Informação Alternativa

Portugal

04/02/2007

 

A parcela do PIB que reverte para os trabalhadores tem diminuído

em Portugal, agravando a sua situação e as desigualdades

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Contrariamente ao que afirma o pensamento económico único de cariz neoliberal, a % que as remunerações representam em cada ano da riqueza criada, ou seja, do PIB, tem diminuído em Portugal. Assim, entre 2002 e 2006, passou de 50% do PIB para apenas 47,4% do PIB, ou seja, baixou 2,6 pontos percentuais, o que determinou que os trabalhadores recebessem em 2006 menos 4.134 milhões de euros de remunerações, o que contribuiu para o agravamento das suas condições de vida e para o aumento das desigualdades em Portugal. A % registada em Portugal em 2006 (47,4% do PIB) é inferior à média comunitária que, no mesmo ano, variava entre 48,9% e 49,4% do PIB. Mas estas percentagens incluem as contribuições patronais e os descontos para a Segurança Social. Se os retiramos, a percentagem em Portugal desce, em 2005, para apenas 35,9% do PIB.

 

Um dos ataques mais frequentes aos trabalhadores, veiculado pelos media em Portugal, é o de procurar culpabilizá­‑los pela baixa produtividade. No entanto, se a produtividade portuguesa é baixa quando comparada com a média comunitária, ainda são mais baixos os salários quando se compara os salários portugueses com os salários médios da U.E.. Assim, em 2005 por ex., a produtividade em Portugal correspondia a 65,5% da média comunitária (UE25), mas o custo da mão de obra em Portugal representava apenas 49,6% do custo médio comunitário (também UE25). Se fizermos idêntica comparação em relação à Alemanha, concluímos que, em 2005, a produtividade portuguesa correspondia a 64,6% da alemã, mas o custo da mão obra representava apenas 41,6% do da Alemanha. E, em 2006, os custos do trabalho aumentaram na UE25 2,6% e, em Portugal, apenas 0,1%, ou seja, menos 26 vezes, o que agravou aquela relação. Pode­‑se dizer que, para o nível de salários portugueses, a produtividade em Portugal é proporcionalmente superior à produtividade média comunitária e mesmo alemã. Esta é uma conclusão que a análise técnica rigorosa da totalidade dos números obriga a tirar, mas que tanto o pensamento económico único de cariz neoliberal como o governo teimam em não aceitar para assim culpabilizar os trabalhadores, quando não de uma forma explicita, pelo menos implicitamente.

 

A tentativa de culpabilizar os trabalhadores pela baixa produtividade portuguesa é desmentida pelos próprios dados oficiais. Assim, segundo as Contas Nacionais, publicadas pelo INE, em 2006, a produtividade por trabalhador, entre o 2º Trimestre de 2005 e o 2º Trimestre de 2006, diminuiu em Portugal 0,5%. O aumento do PIB em 0,4% foi conseguido, não através da subida da produtividade, mas sim por meio da incorporação de mais trabalhadores na actividade produtiva. Mas, durante o mesmo período, o investimento em Portugal reduziu-se em 7,2%. É evidente uma clara correlação positiva entre a produtividade e o investimento – a produtividade é tanto maior quanto mais elevado for o investimento de qualidade – sendo, por isso, difícil aumentar significativamente a produtividade em Portugal sem antes também aumentar o investimento de qualidade. Mas a isso se opõe a política cega de obsessão do défice do governo, que tem determinado a quebra significativa do investimento em Portugal.

 

A parcela da riqueza criada anualmente no nosso País – o chamado PIB - que reverte para os trabalhadores, sob a forma de remunerações, tem diminuído em Portugal, o que determinou o agravamento das condições de vida de quem vive do seu trabalho e o aumento das desigualdades. O governo, no lugar de as combater, até as fomenta e considera como vantagens competitivas. A prová-lo está o Relatório do OE2006, onde se pode ler, preto no branco, na pág. 2, o seguinte: «a única forma de manter níveis de competitividade externa capazes de repor as exportações no centro da recuperação da procura é através da contenção … dos custos unitários do trabalho». É disso também prova o que sucedeu na China com o ministro da Economia, cuja incompetência se revela cada vez com maior frequência, que procurou atrair capitais chineses utilizando o frágil argumento dos baixos salários praticados em Portugal.

 

O pensamento económico único de cariz neoliberal dominante nos media em Portugal tem idêntica posição. É exemplo o artigo publicado por Daniel Amaral no Expresso em 6.1.2007, cujos escritos são quinzenalmente publicados naquele semanário, o que confirma a sua identificação com a linha editorial, pois só assim é que se pode ter espaço reservado. Nele, Daniel Amaral escreveu o seguinte: «Não tenho dúvidas a este respeito: a política salarial dos últimos anos foi completamente suicida, e a ela se deve o elevado desemprego que hoje temos». E concluía dando o seguinte conselho aos sindicatos: «As actualizações salariais este ano não deverão exceder os 2%», ou seja, menos que a inflação prevista para 2007. Portanto, os culpados do desemprego seriam aqueles que sofrem as consequências deste flagelo social.

 

Quando numa carta ao director do Expresso, que demorou em ser publicada, mostrámos que manipulava dados e que o seu escrito não tinha rigor nem técnico nem científico, descontrolou-se, o verniz estalou, e passou ao ataque pessoal (veja-se o seu artigo resposta publicado no Expresso de 3.2.2007). A substituição do argumento técnico pelo ataque pessoal só põe mais a nu a fragilidade dos argumentos do pensamento económico de cariz neoliberal, muito dele de importação, dominante em Portugal.

 

A PARTE DAS REMUNERAÇÕES NO PIB EM PORTUGAL É INFERIOR À MÉDIA COMUNITÁRIA

 

Contrariamente àquilo que o Expresso publicou duas vezes (em 6.1.2007 e em 3.2.2007), a percentagem que representam as remunerações, incluindo as contribuições patronais, em relação ao PIB em Portugal é inferior à média comunitária e tem diminuído de uma forma contínua nos últimos anos, prevendo o Eurostat que continue a reduzir­‑se nos próximos anos. Os dados do serviço oficial de estatística da U.E., constantes do quadro seguinte, mostram isso.

 

QUADRO I – Percentagem que as Remunerações, incluindo as contribuições patronais

para a Segurança Social, representam do PIB em Portugal e na União Europeia

PAÍSES

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

UE25 (Eurostat)

50,2%

49,9%

49,4%

49,2%

48,9%

48,7%

48,5%

UE15 (Eurostat)

50,6%

50,3%

49,8%

49,7%

49,4%

49,2%

48,9%

PORTUGAL (Eurostat)

50,0%

47,9%

47,3%

47,4%

47,4%

47,3%

47,0%

PORTUGAL (Daniel Amaral/Expresso)

49,9%

50,2%

50,4%

51,0%

51,4%

 

 

 

Segundo o Eurostat, a percentagem que as Remunerações, incluindo as contribuições patronais para a Segurança Social, representam da riqueza criada em cada ano, ou seja, do PIB, por um lado, diminuiu entre 2002 e 2006 (passou de 50% do PIB para apenas 47,4% do PIB) e, por outro lado, foi e é inferior à média comunitária (em 2006, a média comunitária variava entre 48,9% e 49,2% do PIB, enquanto em Portugal representava apenas 47,4%). E o Eurostat prevê que essa percentagem continue a diminuir em Portugal em 2007 e 2008. Tenha-se presente que cada um ponto percentual a menos significa que os trabalhadores portugueses recebam menos 1.590 milhões de euros de remunerações.

 

Os dados do quadro tornam clara também a manipulação feita por Daniel Amaral que obteve para Portugal, em relação ao ano de 2006, a percentagem de 51,4%, quando o Eurostat calculou para Portugal, e para o mesmo ano (2006), a percentagem de 47,4%, ou seja, menos 4 pontos percentuais, o que significa que, segundo Daniel Amaral, os trabalhadores portugueses receberam em 2006 mais 6.360 milhões de euros do que o valor calculado pelo Eurostat. E como se isso não fosse suficiente, Daniel Amaral comparou o valor que fabricou – 51,4% – com o valor calculado pelo Eurostat para a União Europeia – 48,9% –, quando essa comparação não é tecnicamente correcta porque são utilizadas metodologias diferentes, para depois poder concluir que «o peso das remunerações no PIB» era, em Portugal, excessivo, constituindo a causa principal do elevado desemprego actual. E concluía o seu artigo aconselhando os trabalhadores e os sindicatos a que o aumento dos salários em 2007 não ultrapassasse os 2%, ou seja, menos que a taxa de inflação, o que significaria nova redução no poder de compra dos trabalhadores portugueses. Como se vê, o pensamento económico de cariz neoliberal dominante nos media não olha a meios, utilizando a manipulação e mesmo a mentira, para defender as suas posições, que são as do poder económico e político.

 

A % DAS REMUNERAÇÕES, SEM CONTRIBUIÇÕES, NO PIB É AINDA MAIS BAIXA

 

Os valores anteriores referentes a “Remunerações” ainda incluem as contribuições para a Segurança Social. Se retirarmos essas contribuições, já que não são recebidas pelos trabalhadores, os valores obtidos ainda são mais baixos, como se conclui do quadro seguinte.

 

QUADRO II – Percentagem que as Remunerações, sem incluir as contribuições patronais

e dos trabalhadores para a Segurança Social, representam do PIB em Portugal

PAÍSES

2002

2003

2004

2005

PIB – Milhões euros

135.434

137.935

143.041

147.014

Remunerações c/Contribuições Patronais e dos Trab. p/ S.Social – Milhões €

67.645

69.182

72.999

74.968

Contribuições dos patrões e trabalhadores para a S. Social – Milhões euros

19.526

20.370

21.335

22.147

Remunerações s/Contribuições Patronais para a S. Social – Milhões €

54.300

55.260

58.418

59.832

Remunerações s/Contribuições dos Patrões e dos trabalhadores – Milhões €

48.119

48.812

51.664

52.821

% Remunerações s/Contribuições Patronais do PIB

40,1%

40,1%

40,8%

40,7%

% Remunerações s/Contribuições dos patrões e dos trabalhadores

35,5%

35,4%

36,1%

35,9%

FONTE: Banco de Portugal

 

Em 2005, por ex., a percentagem que as Remunerações, sem incluir as contribuições patronais para a Segurança Social, representaram em relação ao PIB desse mesmo ano correspondia a 40,7%; e, se retiramos os descontos feitos pelos trabalhadores para a Segurança Social, que não ficam para eles, então a percentagem que se obtém já desce para apenas 35,9% do PIB. Portanto, ambos os valores são muito inferiores ao obtido por Daniel Amaral no seu ataque aos trabalhadores e sindicatos.

 

A PRODUTIVIDADE EM PORTUGAL É BAIXA QUANDO COMPARADA COM A MÉDIA COMUNITÁRIA, MAS AINDA SÃO MAIS BAIXOS OS SALÁRIOS

 

Um dos argumentos mais utilizado quer pelo governo, quer pelo poder económico, quer ainda pelo pensamento económico neoliberal dominante nos media em Portugal para justificar a baixa dos salários reais, é que a produtividade portuguesa é inferior à da União Europeia. Neste ataque aos trabalhadores, pois a mensagem que pretendem fazer passar é que a culpa desta baixa produtividade é dos trabalhadores, esquecem­‑se de fazer comparações também em relação aos salários. E estes são ainda muito mais baixos do que a produtividade, como provam os dados do Eurostat constantes do quadro seguinte.

 

QUADRO III – Produtividade e salários em Portugal e na União Europeia

RÚBRICAS

2002

2003

2004

2005

PRODUTIVIDADE

 

 

 

 

UE25

100,0%

100,0%

100,0%

100,0%

UE15

106,8%

106,6%

106,1%

106,0%

Alemanha

99,6%

100,2%

99,7%

101,4%

% PORTUGAL/UE25

71,3%

65,9%

65,9%

65,5%

% Portugal/UE15

66,8%

61,8%

62,1%

61,8%

% Portugal/Alemanha

71,6%

65,8%

66,1%

64,6%

CUSTO MENSAL MÃO DE OBRA (12 meses)

 

 

 

 

UE25 – Euros

2.936,8

2.982,2

3.062,1

3.140,0

UE15 – Euros

3.338,6

3.437,9

 

 

Alemanha – Euros

3.636,0

3.725,0

3.745,0

3.745,0

PORTUGAL – Euros

1.330,3

1.409,5

1.493,4

1.556,9

% Portugal/UE25

45,3%

47,3%

48,8%

49,6%

% Portugal/UE15

39,8%

41,0%

 

 

% Portugal/Alemanha

36,6%

37,8%

39,9%

41,6%

FONTE: Eurostat

 

Assim, em 2005 por exemplo, a produtividade em Portugal correspondia apenas a 65,5% da média comunitária (UE25), mas o custo da mão de obra em Portugal representava apenas 49,6% da média comunitária (também UE25). Se fizermos idêntica comparação em relação à Alemanha, concluímos que, em 2005, a produtividade portuguesa correspondia apenas a 64,6% da alemã, mas o custo da mão obra representava apenas 41,6% da alemã. Em 2006, segundo o Eurostat, os custos do trabalhão aumentaram na UE25 2,6%, enquanto em Portugal subiram 0,1%, ou seja, 26 vezes menos, o que contribuiu para agravar ainda mais aquela relação. Portanto, face a estes números, é-se obrigado a concluir que, para o nível de salários portugueses, a produtividade em Portugal é proporcionalmente superior à média comunitária e mesmo à alemã. Mas esta é uma conclusão de natureza técnica que tanto o pensamento económico único de cariz neoliberal como o governo procuram esconder no seu afã de atacar os trabalhadores.

 

A PRODUTIVIDADE EM PORTUGAL TEM DIMINUÍDO DEVIDO À FORTE QUEBRA NO INVESTIMENTO

 

Os dados publicados pelo INE, referentes às Contas Nacionais do 2º Trimestre de 2006, revelam que a produtividade e o investimento diminuíram em Portugal em 2006, e que o reduzido crescimento do PIB foi conseguido fundamentalmente, não através do aumento da produtividade, mas sim por meio da incorporação de mais trabalhadores/as na actividade produtiva. Portanto, o modelo de crescimento que se está a utilizar em Portugal é fundamentalmente um modelo extensivo, que não é o adequado para aumentar a competitividade das empresas e da economia portuguesa. O quadro seguinte, construído com dados publicados pelo Eurostat, mostra isso.

 

QUADRO IV – Evolução do VAB, do PIB, da Produtividade e do Investimento Total

entre o 2º Trimestre de 2005 e 2º Trimestre de 2006 a preços constantes de 2000

 

PERÍODO

VAB

Milhões

Euros

PIB

Milhões Euros

(VAB+Impostos)

POPULAÇÃO

EMPREGADA

PRODUTIVIDADE

FBCF

(Investimento)

Milhões euros

VAB/Empregado

Euros

PIB/empregado

Euros

2º Trim. 2005

27.740,4

31.747,3

5.132.000

5.405

6.186

7.320,7

2º Trim. 2006

27.855,5

32.029,5

5.180.800

5.377

6.182

6.792,3

VARIAÇÂO

+0,4%

+0,9%

+1,0%

–0,5%

–0,1%

–7,2%

FONTE: Contas Nacionais Trimestrais – 2º Trim. 2006 – INE; Estatísticas de Emprego – 2º Trim. 2006 – INE

 

Como revelam os dados do quadro, a taxa de crescimento económico registada no 2º Trimestre de 2006, quando comparada com o 2º Trimestre de 2005, tomando como base o valor do VAB e não do PIB, que é influenciado pelos impostos, foi apenas de 0,4%.

 

Mesmo este aumento foi conseguido fundamentalmente à custa da utilização de mais trabalhadores e não devido ao aumento da produtividade, ou seja, do valor produzido por cada trabalhador.

 

Efectivamente, de acordo com os dados constantes das “Estatísticas do Emprego – 2º Trimestre de 2006” publicadas pelo INE, entre o 2º trimestre de 2005 e o 2º Trimestre de 2006, o emprego aumentou em 48.800, pois passou de 5.132.000 para 5.180.800. Se dividirmos o valor do VAB do 2º Trimestre de 2005 e 2006 – respectivamente 27.740,4 milhões de euros e 27.855,5 milhões de euros – pela população empregada em cada um destes trimestres, obtemos um valor por empregado de 5.405 euros para o 2º Trimestre de 2005 e 5.377 euros para o 2º Trimestre de 2006. Isto significa que a produtividade por trabalhador diminuiu –0,5% entre o 2º Trimestre de 2005 e o 2º Trimestre de 2006.

 

Analisando os valores do Investimento Total (FBCF), também constantes do quadro, conclui-se que, entre o 2º trimestre de 2005 e o 2º Trimestre de 2006, o investimento diminuiu –7,2%, pois passou de 7.320,7 milhões de euros para apenas 6.792,3 milhões de euros.

 

Estes dados mostram que existe uma correlação positiva entre produtividade e investimento, ou seja, quando o investimento aumenta, a produtividade do trabalho também aumenta, e, inversamente, quando o investimento diminui, também diminui a produtividade do trabalho, e naturalmente também a produtividade total. A própria OCDE reconhece esta correlação, pois considera no seu relatório de 2006 sobre Portugal que o aumento da produtividade em Portugal tem sido “constrangido”, ou seja, dificultado pelo baixo nível do investimento. Portanto, sem também um aumento significativo do investimento de qualidade, certamente a produtividade não aumentará em Portugal. Mas a isso se opõe a política governamental de obsessão do défice que tem determinado nos últimos anos a quebra significativa do investimento público e, por arrastamento, também do investimento privado.