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13/01/2007 A 3ª versão do Programa de
Estabilidade e Crescimento do governo Sócrates vai agravar ainda
mais as desigualdades em Portugal Eugénio
Rosa
Richard Eckaus, professor norte-americano
de economia do MIT, que tem acompanhado e estudado a Economia Portuguesa, e
que participou recentemente num debate organizado pela Fundação Calouste
Gulbenkian e foi condecorado por Cavaco Silva com a Grã-Cruz da Ordem do
infante D. Henrique, afirmou numa entrevista que deu a um diário português:
«Portugal tem a distribuição de rendimento mais desigual na UE. Mas há formas
de alterar isso e uma delas é a introdução de mis progressividade no imposto
sobre o rendimento. Penso que esse tipo de medidas é muito importante porque
para Portugal é fundamental garantir uma maior igualdade no sistema» [1]. Uma opinião coincidente com aquela que
temos vindo a defender há já bastante tempo, pois a situação actual – grande
desigualdade na repartição da riqueza e do rendimento –, que se tem agravado
nos últimos anos, para além de ser socialmente intolerável, constitui também
um importante obstáculo à superação da actual crise e a uma taxa de
crescimento económico elevada e sustentada. No entanto, foi preciso um
economista norte‑americano vir dizer isso para que obtivesse a
anuência de Vítor Constâncio (veja-se o Jornal de Negócios de
19.12.2006) e para tal medida ter projecção nos media portugueses, pois os
defensores do pensamento único em Portugal são incapazes de ter pensamento
próprio. No entanto, esse não é o caminho que o governo
de Sócrates teima em seguir. A prová-lo isso está a recusa do actual governo
em acabar com os privilégios fiscais de que goza uma minoria em Portugal. São
exemplos comprovativos o escândalo da isenção total das mais valias geradas
pelas OPA’s sobre a PT e o BPI, assim como a isenção recente dada pelo
governo à REN. Só esta última isenção determinou uma perda de receita fiscal
avaliada em 80 milhões de euros, que seria quase suficiente para evitar o
agravamento da carga fiscal sobre os reformados que resultou da redução da
dedução fiscal de 7500 euros para 6.400 euros aprovada pela Lei do OE2007. Em relação às OPA’s, interessa lembrar que
de acordo com a alínea a) do n.º 2 do art.º 10 do Código do IRS, não estão
sujeitas a pagamento de IRS as mais valias resultantes de «acções detidas
pelo seu titular durante mais de 12 meses». E, segundo o n.º 2 do art.º 11 do
Estatuto de Benefícios Fiscais, as mais‑valias realizadas pelas
Sociedades Gestoras de Participações Sociais (SGPS) e por Sociedades de Capital
de Risco (SCR), desde que detidas por um período não inferior a um ano,
também estão isentas de pagamento de imposto. Isto significa que tanto as
pessoas singulares como as colectivas (empresas), pois estas últimas têm
sempre a possibilidade de criar facilmente uma SGPS, desde que tenham as
acções na sua posse por um período superior a um ano não pagam qualquer
imposto pelas mais‑valias obtidas. A OPA sobre a PT lançada pela SONAE e a OPA
sobre o BPI lançada pelo BCP, se se concretizarem, vão gerar para os actuais
detentores de acções mais‑valias que estimamos em 10.000 milhões de
euros que não pagarão qualquer imposto. Se o governo e o PS tivessem aceite a
proposta feita pelo PCP, durante o debate do OE2007, para eliminar aquele
privilégio fiscal de que beneficiam fundamentalmente os grandes grupos
económicos em Portugal, o que determinaria que passassem a pagar uma taxa de
imposto de apenas 10%, que é a taxa aplicável às mais-valias de acções
detidas menos de um ano pelos seus proprietários, o Estado arrecadaria mais
1.000 milhões de euros de receita fiscal em 2007, o que evitaria uma parcela
importante dos pesados sacrifícios que o governo de Sócrates pretende impor
aos trabalhadores, aos reformados e até a um grande número de deficientes. No entanto, o governo, no lugar de procurar
reduzir o défice através de medidas que acabem com os grandes privilégios
fiscais de que gozam fundamentalmente os grandes grupos económicos, prefere
manter esses privilégios e sobrecarregar ainda mais os trabalhadores e outros
sectores desfavorecidos da população com mais sacrifícios. A provar isso está a 3ª versão do chamado
Pacto de Estabilidade e Crescimento: 2006/2010 (PEC3) apresentado pelo
governo em Dezembro de 2006 na Assembleia da República, que foi aprovado pelo
PS e depois enviado para Bruxelas, ainda mais gravosa para os trabalhadores,
reformados e deficientes que as anteriores versões. QUEBRA CONTINUADA NO AUMENTO DE RECEITAS E
AUMENTO SIGNIFICATIVO DA REDUÇÃO DAS DESPESAS COM SALÁRIOS E COM AS FUNÇÕES
SOCIAIS DO ESTADO O governo
apresentou em Dezembro de 2006 uma nova versão do chamado Programa de
Estabilidade e Crescimento (é a 3ª versão – PEC3 – desde que assumiu
funções). E a primeira conclusão que imediatamente se tira, comparando esta
versão com as anteriores, é que a nível de aumento de receitas, nomeadamente
de impostos, as previsões constantes da última versão são consideravelmente
inferiores às das versões anteriores, enquanto a nível de redução das
despesas, que envolve fundamentalmente a redução das despesas com as
remunerações dos trabalhadores da Administração Pública e com as funções
sociais do Estado (segurança social e saúde), a tendência é de aumento
conseguida através de grandes cortes de despesa. O gráfico que se apresenta
seguidamente mostra de uma forma visual, portanto mais facilmente apreendida,
o aumento da receita e a redução da despesa prevista nas três versões do PEC
(Junho de 2005, Dezembro de 2005 e Dezembro de 2006).
Como se
conclui rapidamente do gráfico, a linha que representa o aumento de receita
(receitas fiscais) reflecte uma tendência de diminuição de PEC para PEC,
enquanto a linha que representa a redução da despesa (cortes na despesa) a
tendência é de aumento de versão para versão. Assim, no
PEC1, apresentado em Junho de 2005 pelo governo de Sócrates, a previsão de
aumento de receita era, para o ano de 2007, de 2.815 milhões de euros; no
PEC2, apresentado pelo mesmo governo em Dezembro de 2005, a previsão de
aumento de receita era de 3.100 milhões de euros, mas no PEC3, apresentado em
Dezembro de 2006, a previsão de aumento da receita é apenas de 715 milhões de
euros. A nível de redução de despesa, não se verifica semelhante quebra.
Assim, também para o ano de 2007, a previsão de redução de despesa era, no
PEC1 de 1.830 milhões de euros, no PEC2 de 2.275 milhões de euros e no PEC3
de 1.880 milhões de euros. Em relação a 2008 verifica-se uma situação muito
semelhante: (1) Em relação ao aumento de receita, ele evolui da seguinte
forma: PEC1: 3.355 milhões de euros; PEC2: 3.568: milhões de euros; PEC:
apenas 1.163 milhões de euros; (2) Em relação à redução das despesas: PEC1:
2.655 milhões de euros; PEC2: 3.137 milhões de euros; PEC3: 2.800 milhões de
euros. Evolução análoga verifica-se nos dois anos seguintes constantes da
previsão do governo. Por ex., em 2010, a previsão de aumento de receita é
apenas de 1.195 milhões de euros, enquanto a previsão de redução da despesa
atinge 3.940 milhões de euros, ou seja, 3,3 vezes mais do que o aumento das
receitas. É
evidente que a quebra verificada na previsão do aumento de receitas resulta,
por um lado, da redução acentuada do poder de compra da maioria população
provocada pela política do governo de obsessão pelo défice e, por outro lado,
da recusa do governo de Sócrates em acabar com os grandes privilégios fiscais
de que continua a gozar uma minoria em Portugal, cuja eliminação daria
certamente elevada receita ao Estado. Para compensar, o governo de Sócrates
prefere, por um lado, aumentar e mesmo criar novas taxas para a ADSE e, por
outro lado, fazer grandes cortes na despesa pública, nomeadamente nas
despesas com os trabalhadores da Administração Pública e com as funções
sociais do Estado (segurança social e saúde). CORTES SIGNIFICATIVOS
NAS DESPESAS COM AS REMUNERAÇÕES DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E COM A SEGURANÇA
SOCIAL E A SAÚDE O quadro que se apresenta seguidamente com as previsões constantes das três versões do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC1, PEC2 e PEC3) relativas a aumento de receitas e redução das despesas, que se encontram desagregadas por rubricas, permite ficar a saber que sectores da população serão mais afectados pela política de obsessão pelo défice do governo de Sócrates. |
QUADRO I – PREVISÃO DE AUMENTO DE
RECEITAS E DE REDUÇÃO DE DESPESAS SEGUNDO O GOVERNO COM OS “PEC’s”
|
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|
RUBRICAS |
Milhões de euros |
|||||||||||||
|
2005 |
2006 |
2007 |
2008 |
2009 |
2010 |
|||||||||
|
PEC1 |
PEC2 |
PEC1 |
PEC2 |
PEC1 |
PEC2 |
PEC3 |
PEC1 |
PEC2 |
PEC3 |
PEC1 |
PEC2 |
PEC3 |
PEC3 |
|
|
AUMENTO DA
RECEITA |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Impostos |
680 |
680 |
2.115 |
2.135 |
2.705 |
2.695 |
495 |
3.145 |
3.105 |
863 |
3.375 |
3.305 |
920 |
845 |
|
Imposto sobre Rendimento e património |
150 |
150 |
525 |
605 |
725 |
815 |
260 |
775 |
875 |
373 |
825 |
925 |
400 |
400 |
|
IVA |
530 |
530 |
1.200 |
1.220 |
1.200 |
1.220 |
0 |
1.200 |
1.220 |
20 |
1.200 |
1.220 |
20 |
20 |
|
ISP (Imposto sobre os combustíveis) |
0 |
0 |
210 |
200 |
420 |
400 |
140 |
630 |
600 |
275 |
630 |
600 |
205 |
130 |
|
IT (Imposto sobre o tabaco) |
0 |
0 |
180 |
110 |
360 |
260 |
95 |
540 |
4€10 |
195 |
720 |
560 |
295 |
295 |
|
Contribuições para a Segurança
Social |
30 |
130 |
110 |
270 |
110 |
405 |
120 |
210 |
463 |
190 |
260 |
520 |
220 |
230 |
|
Diversificação
das Fontes de Financiamento |
|
|
|
|
|
|
60 |
|
|
65 |
|
|
70 |
70 |
|
Combate
à evasão e fraude contributiva |
|
|
|
|
|
|
60 |
|
|
125 |
|
|
150 |
160 |
|
Contribuições
para a ADSE |
|
|
|
|
|
|
100 |
|
|
110 |
|
|
110 |
120 |
|
TOTAL AUMENTO DE RECEITA |
710 |
810 |
2.225 |
2.405 |
2.815 |
3.100 |
715 |
3.355 |
3.568 |
1.163 |
3.635 |
3.825 |
1.250 |
1.195 |
|
DIMINUIÇÃO DA
DESPESA |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Redução despesa Administração
Pública |
100 |
100 |
475 |
475 |
850 |
1.055 |
1.360 |
1.225 |
1.635 |
1.710 |
1.600 |
2.215 |
2.040 |
2.340 |
|
Despesas
com Pessoal |
|
|
|
|
|
|
950 |
|
|
1.150 |
|
|
1.340 |
1.510 |
|
Ganhos
de Eficiência |
|
|
|
|
|
|
410 |
|
|
560 |
|
|
700 |
830 |
|
Redução da
despesa Regimes S. Social |
0 |
0 |
430 |
340 |
| |||||||||