Informação Alternativa

Portugal

14/05/2006

 

Sócrates falta à verdade quando afirma que não foram apresentadas

alternativas às suas propostas para a Segurança Social

– As propostas de Sócrates para a Segurança Social – Parte III –

 

Eugénio Rosa

 

Com uma arrogância e autismo crescente, o 1º ministro Sócrates afirmou que as oposições não tinham alternativas às suas “propostas para uma reforma estrutural da Segurança Social”. Tal afirmação não corresponde à verdade. Para concluir isso, basta recordar o Projecto de Lei n.º 156/X, publicado na Separata 30/X do Diário da Assembleia da República, com o título “Diversificação das Fontes – A nova forma de contribuição para a Segurança Social, com base no Valor Acrescentado Bruto” apresentado pelo PCP em Outubro de 2005 na Assembleia da República que o grupo parlamentar do PS rejeitou, sem permitir qualquer discussão, por indicação do governo.

 

As propostas apresentadas pelo 1º ministro, pelo menos as mais graves, não são originais. O governo limitou­‑se a copiá-las, apressadamente e sem estudar as suas consequências, do Relatório Económico sobre Portugal da OCDE de 2006. Na pág. 55 deste relatório, no capítulo com o título “Fazendo face à pressão do envelhecimento da população”, pode-se ler o seguinte: Mudanças mais radicais devem ser encaradas, tais como: (1) A diminuição da taxa de substituição (o que significa redução das pensões de reforma); (2) E/ou aumento da idade de reforma decorrente da subida da esperança de vida; (3) Para além disso, afirma a OCDE, algumas distorções devem ser corrigidas como a de um trabalhador ter direito a um valor mínimo de pensão, pois isso desincentiva o trabalhador a trabalhar mais de 30 anos. Portanto, como muitas vezes tem acontecido infelizmente para Portugal, a ânsia de “ser bom aluno”, de cumprir as recomendações de organismos estrangeiros, pouco conhecedores das realidades concretas nacionais, levou o actual governo a apresentar as suas “propostas para uma reforma estrutural da Segurança Social” que não exigem nenhum esforço financeiro às empresas nem tocam nos lucros escandalosos dos grandes grupos económicos.

 

A PROPOSTA DO GOVERNO NÃO GARANTE A SUSTENTABILIDADE A LONGO PRAZO DA SEGURANÇA SOCIAL COM PENSÕES DIGNAS

 

As propostas apresentadas por Sócrates, para além de revelarem uma profunda insensibilidade social, pois poupam os patrões de qualquer esforço financeiro, sobrecarregando mais uma vez, sempre, e só os trabalhadores, não responde tecnicamente a um problema grave que enfrenta actualmente a Segurança Social. E esse problema é uma consequência da redução percentual da base de cálculo das contribuições das empresas para a Segurança Social, que resulta das contribuições continuarem a ser calculadas com base apenas nas remunerações, tal como sucedia há cerca de 50 anos quando o sistema foi criado. E dessa data até ao presente o mundo e as empresas mudaram profundamente, facto esse que não é entendido pelo actual governo. Para que se possa compreender rapidamente o problema que a Segurança Social enfrenta a médio a longo prazo, observe­‑se o quadro I construído com dados publicados pelo Banco de Portugal.

 

QUADRO I – Evolução da riqueza produzida pelos trabalhadores que fica para a

empresa e que está isenta do pagamento de contribuições para a Segurança Social

ANOS

EUROS POR EMPREGADO

PIB a preços mercado

Remuneração

Anual

Diferença entre o PIB por empregado e a remuneração paga

(Riqueza criada anualmente por cada trabalhador em euros)

(Parcela sujeita a contribuições e quotizações em euros)

(Parcela da riqueza criada pela empresa que está isenta, ou seja, que não entra no cálculo das contribuições para a Segurança Social em euros)

1953

94

43

51

1973

450

213

237

1974

535

281

254

1975

641

378

263

1987

6.898

2.450

4.448

1995

18.023

6.306

11.718

1996

18.628

7.067

11.561

1998

20.740

7.775

12.965

2002

25.210

9.836

15.374

2004

26.332

10.518

15.815

N.º de vezes que o valor isento em 2004 é superior ao de 1953

300 vezes

 

Cada trabalhador produz um determinado valor anual de riqueza – o chamado PIB por empregado – em que uma parte reverte para ele sob a forma da remuneração que recebe e a outra parcela fica directamente para a empresa. Como as contribuições das empresas são calculadas apenas com base nas remunerações, tudo aquilo que não são remunerações, apesar de reverter para a empresa, não entra para a base de cálculo das contribuições das empresas para a Segurança Social. E, como mostram os dados do quadro I, a parcela da riqueza que está excluída do pagamento de contribuições para a Segurança Social correspondia, em 1953, a 51 euros por trabalhador mas, em 2004, já correspondia a 15.815 euros, ou seja, 310 vezes mais do que em 1953. As dificuldades que a Segurança Social poderá enfrentar a médio e longo prazo resultam fundamentalmente disso, ou seja, de uma parcela importante e crescente da riqueza criada em cada empresa por cada trabalhador não estar sujeita à chamada Taxa Social Única, ou seja, não contribuir para a Segurança Social. E nenhuma das propostas apresentadas por Sócrates aborda e resolve esta questão. E a razão é clara: é que este governo não quer mexer nos lucros escandalosos obtidos pelas grandes empresas e grupos económicos.

 

UMA GRANDE DESIGUALDADE ENTRE AS EMPRESAS DETERMINADA PELO SISTEMA DE CÁLCULO DAS CONTRIBUIÇÕES QUE O GOVERNO PRETENDE MANTER

 

Para além do problema referido, que põe em causa a médio e a longo prazo a sustentabilidade da Segurança Social, o actual sistema de cálculo das contribuições das empresas com base apenas nas remunerações cria também grandes desigualdades entre as empresas, quando se mede o valor dessas contribuições utilizando a percentagem que representam da riqueza criada por cada uma delas, como mostram os dados do Banco de Portugal constantes do quadro II que se apresenta seguidamente.

 

QUADRO I – Percentagem que as contribuições das empresas para a Segurança

Social representam em relação à riqueza criada pelas “empresas médias” em 2004

SUBSECTOR

VAB

Mil euros

Custos Pessoal

s/Contribuições para a S. Social – 1000€

Contribuições

para a Seg. Social em

Mil euros

Contribuições

para Seg. Social em % do VAB

N.º médio

Trabalha-dores

Activo Líquido por

Trabalhador – 1000€

AGRICULTURA, PROD. ANIMAL E SILVICULTURA

378,5

180,2

42,8

11,3%

18

178,8

PESCA

766,9

564,0

134,0

17,5%

36

104,8

VITICULTURA

243,7

152,0

36,1

14,8%

21

128,1

INDÚSTRIAS EXTRACTIVAS

915,0

403,2

95,8

10,5%

28

129,5

INDÚSTIAS TRANSFORMADORAS – PME

928,2

476,8

113,2

12,2%

39

88,9

INDÚSTRAIS TRANSFORMADORAS – Outras emp.

22.939,6

9.310,2

2.211,2

9,6%

500

167,7

Ind. Madeira e cortiça – PME

675,0

346,6

82,3

12,2%

31

112,4

Ind. Madeira e cortiça – Outras empresas

18.018,2

7.382,7

1.753,4

9,7%

477

191,6

Industria Cortiça – PME

1.129,0

574,8

136,5

12,1%

46

145,3

Industria Cortiça – Outras empresas

17.803,9

8.336,6

1.980,0

11,1%

524

158,3

Fabrico Medicamentos – PME

5.205,2

2.415,2

573,6

11,0%

99

136,6

Fabrico Medicamentos – Outras empresas

24.044,1

8.978,6

2.132,4

8,9%

188

273,4

Fabricação vidro e artigos – PME

681,3

359,5

85,4

12,5%

30

64,3

Fabricação vidro e artigos – Outras empresas

22.258,3

7.932,5

1.884,0

8,5%

363

206,3

Fabrico outros prod. metálicos – PME

1.132,3

607,4

144,2

12,7%

43

75,7

Fab. outros prod. metálicos – Outras emp.

17.933,3

8.342,0

1.981,2

11,0%

456

104,0

Fabrico Maquinas e Equipamentos – PME

935,4

543,0

129,0

13,8%

35

80,5

Fabrico Maquinas e Equipamentos – Outras emp.

17.933,3

8.342,0

1.981,2

11,0%

456

104,0

Indústrias metalúrgicas base – PME

1.931,8

756,3

179,6

9,3%

58

133,9

Indústrias metalúrgicas base –Outras

21.377,8

6.147,0

1.459,9

6,8%

316

252,1

Telecomunicações – PME

1.477,9

909,3

216,0

14,6%

26

240,0

Telecomunicações – Outras empresas

360.433,4

66.927,0

15.895,2

4,4%

1.699

760,9

Fabricação Material Transporte- PME

1.024,1

534,7

127,0

12,4%

41

68,6

Fabricação Material Transportes – Outras empresas

25.013,7

13.209,1

3.137,2

12,5%

733

120,6

Fabricação de cimento, cal e gesso – PME

3.559,1

852,2

202,4

5,7%

40

203,6

Fabricação de cimento, cal e gesso – Outras empresas

104.112,2

19.098,7

4.535,9

4,4%

478

998,5

BANCA (toda) – Milhões de euros

8.087,0

2.444,4

580,6

7,2%

51.523

 

FONTE: Para os subsectores: Central de Balanços do Banco de Portugal;

para a “Banca”: Relatório de Estabilidade Financeira – Banco de Portugal

 

Com excepção dos valores da Banca que são também do Banco de Portugal, os valores anteriores foram obtidos na “Central de Balanços” do Banco de Portugal, e são valores de empresas médias, ou seja, valores médios do agregado de cada subsector, a maioria deles repartidos ainda em dois grupos: (1) Grupo constituído por Pequenas e Média Empresas (PME); (2) Grupo constituído pelas “Outras Empresas”, que são as maiores empresas do subsector analisado.

 

E na “Central de Balanços” do Banco de Portugal obteve­‑se directamente, em relação ao ano de 2004, os dados do VAB, ou seja, da riqueza criada; os “Custos de Pessoal”; o número de trabalhadores; e o valor do “Activo Liquido”. E tudo isto relativamente à empresa média do subsector e, dentro de cada um destes, a empresa média de cada grupo.

 

É certo que os “Custos de Pessoal” inclui mais despesas que não são remunerações, como são os subsídios de alimentação, várias despesas dos administradores, que não entram actualmente no cálculo das contribuições das empresas para a Segurança Social. No entanto, os valores dos “Custos de Pessoal”, que são os úni