Informação Alternativa

Portugal

09/04/2007

 

A discriminação da mulher continua a ser tanto maior quanto

mais elevada for a sua escolaridade e qualificação profissional

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Os dados dos quadros de pessoal das empresas referentes a 2005, disponibilizados pelo Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, revelam que, quanto mais elevada é a escolaridade e a qualificação da mulher, maior é a discriminação a que continua sujeita no nosso País. Entre 2000 e 2005, a discriminação que se registava no primeiro destes anos não diminuiu; muito pelo contrário, continuou a verificar-se e mesmo, em relação aos níveis de escolaridade e categorias profissionais elevadas, até aumentou.

 

No 4º Trimestre de 2006, as mulheres representavam 50,5% da população empregada com o ensino secundário, e 57,4% dos empregados com o ensino superior. Só em relação à população com mais baixo nível de escolaridade (com o ensino básico ou menos), é que os homens constituíam a maioria (57,3%) da população empregada.

 

Em 2000, a remuneração recebida pela mulher com um nível de escolaridade inferior ao 1º ciclo do ensino básico representava 79,4% da remuneração recebida pelo homem com idêntica escolaridade, enquanto uma mulher licenciada recebia apenas o correspondente a 66% da do homem com idêntico nível de escolaridade. Em 2005, essa discriminação tinha-se agravado, já que a remuneração da mulher com um nível de escolaridade inferior ao ensino básico tinha aumentado para 80,7% da do homem (em 2000, era 79,4%), enquanto em relação à mulher licenciada a percentagem que a sua remuneração representava em relação à do homem com idêntica escolaridade diminuiu para 65,8% (em 2000, correspondia a 66% da do homem)

 

Entre 2000 e 2005, a situação discriminatória a que estavam sujeitas as mulheres com a categoria de “Quadros superiores” não melhorou, já que em 2000 a remuneração que recebiam correspondia a 70% da dos homens e essa percentagem é idêntica à de 2005. Nas categorias profissionais “Encarregados, contramestres, mestres e chefes” e “Profissionais altamente qualificados”, a discriminação a nível das remunerações agravou-se entre 2000 e 2005, pois a percentagem que a remuneração média das mulheres representava em relação à dos homens diminuiu de 84,3% para 82,8% na primeira categoria e, em relação à segunda, baixou de 86,7% para 84%. A tendência geral é da discriminação ser tanto maior quanto mais elevada é a qualificação. Por exemplo, em 2005, a remuneração da mulher representava 92,3% da do homem na categoria “Praticantes e aprendizes”, 82,7% a nível de “Quadros médios”, e de apenas 70% na categoria “Quadros superiores”.

 

O governo de Sócrates não está interessado em fiscalizar as empresas para acabar com as práticas discriminatórias existentes. A prová-lo está o facto da Inspecção Geral do Trabalho, a quem compete essa fiscalização, ter um quadro para 550 inspectores, que está apenas preenchido em 252 lugares, ou seja, em menos de metade. E isto apesar da OIT considerar que mesmo um quadro de 550 era insuficiente, e que devia ser reforçado em mais 200, totalizando 750 inspectores, para poder fazer face às necessidades de um país com uma população superior a 5.000.000 de empregados.

 

Os dados dos quadros de pessoal referentes a 2005 acabaram de ser disponibilizados pelo Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social. E a conclusão que se tira é que a discriminação a que está sujeita a mulher no nosso País não tem diminuído; muito pelo contrário, continua-se a verificar que ela é tanto maior quanto mais elevado for o nível de escolaridade e de qualificação profissional. Em relação a determinados níveis de escolaridade e de qualificação profissional, a discriminação até se agravou em 2005, quando a comparamos com a que se verificava em 2002 e até em 2000, como mostram os dados do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social.

 

A MULHER JÁ REPRESENTA MAIS DE METADE DA POPULAÇÃO EMPREGADA COM OS NÍVEIS DE ESCOLARIDADE MAIS ELEVADA

 

Os dados referentes ao 4º Trimestre de 2006, publicados pelo INE, relativos à população empregada que constam do quadro I, revelam que as mulheres já são maioritárias na população empregada com o ensino secundário e superior.

 

QUADRO I – População empregada por sexo e nível de escolaridade – 4º Trimestre 2006

NÍVEL DE

HOMENS

MULHERES

TOTAL

% de Mulheres

ESCOLARIDADE

Mil

Mil

Mil

no TOTAL

Até ao básico–3º ciclo

2.080,5

1.548,3

3.628,8

42,7%

Secundário e pós secundário

390,0

398,2

788,2

50,5%

Superior

309,4

416,5

725,9

57,4%

TOTAL

2.779,9

2.363,0

5.142,9

45,9%

FONTE: Estatísticas de Emprego – 4º Trimestre 2006 – INE

 

No 4º Trimestre de 2006, as mulheres já representavam 50,5% da população empregada nesse ano com o ensino secundário, e 57,4% dos empregados com o ensino superior. Só em relação à população com mais baixo nível de escolaridade (com o ensino básico ou menos), é que os homens constituíam a maioria da população empregada (57,3%).

 

Apesar da escolaridade elevada ser um factor chave para se poder responder às necessidades da economia e da sociedade no mundo actual, essa maior escolaridade continua a não ter correspondência quer a nível de categorias profissionais que lhe são atribuídas quer em relação às remunerações auferidas pelas mulheres portuguesas.

 

QUANTO MAIS ELEVADA É A ESCOLARIDADE, MAIOR É A DISCRIMINAÇÃO

 

Os dados dos quadros de pessoal do Ministério do Trabalho e da Segurança Social, constantes do quadro seguinte, revelam que quanto mais elevado é o nível de escolaridade, maior é a discriminação.

 

QUADRO II – Ganho médio mensal por níveis de escolaridade e por género – Euros

NÍVEIS DE ESCOLARIDADE

2000

2002

2005

H

M

M/H

H

M

M/H

H

M

M/H

Inferior ao 1º Ciclo do Básico

544,94

432,69

79,4%

601,10

482,82

80,3%

621,35

501,61

80,7%

1º Ciclo do Ensino Básico

632,61

448,47

70,9%

684,94

493,31

72,0%

744,94

536,40

72,0%

2º Ciclo do Ensino Básico

640,66

467,33

72,9%

692,25

512,66

74,1%

748,62

548,61

73,3%

3º Ciclo do Ensino Básico

829,27

608,01

73,3%

853,34

648,47

76,0%

885,90

662,59

74,8%

Ensino Secundário

1011,78

700,85

69,3%

1093,10

789,20

72,2%

1183,36

842,37

71,2%

Bacharelato

1615,12

1019,50

63,1%

1816,36

1212,01

66,7%

1922,95

1307,56

68,0%

Licenciatura

2102,85

1387,80

66,0%

2259,90

1506,66

66,7%

2387,37

1571,90

65,8%

FONTE: Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social

 

De acordo com os quadros de pessoal que as empresas são obrigadas a enviar todos os anos ao Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, em 2000, a remuneração média das mulheres com um nível de escolaridade inferior ao 1º ciclo do ensino básico representava 79,4% da remuneração média dos homens com o mesmo nível de escolaridade, enquanto uma mulher licenciada recebia em média apenas o correspondente a 66% da do homem com idêntico nível de escolaridade.

 

Em 2005, essa discriminação – quanto maior é a escolaridade, menor é a percentagem que a remuneração da mulher representa em relação à do homem – tinha-se agravado, já que, entre 2000 e 2005, a percentagem que a remuneração da mulher com um nível de escolaridade inferior ao ensino básico representava em relação à do homem tinha aumentado de 79,4% para 80,7%, enquanto em relação à mulher empregada licenciada a percentagem que a sua remuneração representava em relação à do homem com idêntica escolaridade diminuiu de 66% para 65,8%.

 

QUANTO MAIS ELEVADA É A QUALIFICAÇÃO DA MULHER, MAIOR É A DISCRIMINAÇÃO

 

Entre 2000 e 2005, o número de trabalhadoras por conta de outrém das empresas que enviaram os seus quadros de pessoal ao Ministério do Trabalho aumentou 6,7%, mas nas qualificações mais elevadas a subida foi muito maior, como revelam os dados do Ministério do Trabalho constantes do quadro III.

 

QUADRO III – Variação do número de Trabalhadores por Conta de

Outrém (TCO) – Mulheres por qualificações profissionais entre 2000 e 2006

NÍVEIS DE QUALIFICAÇÃO

TCO – Mulheres empregadas

2000

2005

Variação 2005-00

Quadros Superiores

30.749

48.055

56,3%

Quadros Médios

24.115

45.869

90,2%

Encarregados, contramestres, mestres e chefes

18.486

23.640

27,9%

Profissionais Altamente Qualificados

55.260

77.536

40,3%

Profissionais Qualificados

329.612

327.031

–0,8%

Profissionais Semiqualificados

192.236

207.694

8,0%

Profissionais não Qualificados

105.366

108.199

2,7%

Praticantes e Aprendizes

78.796

52.330

–33,6%

TOTAL

834.620

890.354

6,7%

FONTE: Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social

 

Apesar do crescimento do número de mulheres ter sido, entre 2000 e 2005, muito grande nas qualificações mais elevadas – Quadros superiores: +56,3%; Quadros Médios: +90,2%; Profissionais altamente qualificados: +40,3% –, até porque o seu número em 2000 era reduzido, mesmo assim a discriminação a que estão sujeitas não se alterou. O quadro seguinte, construído com dados do Ministério do Trabalho, prova isso.

 

QUADRO IV – Ganho médio mensal por níveis de qualificação e por género – Euros

NÍVEIS DE QUALIFICAÇÃO

2000

2002

2005

H

M

M/H

H

M

M/H

H

M

M/H

Quadros Superiores

2196,55

1536,96

70,0%

2530,07

1792,02

70,8%

2720,12

1904,30

70,0%

Quadros Médios

1558,93

1212,93

77,8%

1683,13

1420,49

84,4%

1753,20

1449,31

82,7%

Encarregados, contramestres, mestres e chefes

1056,11

890,36

84,3%

1138,69

982,04

86,2%

1242,56

1028,90

82,8%

Profissionais Altamente Qualificados

1184,66

1027,40

86,7%

1306,75

1142,49

87,4%

1445,28

1214,02

84,0%

Profissionais Qualificados

679,24

562,12

82,8%

741,93

632,86

85,3%

800,32

684,07

85,5%

Profissionais Semiqualificados

589,38

453,67

77,0%

644,90

500,47

77,6%

700,76

556,06

79,4%

Profissionais não Qualificados

488,71

419,24

85,8%

536,72

462,96

86,3%

578,61

490,81

84,8%

Praticantes e Aprendizes

436,75

408,69

93,6%

480,81