Informação Alternativa

Portugal

01/01/2007

 

4.602 milhões de euros de fundos comunitários não foram utilizados

até ao fim de 2005 e mais de 603 milhões não foram pagos às empresas

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Entre 2001 e 2006, a produtividade por empregado, quer seja calculada com base no VAB (–1,1%) quer no PIB (–1,3%), diminuiu em Portugal. Portanto, o crescimento económico reduzido verificado em 2006 resultou da utilização de mais empregados, pois o produzido por cada um até diminuiu. Por essa razão, a competitividade da economia portuguesa piorou. E uma das razões importantes para que isso acontecesse foi a quebra do investimento que, entre 2001 e 2006, diminuiu entre –17% e –20,7% (entre 2002 e 2006, o investimento publico, feito através do PIDDAC, reduziu-se em –30%). Para compensar em parte esta quebra do investimento seria de esperar que se verificasse uma utilização atempada e intensa dos fundos comunitários. Mas isso não sucedeu.

 

De acordo com os últimos dados divulgados pelo governo em relação ao período 2000 a 2005, a União Europeia disponibilizou 17.768,7 milhões de euros de fundos comunitários, mas o nosso País, nesse período, só utilizou 13.165,8 de euros, ou seja, não foram utilizados 4.602,8 milhões de euros que podiam ter sido utilizados até ao fim de 2005 para melhorar a qualificação dos portugueses, modernizar e aumentar a competitividade da economia, e reduzir as graves assimetrias que existem entre as várias regiões do País. Esta situação é ainda pior do que a verificada no fim de 2004, pois até 2004 não tinham sido utilizados 4.344,28 milhões de euros.

 

Até ao fim de 2005, no eixo “ELEVAR O NÍVEL DE QUALIFICAÇÃO DOS PORTUGUESES” ficaram por utilizar 950,8 milhões de euros. No eixo “ALTERAR O PERFIL PRODUTIVO EM DIRECÇÃO AO FUTURO” não foram utilizados, até ao fim de 2005, 1.080,1 milhões de euros. No eixo “AFIRMAR A VALIA DO TERRITÓRIO E DA POSIÇÃO DO PAÍS” ficaram por utilizar 554,8 milhões de euros. E, finalmente, no eixo “PROMOVER O DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO E A COESÃO SOCIAL” não foram utilizados, até ao fim de 2005, 1.994,3 milhões de euros de fundos comunitários. A nível de Programas, no POAP (Administração Pública) não se utilizou nada até ao fim de 2005, e no POSI (Sociedade do Conhecimento) só se utilizou 40%.

 

De acordo com declarações feitas pelo Secretário de Estado do Desenvolvimento Regional na reunião de 16 de Dezembro de 2006 da Comissão de Assuntos Europeus da Assembleia da República, até Outubro de 2006, apenas nove dos vinte Programas financiados pelo FEDER tinham cumprido a chamada “Regra N­–2”; apenas 14 dos 16 Programas financiados pelo FSE tinham cumprido a “Regra N­–2”; apenas sete do FEOGA­‑Orientações tinham cumprido a “Regra N­–2”; e apenas cinco dos oito Programas do IFOP tinham cumprido a “Regra N­–2”. Isto significa, em relação aos Programas Operacionais que não tinham cumprido a “Regra N­–2”, que estes Programas não tinham conseguido, até Outubro de 2006, utilizar os fundos que a União Europeia já tinha posto ao dispor do nosso País até ao fim de 2004 para serem utilizados até este ano. E o grave é que a parte dos fundos comunitários disponibilizados até ao fim de 2004, que não forem utilizados até ao fim de 2006, são definitivamente perdidos por Portugal.

 

Para além disso, uma parte importante das despesas feitas pelos promotores (empresas e outras entidades) não tinha sido reembolsada pelo governo, o que estava a criar graves dificuldades financeiras a todos eles e mesmo a determinar o estrangulamento financeiro de muitos. De acordo com as normas que vigoram no 3º QCA, os promotores têm antes de pagar a despesa e só depois é que são reembolsados pelo governo. O governo não publica dados sobre os reembolsos pagos. No entanto, se compararmos os valores da despesa validada (aquela que já foi entregue para reembolso pelos promotores) e a despesa certificada (aquela que foi aprovada e já enviada para a Unidade de Pagamento), até ao fim de 2005, a primeira era superior à segunda em 603,298 milhões de euros. Pelo menos este valor estava por pagar até ao fim de 2005, a que se deve ainda juntar a diferença entre a despesa enviada para a Unidade de Pagamento e a que foi paga efectivamente aos promotores até ao fim de 2005, que certamente será elevada.

 

O grande atraso que se verifica na utilização dos fundos comunitários está a ter consequências graves para o nosso País. São problemas e deficiências que podiam ser resolvidas mais cedo, mas que não o foram, o que determina o atraso do País em relação à U.E. e a perda da competitividade da economia. É também o poder de compra desses fundos que diminui, pois com o mesmo valor de fundos realiza-se nos anos seguintes menos devido à inflação. A autorização obtida pelo governo português para utilizar os fundos do 3º QCA até 2008, por um lado, confirma o grande atraso que se tem verificado na sua utilização e, por outro lado, ao se sobrepor ao novo QREN, vai agravar ainda mais os problemas da aplicação dos fundos comunitários, gerando novos atrasos, mais ineficiências, e agravando a divergência de Portugal em relação à U.E.

 

A quebra no investimento em Portugal, medido pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), está a ter consequências desastrosas para o País, não só sociais (não se criam empregos suficientes, logo o desemprego aumenta), mas também económicas (não se realiza a modernização do tecido produtivo português a tempo e horas, logo a produtividade e a competitividade não aumentam). Os dados constantes das Contas Nacionais referentes ao 3º Trimestre de 2006 publicadas pelo INE, que constam do quadro seguinte, provam isso.

 

QUADRO I – Variação da FBCF (Investimento ) e da

Produtividade entre 2001 e 2006 a preços constantes de 2000

PERÍODO

FBCF

(Investimento)

Milhões euros

VAB

PIB

População

Empregada

Mil

PRODUTIVIDADE

Milhões euros

Preços constantes 2002

VAB/Empregado

Euros

PIB/Empregado

Euros

1+2+3Trim.

 

 

 

 

 

 

2001

25.643,1

81.648,9

93.234,6

4983,2

16.385

18.710

2006

21.276,1

83.716,1

95.697,7

5165

16.208

18.528

VARIAÇÃO

–17,0%

2,5%

2,6%

3,6%

–1,1%

–1,0%

3Trim.2001

8.794,2

27.272,7

31.241,8

5.002,9

5.451

6.245

3Trim.2006

6.975,3

27.962,5

31.959,8

5.187,3

5.391

6.161

VARIAÇÃO

–20,7%

2,5%

2,3%

3,7%

–1,1%

–1,3%

Fonte: Contas Nacionais Trimestrais – 3º Trim. 2006, Estatísticas de Emprego 2001 e 2006 – INE

 

Os dados oficiais anteriores mostram que existe uma correlação positiva entre o investimento e a produtividade. Segundo o INE, a preços constantes de 2000, para anular o efeito do aumento de preços, entre 2001 e 2006, verificou-se uma quebra importante no investimento total no País que varia entre –17% (com base nos três primeiros trimestres de cada um destes anos ) ou – 20,7% (se a comparação for feita com base no investimento realizado apenas no 3º Trimestre de cada ano); como consequência, a produtividade por empregado diminuiu, quer se calcule com base no VAB (–1,1%) quer se considere o PIB que se obtém adicionando ao VAB os impostos (–1% a –1,3%).

 

Perante tal evolução seria de esperar que se verificasse uma utilização atempada e eficaz dos fundos disponibilizados pela União Europeia, até para compensar a forte quebra verificada no investimento público previsto feito através do PIDDAC que, entre 2002 e 2006, passou de 6.638,9 milhões de euros para 4.853,5 milhões de euros (–30%), como consequência da política de obsessão do défice. No entanto, isso não se verificou, como mostram os dados disponíveis mais recentes, que são os de 2005, sobre a utilização dos fundos comunitários. Verifica-se também um grande atraso nos pagamentos (reembolsos) aos promotores (empresas e outras entidades) que está a determinar o aumento das suas dificuldades financeiras, e mesmo o estrangulamento financeiro de muitos deles, em particular num período de grave crise económica como é o actual.

 

4.6002 MILHÕES DE EUROS DE FUNDOS COMUNITÁRIOS QUE PODIAM SER UTILIZADOS ATÉ AO FIM DE 2005 MAS QUE NÃO O FORAM

 

Um dos aspectos mais graves na utilização dos fundos comunitários é precisamente a sua não utilização no período em que podiam ser, o que está a acarretar elevados custos económicos e sociais para o País. O quadro seguinte, construído com dados oficiais, mostra o grau de utilização dos fundos postos ao dispor de Portugal pela U.E. até ao fim do ano de 2005.

 

QUADRO II – FUNDOS COMUNITÁRIOS PARA O PERÍODO 2000­‑2005:

O disponibilizado pela União Europeia e o utilizado por Portugal

PROGRAMAS

Acrónimo

P.O. – PROGRAMAS

OPERACIONAIS

PROGRAMADO

(Disponibilizado

pela U.E.)

para o período

2000-2005

Milhões euros

Utilizado (validado)

2000-2005

Milhões euros

Utilizado (certificado)

2000-2005

Milhões euros

% do Dispo-

nibilizado

até 2005 que foi utilizado

(Validado)

NÃO UTILIZADO

Até 31.12.2005

Milhões euros

QCA III

TOTAL

17.768,768

13.165,875

12.562,577

74,1%

4.602,89

 

TOTAL-FEDER

11.580,778

8.388,880

8.159,467

72,4%

3.191,90

 

TOTAL-FSE

4.027,317

3.403,049

3.054,096

84,5%

624,27

 

TOTAL-FEOGA-O

1.964,037

1.231,705

1.211,373

62,7%

732,33

 

TOTAL-IFOP

196,636

142,240

137,041

72,3%

54,40

1.1. PRODEP

Educação

947,754

781,258

734,259

82,4%

166,50

1.2. POEFDS

Emprego, Formação e Desen. Social

1.408,173

1.323,024

1.160,987

94,0%

85,15

1.3. POCTI

Ciência, Tecnologia e Inovação

594,752

384,780

372,286

64,7%

209,97

1.4. POSI

Sociedade do Conhecimento

337,127

135,556

125,045

40,2%

201,57

1.5. PSAUDE

SAÚDE

428,820

296,641

285,949

69,2%

132,18

1.6. POC

CULTURA

216,250

141,095

139,707

65,2%

75,16

1.7. POAP

Administração Pública

80,344

0,000

0,000

0,0%

80,34

1. ELEVAR NÍVEL DE QUALIFAÇÃO DOS PORTUGUESES

4.013,220

3.062,354

2.818,233

76,3%

950,87

2.1. POAGRO

Agricultura e Desen-

volvimento Rural

1.168,778

756,061

736,363

64,7%

412,72

2.2. POMARE

Pescas

160,431

117,195

112,081

73,1%

43,24

2.3. POE/PRIME

Modernização da Economia

2.424,130

1.799,966

1.749,156

74,3%

624,16

2. ALTERAR PERFIL PRODUTIVO EM DIRECÇÃO ACTIVIDADES FUTURO

3.753,339

2.673,222

2.597,600

71,2%

1.080,12

3.1. POAT

Acessibilidades e Transportes

1.249,227

798,842

771,900

63,9%

450,39

3.2. POA

AMBIENTE

288,812

184,353

184,288

63,8%

104,46

3. AFIRMAR VALIA TERRITÓRIO E DA POSIÇÃO PAÍS

1.538,039

983,195

956,188

63,9%

554,84

4.1. PONORTE

Regional Norte

2.465,960

1.935,366

1.820,299

78,5%

530,59

4.2. POCENTRO

Regional Centro

1.549,297

1.167,032

1.133,370

75,3%

382,27

4.3. POLVT

Regional Lisboa e V. Tejo

1.460,625

1.127,897

1.093,266

77,2%

332,73

4.4. POALT

Regional Alentejo

1.091,458

746,303

716,709

68,4%

345,16

4.5. POALG

Regional Algarve

413,199

277,517

269,506

67,2%

135,68

4.6. PRODESA

Açores

780,563

663,266

644,661

85,0%

117,30

4.7. POPRAM

Madeira

639,439