Informação Alternativa

Portugal

10/08/2006

 

O baixo nível de escolaridade e de qualificação em Portugal, que

é uma causa estrutural do atraso do país, não melhorou em 2005

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

No 1º Trimestre de 2006, segundo o INE, 76% da população total portuguesa, 71% da população empregada, e 73% dos desempregados tinham apenas o ensino básico ou menos.

 

Em 2005, a percentagem da população portuguesa com idade compreendida entre os 25 e os 64 anos que participou em acções de formação foi apenas 4,6%, ou seja, 2,4 vezes inferior à média comunitária, que atingiu, no mesmo ano, 11%.

 

Também em 2005, a percentagem de população com idade compreendida entre os 25 e os 64 anos que completou, pelo menos, o ensino secundário, foi em Portugal de apenas 26,3%, quando a média comunitária (UE25) atingiu 68,3%, ou seja, 2,6 vezes mais. A diferença entre Portugal e os 10 novos países que aderiram à U.E. em 2004 é ainda maior, já que a percentagem da população desses países que completou, pelo menos, o secundário em 2005, variou entre 89,9% (república Checa) e 72,8% (Roménia). Ao ritmo dos últimos 9 anos, Portugal precisava de 89 anos para alcançar a média comunitária actual (68,9%).

 

O abandono escolar prematuro da população com idade entre os 18 e os 24 anos continua a ser em Portugal muito superior à média comunitária. Assim, em 2005, o abandono escolar atingiu no nosso País 38,6%, quando a média comunitária, no mesmo ano, foi de 15,2%, ou seja, 2,5 vezes menos, sendo em Portugal muito maior na população masculina (46,7%) do que na feminina (30,1%). A diferença entre Portugal e os 10 novos países que aderiram à U.E. em 2004 é ainda maior, já que a percentagem de abandono escolar nesses países variou, no ano de 2005, entre 4,3% (Eslovénia) e 20,8% (Roménia). Ao ritmo dos 9 últimos anos, Portugal precisaria de 140 anos para alcançar a média comunitária actual (15,2%).

 

Em Portugal, a despesa por aluno em 2003 no ensino básico correspondeu a 83,3% da média comunitária; no ensino secundário a 88,7%: e no ensino superior apenas a 55,2% da média comunitária. Em Portugal, contrariamente ao que sucede na generalidade dos países da União Europeia, a despesa por aluno do secundário (5.085,9 euros) é superior à despesa por aluno do ensino superior (4.449,5 euros).

 

Como os dados oficiais mostram, a situação da educação e da qualificação profissional em Portugal não melhorou em 2005. Mas o governo agrava o conflito com os professores provocando a instabilidade, contribuindo assim para os fracos resultados alcançados. É preciso recordar mais uma vez: O País não tem condições para suportar por mais tempo a situação em que se encontra a educação e a qualificação profissional, nem para mais experiências.

 

Os últimos dados publicados quer pelo Instituto Nacional de Estatística quer pelo Eurostat revelam que a situação no campo da escolaridade e da qualificação não melhorou em Portugal no ano de 2005, constituindo um dos obstáculos estruturais mais importantes que impedem que o país saia do estado de atraso e de crise. Mesmo medidas muito mediatizadas, como foram o Plano Tecnológico, Novas Oportunidades, o acordo com a Microsoft, etc., estão a ter resultados reduzidos, sendo muito delas meramente formais e a nível mediático.

 

NO 1º TRIMESTRE DE 2006, AINDA 71% DA POPULAÇÃO EMPREGADA PORTUGUESA TINHA APENAS O ENSINO BÁSICO OU MENOS

 

O quadro I foi construído com os últimos dados divulgados pelo INE, referem-se já ao ano de 2006, e permitem ficar a conhecer a repartição, por níveis de escolaridade, da população quer total quer empregada quer desempregada no 1º trimestre de 2006 em Portugal.

 

QUADRO I – Repartição da população portuguesa por níveis de escolaridade no 1ºT2006

 

NÍVEL DE ESCOLARIDADE

POPULAÇÃO POR NÍVEIS DE ESCOLARIDADE – 1ºT2006 – Mil

População total

População empregada

População desempregada

Total

%

Total

%

Total

%

Ensino básico ou menos

6.803,5

76,2%

3.654,5

71,3%

313,8

73,0%

Secundário e pós­‑secundário

1.242,7

13,9%

762,2

14,9%

73,6

17,1%

Superior

883,5

9,9%

710,2

13,9%

42,3

9,8%

TOTAL

8.929,7

100,0%

5.126,9

100,0%

429,7

100,0%

Fonte: Estatísticas do Emprego – 1º Trimestre de 2006 – INE

 

No 1º Trimestre de 2006, em Portugal, ainda 76,2% da população total, 71,3% da população empregada e 73% da população desempregado tinha o ensino básico ou menos. No ensino secundário completo, que é o nível mínimo indispensável para que o país possa passar de uma economia baseado em trabalho pouco qualificado e de baixos salários para uma economia assente em trabalho qualificado e de salários elevados, a percentagem daqueles que possuíam este nível de escolaridade era, em 2006, apenas de 13,9%, 14,9% e 17,1% respectivamente.

 

APENAS 4,6% DA POPULAÇÃO PORTUGUESA ADULTA PARTICIPOU EM ACÇÕES DE FORMAÇÃO/EDUCAÇÃO EM 2005, OU SEJA, MENOS DE METADE DA MÉDIA DA UE25

 

Uma forma de compensar o baixo nível de escolaridade seria investir fortemente na qualificação profissional da população empregada. No entanto, como mostra o quadro II, construído com dados publicados pelo Eurostat, em 2005, a percentagem da população activa que participou em acções de qualificação profissional continua a ser extremamente baixa em Portugal.

 

QUADRO II – Percentagem da população adulta com idade entre os

25 e os 64 anos que participou em acções de formação ou educação

PAÍSES

% da população 25-64 anos que participou em formação

1996

2001

2004

2005

UE25

 

7,8%

10,3%

11,0%

UE15

5,7%

8,3%

11,1%

12,1%

PORTUGAL

3,4%

3,4%

4,8%

4,6%

PORTUGAL – UE25

 

–4,4 pp

–5,5 pp

–6,4 pp

Fonte: Eurostat – 2006; pp: pontos percentuais

 

Apesar do Código do Trabalho estabelecer que, em 2005, todos os trabalhadores por conta de outrém tinham direito a, pelo menos, 25 horas de formação certificada, no entanto, como revelam os dados oficiais do quadro, somente uma reduzida percentagem de trabalhadores – 4,6% – participaram em acções de formação/educação.

 

Por outro lado, e como revelam também os dados do quadro, o fosso que separa, para pior, Portugal da média comunitária, no lugar de se reduzir, até tem aumentado nos últimos anos. Assim, em 2001, a percentagem portuguesa era inferior à média da UE25 em –4,4 pp mas, em 2005, essa diferença já tinha aumentado para –6,4 pp, ou seja, a diferença aumentou mais de 45%.

 

A POPULAÇÃO QUE COMPLETOU O ENSINO SECUNDÁRIO EM 2005 É 2,6 VEZES INFERIOR À MÉDIA COMUNITÁRIA. PORTUGAL PRECISARIA DE 89 ANOS PARA ALCANÇAR A UE25

 

O baixo nível de escolaridade está-se a perpetuar em Portugal, como se conclui do quadro III, construído com dados publicados pelo Eurostat em 2006.

 

QUADRO III – População com idade entre os 25 e os 64 anos

que terminou pelo menos o ensino secundário em cada ano

PAÍSES

% da população 25-64 anos que terminou pelo menos ensino secundário

1996

2001

2004

2005

UE25

 

64,5%

67,9%

68,9%

UE15

55,9%

61,5%

65,0%

66,0%

PORTUGAL

22,0%

20,2%

25,3%

26,3%

PORTUGAL – UE25

 

–44,3 pp

–42,6 pp

–42,6 pp

PORTUGAL – UE15

–33,9 pp

–41,3 pp

–39,7 pp

–39,7 pp

República Checa

 

86,3%

89,0%

89,9%

Estónia

 

86,0%

88,9%

89,1%

Letónia

 

79,1%

84,0%

83,6%

Lituânia

 

84,1%

86,7%

87,1%

Hungria

 

69,9%

75,1%

76,1%

Polónia

 

80,0%

83,4%

84,6%

Eslovénia

 

74,8%

79,3%

80,5%

Eslováquia

 

83,6%

86,6%

87,6%

Roménia

 

70,5%

71,2%

72,8%

Fonte: Eurostat – 2006; pp: pontos percentuais

 

Como mostram os dados do quadro, a diferença entre Portugal e a média da UE15 e da UE25 é muito grande (a percentagem em Portugal em relação à média da UE25 é inferior em 2,6 vezes).

 

Ao ritmo verificado entre 1996 e 2005 (entre 1996 e 2005, o aumento foi apenas de 0,477 pp ao ano), Portugal precisaria de 89 anos para alcançar a média comunitária actual (68,9%).

 

Mas se comparamos a situação portuguesa, neste campo fundamental para o desenvolvimento, com a situação dos novos países que aderiram à União Europeia em 2004, a conclusão que se tira é dramática. Mesmo na Roménia, que é o país menos desenvolvido, a percentagem da população que terminou pelo menos o ensino secundário em 2005 é 2,8 superior à portuguesa.

 

Esta é uma das causas estruturais da baixa competitividade da Economia e das empresas portuguesas que urge alterar rapidamente. E não se verificou qualquer melhoria em 2005, como revelam os dados do Eurostat, apesar da campanha mediática do governo neste campo como em outros.

 

O ABANDONO ESCOLAR EM PORTUGAL É AINDA 2,5 VEZES SUPERIOR À MÉDIA COMUNITÁRIA. A ESTE RITMO, PORTUGAL PRECISARIA DE 140 ANOS PARA ALCANÇAR A UE25

 

A agravar a situação no campo da educação, e a tornar mais difícil a recuperação que é urgente, está a continuação do elevado e prematuro abandono escolar da população com idade entre os 18 e 24 anos, que continua a ser mais do dobro da média comunitária, como os dados do quadro IV mostram.

 

QUADRO IV – Percentagem da População com idade entre

18 e 24 anos que abandona prematuramente a escola

PAÍSES

População 18-24 anos que abandonou prematuramente a escola

1996

2001

2004

2005

UE25 – Total

 

17,0%

15,6%

15,2%

UE15 – Total

21,6%

19,0%

17,7%

17,2%

PORTUGAL – Total

40,1%

44,0%

39,4%

38,6%

PORTUGAL – Sexo masculino

45,6%

51,2%

47,9%

46,7%

PORTUGAL – Sexo feminino

34,4%

36,7%

30,6%

30,1%

PORTUGAL – UE15

+18,5 pp

+25,0 pp

+21,7 pp

21,4%

PORTUGAL – UE25

 

+27 pp

+23,8 pp

+23,4 pp

República Checa – Total

 

 

6,1%

6,4%

Estónia – Total

 

4,1%

13,7%

14,0%

Letónia – Total

 

 

15,6%

11,9%

Lituânia – Total

 

13,7%

9,5%

9,2%

Hungria – Total

 

12,9%

12,6%

12,3%

Polónia – Total

 

7,9%

5,7%

5,5%

Eslovénia – Total

 

7,5%

4,2%

4,3%

Eslováquia – Total

 

 

7,1%

5,8%

Roménia – Total