Informação Alternativa

Portugal

12/11/2006

 

Um orçamento que não garante o crescimento económico e sem preocupações sociais

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Na intervenção que fez na Assembleia da República na defesa do OE2007, o 1º ministro entrou em euforia relativamente ao crescimento da economia portuguesa, procurando fazer passar a mensagem de que a crise já tinha passado, tal como o ministro da Economia. No entanto, Sócrates, intencionalmente ou por ignorância, esqueceu­‑se de referir factos, como o do aumento das exportações estar associado à degradação dos preços e dos termos de troca, os quais provam que as causas estruturais da crise que o país enfrenta continuam por resolver.

 

Em períodos de grave crise económica, como é este em que Portugal se debate, o investimento público é um instrumento fundamental para dinamizar a economia e para, por arrastamento, estimular o investimento privado. Ora o que está acontecer em Portugal é precisamente o contrário. Em 2007, o investimento público feito no âmbito do PIDDAC no Continente vai diminuir em –6%, a juntar à redução de –29% verificada no ano anterior e, para além disso, regista-se uma repartição cada vez mais desigual desse investimento por distritos (por ex., em 2007, o distrito de Castelo Branco vai receber –50,6% do que em 2006), o que agrava as já graves assimetrias regionais.

 

Um dos argumentos mais utilizados pelo governo na sua propaganda é o facto de o emprego líquido ter aumentado com o governo de Sócrates, o que nunca teria acontecido desde o governo de Guterres. Esta afirmação é uma mentira. De acordo, com dados do INE, durante o governo de Durão Barroso o emprego líquido aumentou em 105.000, com o de Santana Lopes diminuiu em 30.200, e com o de Sócrates cresceu em 86.400. Os dados do INE mostram que pode haver aumento do emprego líquido com agravamento da crise económica, e a experiência empírica mostra que em Portugal só se verifica uma diminuição sustentada da taxa de desemprego quando a taxa de crescimento económico (PIB) é superior a 2%, o que ainda não aconteceu, nem se prevê que suceda a curto prazo.

 

O governo afirma que em 2007 vai tomar medidas para que a banca pague mais IRC. No entanto, a receita fiscal perdida devido aos benefícios fiscais que vai conceder nunca cresceu tanto como sucederá em 2007. Efectivamente, em 2007 os benefícios fiscais concedidos nomeadamente às empresas, que representam cerca de 60% de toda a receita perdida, aumentarão mais 16,5%, ou seja, mais 294,9 milhões de euros, quando em 2005 haviam diminuído em –10,5% e, em 2006, em –20,7%. Para além disso, os efeitos eventualmente positivos de algumas medidas anunciadas, como a proibição de a banca constituir provisões em relação ao crédito da habitação que concede, reduzindo assim os lucros sujeitos a imposto, e duplicando garantias pois já tinha as hipotecas das habitações, são anulados pela introdução no Estatuto do Benefícios Fiscais de mais privilégios que beneficiam fundamentalmente os grandes grupos económicos, como acontece com os que constavam do Decreto-Lei 404/90, cuja vigência devia terminar este ano, e que assim se eternizam. Desta forma, e para utilizar linguagem popular, o governo “tira um chouriço à banca mas, em troca, dá-lhe um porco”. As medidas anunciadas por Sócrates com pompa e circunstância, de que a Administração Fiscal iria controlar o planeamento fiscal e a redução dos lucros pela banca utilizando prejuízos de outras empresas suas, tudo isto consta da lei actualmente em vigor, e como o governo não pretende mudar a lei, os seus efeitos serão praticamente nulos.

 

O 1º ministro afirmou que o “seu” orçamento é um orçamento com preocupações sociais. No entanto, pela primeira vez, no OE2007, o peso das despesas com as funções sociais na despesa total do Estado descerá 1,7 pontos percentuais pois, entre 2006 e 2007, baixará de 61,7% para 60%, como consta na pág. 106 do Relatório do OE2007, o que significa uma redução de 780 milhões de euros para a Educação, Saúde, Segurança Social, Habitação e Cultura. E isto já para não falar na redução de 446 milhões de euros nas remunerações certas e permanentes de 11 ministérios, e a diminuição de 120 milhões nas despesas de funcionamento das Universidades e Institutos Politécnicos o que, a concretizar-se, determinará ou o despedimentos de dezenas de milhares de trabalhadores da Administração Publica ou a colocação de mais de 100.000 no quadro dos “supranumerários”, agora chamado “situação de mobilidade especial”, com vencimentos reduzidos.

 

Na intervenção que fez na Assembleia da República na defesa do “seu” orçamento, o 1º ministro, na linha do ministro da Economia que já havia decretado que “a crise acabou”, entrou em euforia relativamente ao crescimento da economia portuguesa, tendo afirmado que este ano «o crescimento da economia, deverá atingir 1,4% – o que significa que crescemos muito mais só neste ano do que nos três anos do governo anterior. E para 2007, o orçamento prevê a continuação da trajectória de recuperação da economia, que deverá crescer 1,8% – um valor que não é alcançado em Portugal há cinco anos».

 

No entanto, o que Sócrates se esqueceu de dizer, intencionalmente ou por ignorância, mas que qualquer economista lhe diria, é que aquele reduzido crescimento, por um lado, está a determinar que Portugal continue a se afastar cada vez mais da União Europeia e, por outro lado, que ele está associado a um conjunto de situações que não garantem um crescimento económico sustentado e elevado, a saber: (1) O aumento das exportações de que o governo tanto fala verificou-se com uma degradação dos preços e dos termos de troca, como consta da pág. 75 do próprio Relatório do OE2005; (2) A taxa de crescimento do PIB potencial é actualmente, em Portugal, inferior a 2%, o que torna no futuro praticamente impossível qualquer crescimento sustentado elevado; (3) A experiência portuguesa mostra que não é possível uma redução sustentada da taxa de desemprego enquanto o PIB não crescer a uma taxa superior a 2%, o que ainda não sucede e nem se prevê que venha a acontecer em breve com a política de obsessão do défice seguida; (4) Os problemas estruturais do nosso País – grave desigualdade na repartição da riqueza e rendimento, baixo nível de escolaridade e de qualificação profissional, insuficiente investimento, nomeadamente de qualidade, etc. – que são as causas da crise actual continuam por resolver, e vão agravar-se com este orçamento; (5) O fraco crescimento económico verificado no 2º Trimestre de 2006 (apenas 0,9%) foi conseguido, não através do aumento da produtividade, que até diminuiu –0,5%, mas sim por meio da utilização de mais trabalhadores, pois a quebra do investimento em cerca de –7% contribuiu para que se verificasse uma quebra na produtividade.

 

O INVESTIMENTO PÚBLICO VAI DIMINUIR NO CONTINENTE EM 2007 E VAI AGRAVAR-SE A SUA REPARTIÇÃO POR DISTRITOS

 

O 1º ministro afirma que o “seu” orçamento é amigo do crescimento económico e vai estimulá-lo. No entanto, a análise do OE2007 mostra precisamente o contrário.

 

Como se sabe, em períodos de grave crise económica, como é a que Portugal enfrenta, o investimento público é um instrumento fundamental para dinamizar a economia e para, por arrastamento, estimular o investimento privado. Ora o que está acontecer em Portugal é precisamente o contrário. Por um lado, verifica-se uma quebra continuada do investimento público feito no âmbito do PIDDAC e, por outro lado, observa-se uma repartição cada vez mais desigual desse investimento por distritos, como mostram os dados do quadro seguinte.

 

QUADRO I – Investimento público, feito no âmbito do

PIDDAC, por distritos entre 2002 e 2007 – Em mil euros

 

PIDDAC – Mil Euros

 

VARIAÇÃO em %

DISTRITOS

2002

2005

2006

2007

2006/05

2007/06

2007/02

Total PIDDAC

6.638.990

6.724.022

4.853.534

4.978.135

–27,8%

2,6%

–25,0%

CONTINENTE

5.334.119

6.245.172

4.432.081

4.168.015

–29,0%

–6,0%

–21,9%

Aveiro

285.230

254.789

219.331

127.449

–13,9%

41,9%

55,3%

Beja

186.323

134.692

91.300

79.524

32,2%

12,9%

57,3%

Braga

358.267

182.649

110.632

72.390

39,4%

34,6%

79,8%

Bragança

125.063

94.711

59.149

65.611

37,5%

10,9%

47,5%

Castelo Branco

148.273

124.805

127.441

62.962

2,1%

50,6%

57,5%

Coimbra

218.163

231.777

168.737

148.911

27,2%

11,7%

31,7%

Évora

135.804

151.891

105.688

81.991

30,4%

22,4%

39,6%

Faro

333.702

262.268

171.857

105.165

34,5%

38,8%

68,5%

Guarda

98.997

103.284

75.066

68.113

27,3%

9,3%

31,2%

Leiria

150.698

120.171

91.832

50.028

23,6%

45,5%

66,8%

Lisboa

1.233.398

1.169.517

766.311

510.528

34,5%

33,4%

58,6%

Portalegre

92.316

85.973

55.641

59.697

35,3%

7,3%

35,3%

Porto

1.022.414

1.202.379

542.276

323.835

54,9%

40,3%

68,3%

Santarém

199.240

233.431

150.080

92.927

35,7%

38,1%

53,4%

Setúbal

363.909

219.963

192.576

131.786

12,5%

31,6%

63,8%

V. Castelo

118.734

54.771

35.443

44.047

35,3%

24,3%

62,9%

Vila Real

96.045

106.341

61.380

70.106

42,3%

14,2%

27,0%

Viseu

167.546

125.731

74.617

60.515

40,7%

18,9%

63,9%

RA Madeira

9.487

24.006

11.355

18.519

52,7%

63,1%

95,2%

RA Açores

 

 

 

10.557

 

 

 

Vários distritos Continente

 

1.386.028

1.332.728

2.012.424

3,8%

51,0%

 

FONTE: Relatórios do OE

 

Entre 2002 e 2007, o investimento público feito no âmbito do PIDDAC diminuirá, pelo menos, em 25%. Para além disso, verifica-se uma repartição muito desigual pelos distritos, constando-se que os distritos onde se verificaram maiores cortes são fundamentalmente distritos do interior pouco desenvolvidos ou então com graves problemas sociais. Por ex., entre 2006 e 2007, o investimento público diminuirá 6% no Continente, mas no distrito de Castelo Branco sofrerá uma redução de –50,6%, no distrito de Braga de –34,6%, no distrito de Leiria de –45,5%, no distrito de Aveiro de –41,9%, etc., etc. E nos valores anteriores, assim como em todos aqueles que constam do quadro, no seu cálculo não se entrou em conta com o aumento de preços, pois se se tivesse tido em consideração, a quebra real no investimento seria muito maior do que aquela que se conclui dos dados anteriores (entre 2002 e 2007, os preços subiram 16%). É evidente que este tipo de repartição, para além de criar obstáculos ao desenvolvimento equilibrado do País, também agrava ainda mais as já graves assimetrias regionais, contribuindo para a desertificação do interior e para a multiplicação de graves problemas sociais no litoral onde as populações se concentram.

 

A HISTÓRIA MAL CONTADA DO CRESCIMENTO DO EMPREGO LÍQUIDO EM PORTUGAL

 

Um dos argumentos mais utilizados pelo governo na sua propaganda é que o emprego líquido tem aumentado com Sócrates, o que nunca sucedeu anteriormente desde Guterres. Mas isso é uma mentira, como provam os dados do INE constantes do quadro seguinte.

 

QUADRO II – Evolução do emprego líquido em Portugal durante os governos

do PSD/CDS de Durão Barroso e Santana Lopes e do PS de Sócrates

PERÍODO

GOVERNO

Emprego líquido

1ºT2002 (início governo Durão Barroso)

PSD/CDS – Durão Barroso

5.019.600

2ºT2004 (Fim governo Durão Barroso)

PSD/CDS – Durão Barroso

5.124.600

Variação líquida 1ºT02-2ºT04

PSD/CDS – Durão Barroso

+105.000

1ºT2005 (Fim governo Santana Lopes)

PSD/CDS – Santana Lopes

5.094.400

Variação líquida 2ºT04-1ºT05

PSD/CDS – Santana Lopes

–30.200

2ºT2006

PS – Sócrates

5.180.800

Variação líquida 2ºT06-1ºT05

PS – Sócrates

+86.400

FONTE: Estatísticas do Emprego – INE

 

Durante o governo de Durão Barroso verificou-se uma criação liquida de 105.000 postos de trabalho, no entanto a situação económica e social não deixou de se agravar. Durante o governo de Santana Lopes verificou-se uma destruição líquida de 30.200 postos de trabalho, e com o governo do PS de Sócrates o emprego líquido aumentou em 86.400 postos, o que corresponde apenas a 82% do crescimento líquido de emprego verificado durante o governo do PSD/CDS de Durão Barroso. Os dados anteriores sobre a evolução do emprego em Portugal mostram que o crescimento que se tem verificado não é um crescimento sustentado, sendo possível que o emprego possa flutuar durante um período de grave crise económica. E a análise empírica mostrou que, em Portugal, só se verifica uma diminuição sustentada da taxa de desemprego quando o crescimento do PIB ultrapassa os 2%, o que ainda não se verificou, nem se prevê que se venha a verificar a curto prazo como consequência da política de obsessão do défice.

 

A RECEITA PERDIDA COM BENEFÍCIOS FISCAIS NUNCA AUMENTOU TANTO COMO EM 2007

 

O governo afirma que em 2007 serão tomadas medidas para que a banca pague mais IRC. No entanto, a receita fiscal perdida devido aos benefícios fiscais que vai conceder nunca cresceu tanto como sucederá em 2007, como mostram os dados do quadro seguinte:

 

QUADRO III – Evolução da receita fiscal perdida pelo Estado

devido aos benefícios fiscais concedidos no período 2004-2007

IMPOSTOS

2004

2005

2006

2007

VARIAÇÃO EM %

Milhões €

Milhões €

Milhões €

Milhões €

2004-05

2005-06

2006-07

IRS

569,4

563,3

211,6

386,3

–1,1%

–62,4%

82,6%

IRC