Informação Alternativa

Portugal

19/05/2007

 

Destruição líquida de emprego em dois trimestres consecutivos

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Contrariamente às promessas feitas por Sócrates durante a campanha eleitoral de que criaria 150.000 postos de trabalho líquidos, e às afirmações do ministro do Trabalho de que se estava registar criação de emprego líquido em Portugal, os dados divulgados pelo INE referentes ao 1º Trimestre de 2007 revelam que isso não se está a verificar, tendo-se registado nos dois últimos trimestres precisamente o contrário, ou seja, uma destruição líquida de emprego, já que se reduziu o emprego total no País em 50.800 postos de trabalho, o que corresponde a 1% de todo o emprego que existia no País (o emprego total nos dois últimos trimestres baixou de 5.186.700 para 5.135.900). Tanto a taxa de desemprego oficial como a taxa de desemprego corrigida, esta última que traduz de uma forma mais próxima a realidade do desemprego no nosso País, continuaram a crescer. Assim, no 1º trimestre de 2007, a taxa oficial de desemprego atingiu 8,4%, a mais elevada dos últimos 21 anos, e a taxa de desemprego corrigida 10,9%, tendo atingido o desemprego oficial 469.900, e o desemprego corrigido 611.300. E tenha-se presente que, também segundo o INE, apenas cerca de 41% dos que “procuram novo emprego”, ou seja, 165.000 desempregados é que têm direito a receber subsídio de desemprego.

 

Por outro lado, entre o 1º Trimestre de 2006 e o 1º Trimestre de 2007, os contratos a tempo parcial e a prazo aumentaram, respectivamente +17,3% e +10,8%, enquanto os contratos a tempo completo e por tempo indeterminado diminuíram, respectivamente, 0,4% e –2,4%, o que revela um crescimento rápido da precariedade em Portugal. No entanto, só se consegue ter uma ideia verdadeira da dimensão que atinge já a precariedade em Portugal se se tiver também presente que cerca de 42,3% dos chamados trabalhadores por “conta própria como isolados”, portanto sem empregados, são técnicos e profissionais de nível intermédio, empregados de escritório, operários, operadores de máquinas e trabalhadores não qualificados, portanto na sua maioria “falsos recibos verdes”, o que corresponde a um total de 373.551 no 1º Trimestre de 2007 (os restantes, ou seja, 510.089 que estavam incluídos naquela data no grupo de “Trabalhadores por conta própria como isolados”, são directores e gerentes de empresas, profissões intelectuais e científicas, e agricultores e pescadores).

 

Enquanto a realidade do desemprego ganha nova e maior gravidade, o IEFP, controlado pelo Ministério do Trabalho, tem levado a cabo uma gigantesca campanha de manipulação dos números dos desempregados inscritos nos centros de emprego, com o objectivo, por um lado, de desacreditar o INE, já que os números que este tem divulgado não são do agrado nem do governo nem do poder económico e, por outro lado, para levar a opinião pública a pensar que o desemprego está a diminuir. Embora o número de novos desempregados que se inscrevem mensalmente nos Centros de Emprego seja, em média, quase 10 vezes superior ao número de colocações mensais (o saldo dos novos inscritos menos as colocações tenha sido, em 2005, de 509.444; em 2006, de 513.911 e, em 2007 só até a Abril, de 159.285), os responsáveis pelo IEFP têm divulgado todos os meses reduções no desemprego registado (Jan. 2005: 471.639 desempregados; Dez. 2005: 468.115; Dez. 2006: 440.125; Abril 2007: 408.840). Confrontados no Conselho de Administração do IEFP pelos representantes da CGTP para explicarem tão elevado número de anulações administrativas de desempregados, os responsáveis por aquele instituto recusaram­‑se a esclarecer, o que só pode contribuir para aumentar as suspeitas da falta de consistência técnica e de falta de credibilidade que pesavam já sobre os dados do desemprego registado divulgados mensalmente pelo IEFP.

 

Um dos argumentos mais utilizados por Sócrates durante a campanha eleitoral é, que se fosse governo, criaria milhares de novos postos de trabalho. Prometeu mesmo a criação de 150.000 novos postos de trabalho líquidos, o que levou muitos portugueses a votarem no PS. Durante todo o ano de 2006, o ministro Vieira Silva afirmava, nomeadamente na Assembleia da República aquando do debate do OE2007, que o emprego líquido estava a crescer em Portugal tendo sido já criados mais de 50.000 novos postos de trabalho. Os dados do INE mostram que isso não está a acontecer, estando-se a verificar precisamente o contrário. O quadro seguinte, construído com os últimos dados divulgados pelo INE, revela que o que está a suceder é mesmo a destruição líquida de emprego, o que determina que o número de postos de trabalho existentes no País esteja a diminuir.


 

QUADRO I – Variação do emprego em Portugal: 3º Trimestre de 2006/1º Trimestre de 2007

GRUPOS PROFISSIONAIS

3ºT2006

4ºT2006

1ºT2007

1T07-3T06

VARIAÇÃO

1T07-3T06

Milhares

Quadros superiores e dirigentes Ad. Púb. e empresas

397,3

391,5

376,6

–20,7

-5,2%

Especialistas das profissões intelectuais e científicas

446,2

454,4

454,8

8,6

1,9%

Técnicos e profissionais de nível intermédio

439,0

458,4

450,4

11,4

2,6%

Pessoal administrativo e similares

495,3

483,5

484,8

–10,5

-2,1%

Pessoal dos serviços e vendedores

749,8

741,9

746,9

–2,9

-0,4%

Agricultores e trabalhadores qualif. Agricultura, pescas

568,2

548,3

554,7

–13,5

-2,4%

Operários, artífices e trabalhadores e similares

1.025,1

998,4

990,8

–34,3

-3,3%

Operadores de instalações, máquinas e trab. Montagem

409,2

411,0

408,2

–1,0

-0,2%

Trabalhadores não qualificados

626,3

624,3

637,4

11,1

1,8%

Forças Armadas

30,3

31,1

31,3

1,0

3,3%

EMPREGO TOTAL

5.186,7

5.142,8

5.135,9

50,8

-1,0%

FONTE: Estatísticas de Emprego – 1º Trimestre de 2007 – INE

 

Assim, entre o 3º Trimestre de 2006 e o 1º Trimestre de 2007, portanto em dois trimestres consecutivos, verificou­‑se uma destruição líquida de emprego no nosso País que determinou o desaparecimento de 50.800 postos de trabalho, o que corresponde a cerca de 1% do emprego existente, já que o emprego total baixou de 5.186.700 para 5.135.900. Os grupos profissionais mais atingidos foram os “Quadros superiores” (–20.700 postos de trabalho) e os “Operários” (–34.300 postos de trabalho). Portanto, contrariamente ao prometido por Sócrates durante a campanha eleitoral e ao afirmado por Vieira da Silva durante o debate do OE2007 na Assembleia da República, não só não se está a verificar o aumento líquido de emprego, mas o que está a suceder é precisamente o contrário, ou seja, uma destruição líquida do emprego existente que já era insuficiente para evitar o aumento do desemprego no País, o que está a contribuir para um maior agravamento do problema do desemprego em Portugal, com graves consequências sociais.

 

A TAXA DE DESEMPREGO CORRIGIDO JÁ ULTRAPASSOU OS 10% E CONTINUA A CRESCER

 

Não é apenas a taxa de desemprego oficial que continua a crescer, mas também a taxa de desemprego corrigido, que traduz com maior verdade o desemprego real, que continua a aumentar, como revelam os dados do INE constantes do quadro seguinte.

 

QUADRO II – Variação no desemprego oficial e no desemprego corrigido: 2005-2007

DESIGNAÇÃO

1º TRIMESTRE

VARIAÇÃO – 1ºT2007/1ºT2005

2005

2006

2007

Mil

Em %

1. ACTIVOS – Mil

5.507,0

5.556,6

5.605,6

98,6

1,8%

2. DESEMPREGO OFICIAL – Mil

412,6

429,7

469,9

57,3

13,9%

3. Inactivos Disponíveis - Mil

74,9

79,9

75,3

0,4

0,5%

4. Subemprego visível – Mil

61,4

65,1

66,1

4,7

7,7%

5. DESEMPREGO CORRIGIDO – Mil = (2+3+4)

548,9

574,7

611,3

62,4

11,4%

6. TAXA OFICIAL DE DESEMPREGO = (2:1)

7,5%

7,7%

8,4%

 

 

7. TAXA CORRIGIDA DE DESEMPREGO = (5:1)

10,0%

10,3%

10,9%

 

 

FONTE: Estatísticas do Emprego: 1º Trimestre de 2005, 2006 e 2007 – INE

 

O desemprego oficial não traduz com rigor o verdadeiro desemprego por várias razões. Em primeiro, porque, como consta da nota explicativa do próprio INE incluída na publicação “Estatísticas de Emprego”, para ser considerado como empregado basta que um indivíduo com mais de 15 anos tenha «efectuado um trabalho de pelo menos uma hora no período de referência» (o período de referência corresponde a 3 semanas anteriores ao inquérito), portanto é suficiente trabalhar uma hora para que o INE o considere empregado, o que determina que um indivíduo nesta situação, embora seja realmente um desempregado, seja considerado empregado e esteja excluído do número oficial de desempregados. Por outro lado, para não ser incluído no número oficial de desempregados basta que um indivíduo, embora desempregado, «não tenha procurado um trabalho no período de referência», portanto, se um desempregado não procurar emprego, não é considerado oficialmente como desempregado segundo o INE.

 

Se somarmos os dados, também publicados pelo INE, referentes aos chamados “inactivos disponíveis”, que não são incluídos no número oficial de desempregados apenas por não terem procurado emprego, embora estejam desempregados, ao “subemprego visível”, que são considerados oficialmente como empregados apesar de trabalharem uma ou poucas mais horas por semana, obtém-se para o 1º Trimestre de 2007 o número de 611.300, que chamamos “desemprego corrigido”, e não apenas 469.900, que é o numero oficial de desempregados. E a taxa de desemprego, no 1º Trimestre de 2007, passa de 8,4%, que é a taxa oficial de desemprego, para 10,9%, que é taxa de desemprego corrigida que, pelas razões expostas anteriormente, está muito mais próxima do desemprego real existente no País do que os 8,4% que é a taxa oficial de desemprego que os media divulgam. E, como mostram também os dados do quadro, esta elevada taxa tem crescido continuamente.

 

CRESCERAM OS CONTRATOS A TEMPO PARCIAL E A PRAZO E DIMINUÍRAM OS CONTRATOS A TEMPO COMPLETO E POR TEMPO INDETERMINADO

 

Outro aspecto preocupante que revelam os dados do INE referentes ao 1º Trimestre de 2007, é o aumento da precariedade no nosso Pais, como mostra o quadro seguinte que se construiu com a informação disponibilizada pelo Instituto Nacional de Estatística.

 

QUADRO III – Variação do emprego dos trabalhadores por conta de outrém por tipos de contratos

TIPO DE CONTRATO

TCO – Mil

VARIAÇÃO 1ºT. 2007–1ºT. 2006

1ºT. 2006

1ºT. 2007

Mil

%

A tempo completo

3.672,2

3.657,2

–15,0

–0,4%

A tempo parcial

192,7

226,0

33,3

17,3%

Contrato por tempo indeterminado

3.122,8

3.047,7

–75,1

–2,4%

Contrato a prazo

583,6

646,7

63,1

10,8%

FONTE: Estatísticas do Emprego - 1ª Trimestre de 2007 – INE

 

Portanto, em Portugal, como mostram os dados do quadro, o emprego dos trabalhadores por conta outrém está a diminuir a nível de contratos a tempo completo e também a nível de contratos por tempo indeterminado, e estão a aumentar os contratos a tempo parcial, a maior parte deles determinado pelo facto do trabalhador não encontrar emprego a tempo completo, e também estão a crescer de uma forma rápida os contratos a prazo. A precariedade crescente das relações de trabalho torna-se assim clara.

 

No entanto, só se consegue ter uma ideia verdadeira da dimensão que atinge a precariedade em Portugal se se tiver presente que cerca de 42,3% dos chamados trabalhadores por “conta própria como isolados”, portanto sem empregados, são técnicos e profissionais de nível intermédio, empregados de escritório, operários, operadores de máquinas e trabalhadores não qualificados, portanto na sua maioria “falsos recibos verdes”, o que corresponde a um total de 373.551 no 1º Trimestre de 2007 (os restantes, ou seja, 510.089, 16,3% são directores e gerentes de empresas, 4,4% são de profissões intelectuais e científicas, e 37% são agricultores e pescadores) [1].

 

A MANIPULAÇÃO DOS DADOS DO EMPREGO REGISTADO PELO IEFP

 

Paralelamente a tudo isto, está-se a observar uma gigantesca campanha de manipulação dos dados do emprego registado pelo IEFP com o objectivo, por um lado, de criar a falsa ilusão a nível de opinião pública de que o desemprego está a diminuir e, por outro lado, para desacreditar os dados do INE que não agradam nem ao governo nem ao poder económico, que tudo têm feito para esconder a grave situação que já atinge centenas de milhares de trabalhadores, que continua a crescer, e para justificar medidas que visam objectivamente AINDA um maior agravamento da situação já existente neste campo (ex. a “flexigurança”, e as alterações ao Código do Trabalho que o governo tem na forja com a justificação de que só assim é que se conseguirá “aumentar a competitividade”).

 

Uma simples análise dos dados publicados mensalmente pelo IEFP nos anos 2005, 2006 e 2007 sobre o desemprego registado, torna imediatamente visível a gigantesca manipulação que está a ser feita, visando branquear a gravidade da situação neste campo e enganar a opinião pública. O quadro seguinte, construído com os dados mensais publicados pelo IEFP, torna evidente e clara essa manipulação.

 

QUADRO IV – Desempregados inscritos mensalmente, colocações mensais, e número total de

desempregados existentes no fim do mês divulgados pelo IEFP – Dados referentes ao Continente

RÚBRICAS

JAN.

FEV.

MAR.

ABRIL

MAIO

JUN.

JULHO

AG.

SET.

OUT.

NOV.

DEZ.

TOTAL

DESEMPREGO NO FIM DO MÊS (Total existente no fim do mês)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2005

471.639

475.602

472.771

467.166

459.194

453.207

450.215

454.662

472.114

473.813

474.862

468.115

 

2006

479.552

476.229

468.470

457.958

445.949

431.621

426.340

426.127

437.246

440.807

445.308

440.125

 

2007

444.390

438.073

428.997

408.401

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desemprego no mês (inscritos no mês)