orçamento do Estado no período Janeiro-Maio de 2006, 2007 e 2008

EXECUÇÃO ORÇAMENTAL

JANEIRO A MAIO – Milhões euros

VARIAÇÃO EM %

2006

2007

2008

2007-06

2008-07

2008-06

SUBSECTOR ESTADO

 

 

 

 

 

 

RECEITAS CORRENTES

14.538,8

16.142,1

16.771,4

11,0%

3,9%

15,4%

DESPESAS CORRENTES

15.108,7

15.938,3

16.531,7

5,5%

3,7%

9,4%

Despesas com pessoal

4.853,1

5.071,4

5.112,5

4,5%

0,8%

5,3%

Remunerações certas e permanentes

3.034,2

3.053,8

3.038,6

0,6%

-0,5%

0,1%

Aquisições serviços e bens

302,8

343,8

384,0

13,5%

11,7%

26,8%

RECEITAS DE CAPITAL

162,8

113,2

269,7

–30,5%

138,3%

65,7%

DESPESAS DE CAPITAL

1.358,1

1.338,8

1.014,7

–1,4%

–24,2%

–25,3%

SALDO GLOBAL

–1.765,1

–1.021,8

–505,3

–42,1%

–50,5%

–71,4%

SEGURANÇA SOCIAL

 

 

 

 

 

 

RECEITAS CORRENTES

6.131,4

7.994,8

8.851,3

30,4%

10,7%

44,4%

RECEITAS DE CAPITAL

9,3

33,8

16,4

263,4%

–51,5%

76,3%

DESPESAS CORRENTES

5.643,2

7.237,7

7.298,0

28,3%

0,8%

29,3%

DESPESAS DE CAPITAL

12,1

9,8

13,7

19,0%

39,8%

13,2%

SALDO GLOBAL

485,4

781,1

1.556,0

60,9%

99,2%

220,6%

SALDO GLOBAL TOTAL

–1.279,7

–240,7

1.050,7

 

 

 

FONTE: Boletim Informativo – Maio 2007 e Maio 2008 – Direcção Geral do Orçamento – Ministério das Finanças

 

Tomando como base o período de Janeiro a Maio, para se poder utilizar os dados mais recentes da Direcção Geral do Orçamento do Ministério das Finanças, conclui-se que, entre 2006 e 2008, o saldo global do chamado “Sector Estado” diminuiu de –1.765,1 milhões para –505,3 milhões de euros, i.e., para menos de um terço. Isso foi conseguido fundamentalmente à custa da subida das receitas de impostos, que passaram de 14.538,8 milhões de euros para 16.771,4 milhões de euros, ou seja, +15,4%, e por meio do congelamento das despesas com “remunerações certas e permanentes” dos trabalhadores da Administração Pública, que aumentaram apenas 0,1%, pois passaram de 3.034,2 milhões de euros para 3.038,6 milhões de euros, e à custa de uma descida muito acentuada no investimento público, já que as despesas de capital diminuíram –25,3%, pois passaram, entre 2006 e 2008, de 1.358,1 milhões de euros para apenas 1.014,7 milhões de euros. Este aumento da receita, diminuição dos investimentos e congelamento das remunerações dos trabalhadores da Administração Pública (basta lembrar que, em 2008, apesar do compromisso publico de Sócrates, as remunerações destes trabalhadores foram aumentadas apenas em 2,1%, enquanto a inflação até Junho já subiu 2,8%); repetindo, a conjugação destes factores está a determinar o agravamento da situação económica do País, já que o Estado, no lugar de ter um papel de dinamizador, está a contribuir poderosamente para a contracção da Economia.

 

Se somarmos o saldo global do chamado “subsector Estado” com o “saldo global da Segurança Social”, o saldo total, entre 2006 e 2008, no período Janeiro a Maio, passou de um saldo negativo de –1.279,7 milhões de euros para um saldo positivo de +1.556 milhões de euros, o que é conseguido fundamentalmente à custa da redução da subida das pensões, através da mudança da fórmula de cálculo, e da redução do apoio aos desempregados, cuja despesas, só entre 2007 e 2008, diminuíram 14%.