Informação Alternativa

Portugal

02/07/2006

 

Portugal: um país em crise e cada vez mais endividado, mas os lucros da

banca cresceram 71,5% em 2005, certamente o maior aumento na UE

 

Eugénio Rosa *

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Em 2005, o endividamento das famílias e das empresas não financeiras portuguesas aumentou significativamente, o que determinou que os níveis de endividamento no nosso País sejam muito mais elevados do que os verificados na generalidade dos países da União Europeia, facto esse associado a lucros insólitos obtidos pela banca.

 

Assim, de acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira – 2005 do Banco de Portugal, entre 2004 e em 2005, o nível de endividamento das famílias portuguesas aumentou de 78% para 84,2% do PIB, quando a média dos países da área do euro, a que Portugal também pertence, era em 2005 apenas de 55% do PIB. E o nível de endividamento das empresas não financeiras portuguesas cresceu, entre 2004 e em 2005, de 97% para 100% do PIB quando, em 2004, a média nos países da área do euro, correspondia apenas a 65,9% do PIB.

 

Assim, enquanto as famílias e as empresas portuguesas enfrentam um estrangulamento financeiro crescente devido ao aumento do endividamento, a banca portuguesa nunca teve lucros tão elevados. Entre 2004 e 2005, os lucros líquidos da banca passaram de 1.284 milhões de euros para 2.202 milhões de euros, ou seja, aumentaram 71,5%. Estes elevadíssimos lucros são conseguidos também à custa do pagamento de reduzidos impostos ao Estado e da redução das despesas com os trabalhadores. Assim, em 2005, os impostos sobre rendimento pagos pela banca representaram apenas 13,5% dos seus lucros antes dos impostos quando a taxa legal de IRC é de 25%. Se a banca, no lugar de ter pago taxas como esta, tivesse pago a taxa legal de IRC (25%), ou seja, a taxa que qualquer PME é obrigada a pagar, o Estado teria arrecadado em dois anos – 2004 e 2005 – mais 553,75 milhões de euros do que recebeu, o que aplicado num Fundo contribuiria para garantir a sustentabilidade da Segurança Social a longo prazo. Os elevados lucros obtidos pela banca também foram à custa dos seus trabalhadores pois, entre 2004 e 2005, os custos de pessoal na banca «diminuíram 10%» (pág. 38), o que determinou que baixassem de 40,8% para 36,2% do VAB.

 

De acordo com o próprio Banco de Portugal, o crescente endividamento das famílias determinado pela política comercial agressiva da banca, com o objectivo de aumentar os lucros, está a promover «níveis de despesa que se poderão revelar não sustentáveis». E o aumento do endividamento das empresas não é determinado pelo crescimento do investimento pois, como consta do próprio Relatório do Banco de Portugal, «o financiamento do investimento […] terá, em 2005, induzido uma retracção da procura de empréstimos, em contraste com o observado na área do euro». Este endividamento interno tem sido acompanhado por um crescimento muito elevado da dívida do País ao estrangeiro, tendo atingido, em 2005, 95 mil milhões de euros, e cabendo à banca 60% deste total.

 

É evidente o carácter parasitário da banca portuguesa que, por um lado, incentiva o endividamento das famílias com o objectivo de multiplicar os lucros a qualquer preço e, por outro lado, não revela qualquer interesse em apoiar o investimento produtivo e em bens transaccionáveis porque o risco é maior e, para fazer isso, endivida-se muito ao estrangeiro. Desta forma, a política de crédito seguida pela banca em Portugal torna ainda mais difícil a saída da profunda e grave crise económica e social que o País enfrenta actualmente, o que é agravado pela política do governo centrada na obsessão do défice. O próprio Banco de Portugal reconhece no seu Relatório esse facto, pela primeira vez, ao escrever o seguinte: «A necessidade de prosseguir a consolidação orçamental aponta para que continue a observar-se uma divergência entre o crescimento da economia portuguesa e o conjunto da área do euro» (pág. 30 do Relatório). Tardiamente, o próprio Vítor Constâncio veio afirmar o mesmo que sempre tínhamos dito, mas que ele antes sempre negara. Na intervenção que fez num almoço organizado pela Câmara de Comércio Luso-Espanhola disse o seguinte (Diário de Notícias, Economia, 30.6.2006): «Em 2006, o esforço de consolidação orçamental vai retirar 0,6 pontos percentuais à taxa de crescimento do PIB» (este valor parece estar claramente subestimado). E «Portugal viu­‑se forçado a reduzir fortemente o investimento público». O que Vítor Constâncio ainda não reconheceu são as consequências graves no futuro de se ter “reduzido fortemente o investimento público”, o que, por arrastamento, tem contribuído para uma redução muito grande do investimento privado desde 2001.

 

O Banco de Portugal acabou de publicar o seu relatório sobre o sector bancário, com o título Relatório de Estabilidade Financeira – 2005. Os dados desse relatório revelam, por um lado, um crescente endividamento das famílias e das empresas portuguesas e, por outro lado, um aumento muito grande, mesmo escandaloso, dos lucros do sector bancário. Esse endividamento provocado também pela política comercial agressiva da banca, que procura assim multiplicar os seus lucros a qualquer preço, torna ainda mais difícil a recuperação da Economia Portuguesa.

 

O ENDIVIDAMENTO DAS FAMILIAS PORTUGUESAS É MUITO SUPERIOR À MÉDIA COMUNITÁRIA

 

Em 2005, segundo o Banco de Portugal, «assistiu-se a uma nova diminuição da taxa de poupança dos particulares», mas «o consumo privado manteve uma taxa de variação superior à do rendimento disponível» (pág. 88 do Relatório). E isso só foi possível devido ao aumento do endividamento das famílias que resultou de uma política comercial agressiva dos bancos que criaram novas modalidades de crédito para iludir e adiar temporariamente as dificuldades das famílias (ex.: produtos com períodos de carência mais longos em que não se pagam juros, os quais são adicionados ao capital em dívida; pagamento no início do empréstimo de apenas uma parcela dos juros; prolongamento do período de amortização da dívida que, em certos casos, ultrapassa a vida activa média do trabalhador, etc.). Como consequência, o endividamento dos particulares aumentou, entre 2004 e 2005, de 78% para 84% do PIB (em percentagem do Rendimento Disponível cresceu de 110% para 117%), que é um dos mais elevados da União Europeia, como mostram os dados do quadro I, retirado do Relatório do Banco de Portugal.

 

QUADRO I – Endividamento das famílias nos países

da União Europeia em percentagem do PIB

 

Exceptuando o caso da Holanda, o nível de endividamento dos particulares em Portugal em 2005, que atingiu 84,2% do PIB, é muito superior ao dos países que constam do quadro anterior, e é muito mais elevado do que a média da Área do Euro (55%), a que Portugal também pertence.

 

Portanto, em Portugal, por um lado, o endividamento das famílias está a crescer continuamente a um ritmo que não tem qualquer correspondência a nível do aumento das poupanças, criando assim uma situação que poderá ser insustentável para muitos milhares de famílias num futuro próximo, devido ao previsível aumento das taxas de juro e, por outro lado, é precisamente esse elevadíssimo endividamento, consequência de uma política comercial agressiva da banca, que permite ao sector bancário alcançar elevadíssimos lucros, como se mostrará. Finalmente, este endividamento muito superior à média da área do euro só acrescenta mais dificuldades e obstáculos à saída da crise, na medida que poderá determinar que o mercado interno possa contribuir, como sucedeu em crises passadas, para a dinamização da procura interna e, consequentemente, para a recuperação sustentada da Economia Portuguesa.

 

ENDIVIDAMENTO DAS EMPRESAS EM PORTUGAL É MUITO SUPERIOR À MÉDIA COMUNITÁRIA

 

Em 2005, tal como aconteceu com os particulares, o crescimento do endividamento das empresas não financeiras em Portugal também atingiu um nível muito elevado, como mostram os dados do quadro seguinte retirado igualmente do Relatório do Banco de Portugal.

 

QUADRO II – Endividamento das empresas nos países

da União Europeia em percentagem do PIB

 

Em 2005, o endividamento das empresas não financeiras em Portugal atingiu um valor correspondente a 94,1% do PIB, enquanto a média nos países da “Área do Euro” rondava os 65,9%, ou seja, era inferior ao valor verificado no nosso País em quase um terço.

 

LUCROS LÍQUIDOS DA BANCA AUMENTAM 71,5% EM 2005, MAS A TAXA EFECTIVA DE IRC PAGA PELA BANCA FOI APENAS 13,5%, POUCO MAIS DE METADE DA TAXA LEGAL

 

Enquanto as famílias e as empresas não financeiras portuguesas enfrentam um crescente estrangulamento financeiro devido ao aumento do endividamento, a banca viu aumentar os seus lucros para níveis que, no mínimo, se podem considerar insólitos. Por outro lado, a taxa efectiva de imposto paga pela banca sobre esses lucros continuou a ser escandalosamente baixa, ou seja, apenas pouco mais de metade da taxa legal de IRC (25%), que é a taxa paga pela esmagadora maioria das pequenas e médias empresas portuguesas, quando não mesmo têm de pagar mais, devido ao pagamento do imposto por conta que, muitas delas, com matéria colectável insuficiente, não conseguem depois reaver devido a uma disposição absurda da lei fiscal que impossibilita, na prática, o reembolso do imposto pago a mais.

 

Mas observe-se o quadro III, construído também com dados do Relatório do Banco de Portugal (pág. 35), que mostra o valor do VAB, dos lucros, dos impostos e das despesas com pessoal da banca em 2004 e 2005.

 

QUADRO III – VAB, Lucros, Impostos e Despesas com Pessoal da Banca em 2004 e 2005

 

ANOS

Milhões de Euros

% que os Impostos

represen-tam dos

Lucros

% que repre-sentam do VAB

VAB

Bancário

Lucros

antes Impostos

Impostos

sobre Lucros

Custos

com Pessoal

Os Lucros

Os Custos

de Pessoal

2004

6.644

1.748

228

2.712

13,0%

26,3%

40,8%

2005

7.662

2.987

402

2.771

13,5%

39,0%

36,2%

TOTAL

14.306

4.735

630

5.483

13,3%

33,1%

38,3%

FONTE: Relatório de Estabilidade Financeira – 2005, Banco de Portugal

 

Entre 2004 e 2005, os lucros da banca antes dos impostos (inclui 13 grupos bancários que representam 87% do sistema bancário), passaram de 1.748 milhões de euros para 2.987 milhões de euros, ou seja, registaram um aumento de 70,9% (se considerar os lucros líquidos, o aumento foi de 71,5%), que deve ser, em termos percentuais, o maior crescimento verificado em toda a União Europeia e mesmo nos EUA.

 

Os impostos sobre os lucros pagos pela banca corresponderam, em 2004, apenas a 13% desses lucros e, em 2005, somente a 13,5%, quando a taxa legal de IRC que deve ser paga por qualquer empresa em Portugal é de 25%. Para se ficar com uma ideia da perda de receita para o Estado, devido aos benefícios fiscais de que goza a banca em Portugal, basta dizer o seguinte: se a banca tivesse pago o que qualquer empresa deve pagar em Portugal – o correspondente a 25% dos lucros – o Estado teria arrecado em dois anos apenas – 2004 e 2005 – mais 553,75 milhões de euros de receita do que recebeu. Seria uma receita que, acumulada num Fundo de Solidariedade, contribuiria para garantir a sustentabilidade da Segurança Social a longo prazo e evitaria os sacrifícios que neste momento o governo pretende exigir apenas aos trabalhadores.

 

Os dados do quadro III também permitem tirar uma outra conclusão importante. Se compararmos os lucros e os custos do pessoal com a chamada riqueza criada pela banca que é medida pelo VAB (verdadeiramente a banca não cria riqueza, mas apropria-se da riqueza criada pelos sectores produtivos) conclui-se o seguinte: Entre 2004 e 2005, a percentagem que os Lucros representam do VAB aumentou de 26,3% para 39%, enquanto os “Custos com Pessoal, ajustados dos custos relativos a pensões de reforma e outros benefícios pós­‑emprego”, ou seja, as despesas com os trabalhadores do activo, diminuíram de 40,8% para apenas 36,2% do Valor Acrescentado Bruto. Portanto, os lucros da banca têm sido conseguidos também à custa de reformas antecipadas, muitas delas forçadas, de despedimentos de trabalhadores, e do aumento da exploração dos trabalhadores activos, nomeadamente através de aumentos reduzidos de salários e do não pagamento de horas extraordinárias.

 

ENDIVIDAMENTO DAS FAMILIAS E DAS EMPRESAS, E LUCROS INSÓLITOS OBTIDOS PELA BANCA: UM SÉRIO OBSTÁCULO À RECUPERAÇÃO ECONÓMICA DO PAÍS

 

O elevado endividamento das famílias e das empresas não financeiras portuguesas, constitui também um obstáculo à recuperação económica do País. E isto porque a recuperação económica é só possível com a contribuição conjunta do mercado interno e das exportações. Actualmente ainda se tem mantido artificialmente uma fraca procura interna através do aumento do endividamento, mas à medida que as taxas de juro aumentem e que a capacidade de endividamento das famílias atinjam níveis insustentáveis, então a quebra na procura será abrupta e a crise mais profunda. E tudo isto é mais grave porque tem sido alimentado artificialmente pelo carácter parasitário da banca portuguesa que revela pouco interesse em apoiar o investimento produtivo e nos chamados bens transaccionáveis, como afirma o próprio Banco de Portugal. Este endividamento interno tem sido acompanhado por um aumento significativo do endividamento do País ao exterior. Em 2005, a dívida de Portugal ao estrangeiro atingiu 95 mil milhões de euros, sendo 60% desta dívida da banca. Esta dívida está já a custar a Portugal anualmente, em juros e amortizações, cerca de 3,5% do PIB, e a tendência é para aumentar cada vez mais.

 

No seu Relatório, o Banco de Portugal escreveu o seguinte: «As características dos novos produtos», promovidos pela banca para aumentar os seus lucros numa situação de grande concorrência entre os bancos, «contemplam nomeadamente a possibilidade de reconversão de passivos a curto prazo sem garantia real em passivos de médio/longo prazo com garantia real, a existência de períodos de carência de capital nos primeiros anos dos empréstimos, a adopção de prazos de amortização variáveis, a possibilidade do pagamento de uma importante parcela do empréstimo no final do contrato», estão a promover «níveis de despesa que se poderão revelar não sustentáveis», estando estas práticas «a contribuir para criar um trade-off entre a expansão do endividamento do sector e da procura interna no presente e futuro» (pág. 95). E em relação ao crescente endividamento das empresas não financeiras, o Banco de Portugal no seu Relatório também diz o seguinte: «A procura de empréstimos bancários» tem sido para o «financiamento de existências e de fundo de maneio e processos de reestruturação da dívida. O financiamento do investimento […] terá, em 2005, induzido uma retracção da procura de empréstimos, em contraste com o observado na área do euro» (pág. 99). Portanto, contrariamente ao que está a suceder nos países da área de Portugal, as empresas não financeiras portuguesas estão-se a endividar perante a banca não para investir e se modernizar, mas sim para resolver problemas financeiros, o que é mais um obstáculo à recuperação da Economia Portuguesa que a política económica do governo centrada na obsessão do défice só agrava, como é obrigado a reconhecer o Banco de Portugal.

 

______

* Economista. Publicou recentemente, na Editorial Caminho, Uma nova política económica ao serviço das pessoas e de Portugal, «uma alternativa ao pensamento neoliberal dominante nos media e a nível oficial e mesmo académico».