Informação Alternativa

Portugal

04/03/2006

 

As desigualdades com base no género persistem em Portugal

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Em Portugal, o nível médio de escolaridade das mulheres é superior ao dos homens e está a crescer a um ritmo mais elevado, o que aumenta o fosso, neste campo, entre homens e mulheres.

 

Assim, em 2005, a percentagem de mulheres, com idade compreendida entre os 20 e 24 anos, com o ensino secundário completo atingia 56,6%, enquanto a percentagem de homens, com a mesma idade e com o mesmo nível de ensino, era apenas de 40,4%. Em 2005, o abandono escolar de mulheres, com idade compreendida entre os 18 e 24, atingia 30,1%, mas a dos homens, com a mesma idade, alcançava 46,7%. No ano lectivo 2003/2004, cerca de 65,9% dos diplomados do ensino superior eram mulheres.

 

Entre 1994 e 2005, a percentagem de mulheres com ensino secundário completo, e com idade compreendida entre os 20 e 24 anos, aumentou 9 pontos percentuais, enquanto em relação aos homens cresceu apenas 5,5 pontos percentuais. Entre 1994 e 2005, o abandono escolar diminuiu nas mulheres 9,1 pontos percentuais, enquanto nos homens baixou apenas 2,7 pontos percentuais. Entre 1996 e 2004, a percentagem que as mulheres representam no total de diplomados das universidades portuguesas aumentou de 63,8% para 65,9%. Entre 1997 e 2004, o número de diplomados homens cresceu apenas em 7.956, pois passou de 15.492 para 23.220, enquanto o das mulheres aumentou em 17.916, pois passou de 27.304 para 45.220. As diferenças são significativas e têm consequências na sociedade e na economia portuguesa.

 

Apesar quer do nível de escolaridade quer do ritmo de aumento deste ser mais elevado nas mulheres do que nos homens, as mulheres continuam a ocupar na sociedade portuguesa um lugar não correspondente, e a ser objecto de múltiplas desigualdades.

 

Assim, a nível de profissões, embora em 2005 as mulheres representassem 46,7% de toda a população empregada, com excepção do grupo “Especialistas das profissões intelectuais e científicas” onde são maioritárias porque neste grupo o nível de escolaridade é determinante, nas restantes profissões só têm uma posição dominante nas consideradas de qualificação mais baixa e pior remuneradas, a saber: “Pessoal administrativo” (64,1%); “Pessoal dos serviços e vendedores” (71,6%); “Agricultores e trabalhadores da agricultura e pescas” (50,7%); “Trabalhadores não qualificados” (59,7%). A nível de quadros superiores, em 2005, apenas 36,2% eram mulheres. As mulheres são as mais atingidas quer pelo desemprego quer pela precariedade. Em 2005, a taxa de desemprego oficial nas mulheres era de 9%, enquanto nos homens era de 7%. Entre 2001 e 2005, a percentagem de mulheres em situação de emprego precário aumentou de 22,7% para 33,3%, enquanto a percentagem de homens em idêntica situação subiu de 24,7% para 31,3% do total considerado.

 

Em 2004, segundo o Eurostat, na Indústria e Serviços a remuneração média das mulheres em Portugal representava 78% da dos homens, mas a remuneração média das mulheres declarada para a Segurança Social, no mesmo ano, representava apenas 74,5% da dos homens. Como consequência, em 2004, o subsídio médio de doença recebido pelas mulheres correspondia apenas a 60,1% do subsídio médio de doença recebido pelos homens; e o subsídio de desemprego médio recebido pelas mulheres correspondia apenas a 73,5% do subsídio médio de desemprego recebido pelos homens.

 

Também em 2004, que são os últimos dados oficiais disponíveis, a pensão média de invalidez correspondia a 75% da recebida pelos homens; e a pensão média de velhice recebida pelas mulheres correspondia apenas a 60,9% da pensão media recebida pelos homens. Esta desigualdade não se alterou em 2005 e 2006.

 

As desigualdades continuam a acompanhar as mulheres ao longo de toda a sua vida, incluindo na fase final de vida, em que a pensão média de velhice recebida pelas mulheres, em 2006, deve rondar os 248 euros, portanto um valor inferior ao limiar da pobreza.

 

É necessário tornar visível e combater as desigualdades que continuam a atingir as mulheres em Portugal, até para que o País possa sair do estado de atraso em que se encontra. E mais numa altura em que o neoliberalismo domina a política do governo, associada a uma globalização dominada pelo capital financeiro em que os interesses do País são esquecidos, o que só poderá contribuir para criar e agravar ainda mais as desigualdades.

 

Numa altura em que se comemora mais uma vez o 8 de Março, Dia Mundial da Mulher, interessa analisar como tem evoluído a situação da mulher no contexto da sociedade portuguesa. É o que procuraremos fazer neste estudo utilizando os poucos dados oficiais actualizados disponíveis.

 

A BAIXA ESCOLARIDADE TENDE A PERPETUAR-SE MAIS NOS HOMENS DO QUE NAS MULHERES

 

Um dos problemas estruturais mais graves que o País enfrenta neste momento é o baixo nível de escolaridade da população empregada portuguesa.

 

No 4º Trimestre de 2005, segundo o INE, cerca de 72% da população empregada portuguesa tinha o ensino básico ou menos, quando a média na União Europeia, já em 2002, era de 35,4%, ou seja, menos de metade do que se verificava em Portugal em 2005. Na mesma data, a população empregada em Portugal com o ensino secundário representava apenas 14,6% da população total empregada, quando a média na União Europeia era de 42,9% (2,9 vezes mais do que em Portugal ), e a população com o ensino superior era somente 12,4% da população empregada, quando a média na União Europeia era, já em 2002, de 21,8% (1,7 vezes mais).

 

O baixo nível de escolaridade da população empregada portuguesa constitui uma das causas mais importantes do atraso do País e será muito difícil, para não dizer mesmo impossível, aproximarmo­‑nos de uma forma sustentada dos países mais desenvolvidos da União Europeia sem antes resolver este grave problema nacional.

 

Sendo o nível de escolaridade um dos problemas mais graves que o País enfrenta, vai-se analisar como tem evoluído por género em Portugal. E vai-se começar pelo ensino secundário, que é aquele nível de ensino que se considera necessário que a maioria da população possua para que possa haver um desenvolvimento rápido e sustentado. Os dados oficiais do quadro seguinte permitem fazer essa análise.

 

QUADRO I – percentagem de jovens com idade compreendida entre os

20 e os 24 anos que atingiram um nível de ensino ou formação secundária

 

ANOS

PORTUGAL

(PT)

UNIÃO EUROPEIA 15

(UE15)

DIFERENÇA

(Pontos percentuais)

PORTUGAL-UE15

% H

% M

H-M

% H

% M

H-M

H (PT-U.E.)

M (PT-U.E.)

1994

34,9%

47,6%

–12,7%

 

 

 

 

 

1995

38,3%

52,0%

–13,7%

67,1%

71,2%

–4,1%

–28,8

–19,2

1996

39,9%

52,7%

–12,8%

66,0%

70,2%

–4,2%

–26,1

–17,5

1997

40,4%

53,9%

–13,5%

67,2%

71,9%

–4,7%

–26,8

–18,0

1998

33,8%

44,8%

–11,0%

 

 

 

 

 

1999

33,6%

46,7%

–13,1%

69,6%

75,0%

–5,4%

–36,0

–28,3

2000

34,0%

51,6%

–17,6%

70,4%

76,5%

–6,1%

–36,4

–24,9

2001

34,8%

52,3%

–17,5%

70,2%

76,3%

–6,1%

–35,4

–24,0

2002

35,9%

52,6%

–16,7%

70,7%

76,7%

–6,0%

–34,8

–24,1

2003

40,7%

54,7%

–14,0%

70,9%

76,2%

–5,3%

–30,2

–21,5

2004

39,4%

58,8%

–19,4%

70,6%

76,9%

–6,3%

–31,2

–18,1

2005

40,4%

56,6%

–16,2%

71,6%

77,5%

–5,9%

–31,2

–20,9

FONTE: Eurostat

 

Em 1994, apenas 34,9% dos homens com idade compreendida entre os 20 e os 24 anos tinha o ensino secundário completo e, em 2005, essa percentagem tinha aumentado para 40,4%, portanto em 12 anos subiu apenas 5,5 pontos percentuais.

 

Por outro lado, em 1994, a percentagem de mulheres com idade entre os 20 e os 24 anos que tinha o secundário completo atingia 47,6% da população feminina (mais 12,7 pontos percentuais do que a dos homens) e, em 2005, a percentagem de mulheres com esse nível de ensino tinha aumentado para 56,6%, portanto mais nove pontos percentuais (a diferença neste ano, entre homens e mulheres, aumentou para 16,2 pontos percentuais quando, em 1994, era de 12,7 pontos).

 

Os dados do quadro anterior também revelam um outro problema grave, que é o aumento da divergência de Portugal em relação à média da União Europeia, neste campo fundamental.

 

Assim, em 1995, a percentagem de população masculina com idade compreendida entre os 20 e os 24 anos com o ensino secundário completo era, em Portugal, 28,8 pontos inferior à média da União Europeia e, em 2005, essa diferença tinha aumentado para 31,2 pontos percentuais; em relação à população feminina com a mesma idade, em 1995, a diferença, entre Portugal e a União Europeia, era de menos 19,2 pontos percentuais em 1995 e, em 2005, de 20,9 pontos percentuais; portanto, a divergência de Portugal em relação à média da União Europeia aumentou em 10 anos (1995/2005), em relação à população masculina, em 2,4 pontos percentuais (passou de 28,8 para 31,2) e, em relação à população feminina, em 1,7 pontos percentuais (passou de 19,2 para 20,9) como mostram os dados do quadro I.

 

Em 2005, a percentagem da população masculina com o ensino secundário completo representava apenas 40,4% da população total com idade compreendida entre os 20 e os 24 anos e, relativamente às mulheres, essa percentagem era de 56,6%. Estes valores significam que uma parte importante da população continua a não ter o secundário completo, o que determina que a baixa escolaridade se tende assim a perpetuar em Portugal.

 

O ABANDONO ESCOLAR É MAIS ELEVADO NOS HOMENS DO QUE NAS MULHERES

 

Outro dado importante que reforça a conclusão anterior é o elevado abandono escolar que continua a verificar­‑se em Portugal, o mais elevado em toda a União Europeia, que no entanto é muito maior nos homens do que nas mulheres com mostram os dados do quadro II.

 

QUADRO II – Evolução do abandono escolar em Portugal por

sexos da população com idade entre os 18 e 24 anos: 1994-2005

ANOS

%

de Homens

%

de Mulheres

Diferença H-M

(Pontos percentuais)

1994

49,4%

39,2%

10,2

1995

47,1%

35,5%

11,6

1996

45,6%

34,4%

11,2

1997

46,8%

34,4%

12,4

1998

52,0%

41,2%

10,8

1999

50,8%

38,9%

11,9

2000

50,1%

35,1%

15,0

2001

51,2%

36,7%

14,5

2002

52,6%

37,5%

15,1

2003

47,7%

33,0%

14,7

2004

47,9%

30,6%

17,3

2005

46,7%

30,1%

16,6

FONTE: Eurostat

 

Em 1994, o abandono escolar prematuro entre os jovens com idades entre os 18 e os 24 anos atingia, nos homens, 49,4% e, nas mulheres, 39,2% da população feminina, portanto o abandono escolar masculino era superior ao feminino em 10,2 pontos percentuais.

 

Em 2005, o abandono escolar masculino tinha baixado para 46,7% (apenas menos 2,7 pontos percentuais do que em 1994), enquanto o abandono escolar feminino tinha descido para 30,1% (menos 9,1 pontos percentuais do que o de 1994), o que determinou que, em 2005, o abandono escolar das mulheres fosse inferior ao dos homens em 16,6 pontos percentuais quando, em 1994, essa diferença era de 10,2 pontos percentuais.

 

Em Portugal, como a situação é mais grave em relação aos homens do que relativamente às mulheres, a baixa escolaridade tende-se a perpetuar fundamentalmente a nível dos homens.

 

Portugal continua também a divergir neste campo da média da União Europeia. Em 2005, o abandono escolar atingia, em média, nos 25 países da União Europeia, 12,7% da população feminina com idades entre os 18 e os 24 anos e 17,1 % dos homens com estas idades, quando em Portugal era, respectivamente, 30,1% e 46,7%.

 

A PERCENTAGEM DE MULHERES LICENCIADAS É SUPERIOR À DOS HOMENS E AUMENTA A UM RITMO MAIS ELEVADO

 

O número de mulheres licenciadas tem sido sempre superior ao dos homens, como revelam os dado do quadro III.

        

QUADRO III – Evolução dos diplomados do ensino superior entre 1993 e 1997

ANOS

TOTAL

de diplomados

MULHERES

diplomadas

% Mulheres

em relação ao TOTAL

1996-1997

42 796

27 304

63,8%

1995-1996

39 116

25 125

64,2%

1994-1995

36 410

22 916

62,9%

1993-1994

33 913

21 379

63,0%

FONTE: Anuário Estatístico – 2002 – INE

 

Embora em todos os anos considerados (1993-1997) a percentagem de mulheres diplomadas tenha sido sempre superior à dos homens, o crescimento foi lento (em quatro anos, aumentou 0,8 pontos percentuais). Nos últimos anos esse ritmo de crescimento aumentou, como revelam os dados do quadro IV.

 

QUADRO IV – Diplomados do Ensino Superior total e por áreas

 

ÁREAS

CIENTÍFICAS

2003/2004

PÚBLICO

PRIVADO

TOTAL

TOTAL

%

H

M

H

M

H

M

H+M

Mulheres

Formação Prof. Ciências de Educação

1.185

6.334

487

4.160

1.672

10.494

12.166

86,3%

Artes

817

1.256

431