Informação Alternativa

Portugal

10/01/2006

 

Garantir a sustentabilidade da Segurança Social a médio e a longo prazo

 

Eugénio Rosa

 

O MINISTRO DAS FINANÇAS MANIPULA OS DADOS SOBRE A SEGURANÇA SOCIAL

 

Mais uma vez o programa Prós e Contra da televisão pública do dia 9 de Janeiro prestou um mau serviço de informação ao País. Como habitualmente tem acontecido, seleccionou um conjunto de participantes, que tinham mais ou menos a mesma opinião, que previamente era a única que se queria transmitir. Mesmo a nível sindical escolheu­‑se um sindicato que representa menos de 10.000 trabalhadores, em substituição dos grandes sindicatos da função pública que representam a maioria dos 750.000 trabalhadores da Administração Pública.

 

Nesse programa, o sr. ministro das Finanças, aproveitando esse espaço público e manipulando dados sobre a Segurança Social procurou criar a ideia nos portugueses que daqui a 10 anos, portanto em 2015, já não haveria dinheiro para pagar as pensões de reforma. Esta afirmação não corresponde à verdade, revela uma grande ignorância intencional ou real da Segurança Social, tendo como objectivo claro, tal como sucedeu em relação à segurança social da Administração Pública, justificar medidas que o governo está a preparar, agora contra os trabalhadores por conta de outrém das empresas privadas, cujas prestações que recebem da Segurança Social são já das mais baixas da União Europeia.

 

É FALSO QUE ESTEJA EM PERIGO O PAGAMENTO DAS PENSÕES DE REFORMA

 

O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, que é uma reserva da Segurança Social, já ultrapassa os 5.000 milhões de euros, ou seja, mais de 1.000 milhões. Mesmo na situação de grave crise em que o País está mergulhado, consequência também da política de obsessão pelo défice, o défice da Segurança Social em 2005 foi reduzido e, de acordo com o Orçamento da Segurança Social para 2006 apresentado pelo governo e aprovado pela Assembleia da República, prevê-se este ano um défice nulo. Portanto, o fundo de reserva da Segurança Social é mais do que suficiente para se ter tempo para implementar medidas visando garantir a sustentabilidade financeira da Segurança Social a médio e a longo prazo, porque a curto prazo ela não está certamente em perigo como o ministro pretendeu fazer crer. O alarmismo que o governo está a pretender criar com declarações como as feitas pelo ministro das Finanças visa sobretudo justificar medidas do mesmo tipo que o governo tomou contra os trabalhadores da Administração Pública, agora contra os trabalhadores das empresas privadas.

 

A SITUAÇÃO CONJUNTURAL DIFÍCIL DA SEGURANÇA SOCIAL RESULTA DA CRISE ECONÓMICA QUE É AGRAVADA PELA POLÍTICA DO GOVERNO DE OBSESSÃO PELO DÉFICE

 

Os dados do quadro I mostram as consequências para a Segurança Social da estagnação económica que atingiu Portugal, que está a ser agravada pela política do governo centrada na obsessão pelo défice.

 

QUADRO I – Aumento da despesa com o subsídio de

desemprego e das contribuições para a Segurança Social

 

ANOS

 

Despesas com o subsídio de desemprego

Receitas de contribuições

Milhões

Euros

Aumento

Anual – %

Milhões

Euros

Aumento

Anual – %

1996

693

 

6.075

 

1997

716

3,2%

6.391

5,2%

1998

670

-6,5%

7.233

13,2%

1999

698

4,2%

8.031

11,0%

2000

798

14,3%

8.729

8,7%

Aumento 1996-2000

15,1%

 

43,7%

 

2001 (E)

869

8,9%

9.687

 

2002 (E)

1.105

27,1%

10.138

4,7%

2003 (E)

1.526

38,1%

10.387

2,5%

2004 (E)

1.663

8,9%

10.429

0,4%

2005 (E)

1.798

8,2%

10.887

4,4%

Aumento 2001-2005

106,9%

 

12,4%

 

2006

1.886

4,9%

11.438

 

FONTE: Relatórios OE de 1997 a 2006

 

Entre 1996 e 2000, portanto em cinco anos, a despesa com o pagamento de subsídios de desemprego aumentou 15,1%, enquanto nos cinco anos seguintes (2001/2005) cresceu 106,9%. Pelo contrário, durante o primeiro período (1996/2000) as receitas da Segurança Social que têm como origem as “Contribuições” pagas pelas empresas e pelos trabalhadores cresceram 43,7%, enquanto no segundo período (2001/2005) aumentaram apenas 12,4%.

 

É evidente que a quebra no crescimento destas receitas e o aumento rápido das despesas com o pagamento de subsídios de desemprego é uma consequência da grave crise económica e social que enfrenta neste momento o país, determinada também pela política governamental centrada na obsessão pelo défice.

 

Bastaria que o aumento em percentagem das despesas com o pagamento de subsídios de desemprego entre 2001-2005 tivesse sido semelhante ao verificado no período anterior (1996-2000), ou seja, em 15,1%, para que em 2005, por ex., a despesa com o pagamento do subsídio de desemprego tivesse sido inferior em 800 milhões de euros, ou seja, teria havido um saldo positivo que seria suficiente para cumprir a Lei de Bases da Segurança Social relativamente às transferências para o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, que não tem sido respeitada pelo governo, nomeadamente pelo governo de Sócrates.

 

ENTRE 1975 E 2004, O NÚMERO DE ACTIVOS POR PENSIONISTA DIMINUIU 2,3 VEZES, MAS A RIQUEZA CRIADA POR CADA TRABALHADOR AUMENTOU 41 VEZES

 

Um dos argumentos mais uma vez utilizados pelo sr. ministro das Finanças para criar o alarmismo, é a diminuição do número de activos por pensionista.

 

No entanto, por esquecimento propositado ou por ignorância, não se refere que o aumento da riqueza criada por empregado tem sido muito maior que a diminuição do número de activos por pensionista. Os dados do quadro seguinte provam isso cabalmente.

 

QUADRO II – Evolução do PIB por empregado e da

remuneração por empregado entre 1953 e 2004 em euros

ANOS

Milhões euros

Emprego

Mil

Valor empregado – Euros

PIBpm

Ordenados

e salários

PIBpm

Ordenados

e salários

Diferença

PIB-OS

1953

294

135

3.144

94

43

51

1973

1.710

810

3.796

450

213

237

1974

2.024

1.063

3.781

535

281

254

1975

2.343

1.382

3.657

641

378

263

1987

28.909

10.266

4.191

6.898

2.450

4.448

1995

79.373

27.769

4.404

18.023

6.306

11.718

1996

86.230

32.713

4.629

18.628

7.067

11.561

1998

100.963

37.848

4.868

20.740

7.775

12.965

2002

128.458

50.118

5.096

25.210

9.836

15.374

2004

135.187

53.996

5.134

26.332

10.518

15.815

N.º vezes 2004 > 53

459

401

 

281

245

 

Diferença em euros entre valor de 2004 e de 1953

26.238

10.475

 

Fonte: Banco de Portugal

 

Entre 1953 e 2004, a riqueza criada por trabalhador cresceu 281 vezes e a remuneração por trabalhador aumentou apenas 245 vezes. Mas como os valores base de 1953 são muito diferentes – em 1953 o valor do PIB por empregado é mais do dobro do valor da remuneração por empregado – o resultado final em 2004 apresenta diferenças maiores que a simples comparação dos números apresentados anteriormente (281/245) permite concluir. Efectivamente, se analisarmos as diferenças em euros, entre 1953 e 2004, concluímos que em relação ao PIB por empregado é de 26.238 euros enquanto relativamente às remunerações por empregado é de 10.475 euros, ou seja, menos de metade.

 

De acordo com o Anuário da Segurança Social e as Estatísticas da Segurança Social, entre 1975 e 2004, o número de activos por pensionista baixou de 3,78 para 1,63, portanto diminuiu 2,3 vezes. No entanto, durante o mesmo período (1975/2004), o PIB por empregado, ou seja, a riqueza criada por empregado aumentou 41 vezes, pois passou de 641 euros para 26.332 euros como mostram os dados do quadro anterior.

 

AS LIMITAÇÕES DO ACTUAL SISTEMA DE FINANCIAMENTO DA SEGURANÇA SOCIAL EM PORTUGAL

 

O actual sistema de financiamento do Regime Geral da Segurança Social, chamado também subsistema Previdencial, que abrange os trabalhadores por conta de outrém assenta fundamentalmente em quotizações dos trabalhadores e nas contribuições das empresas calculadas com base nas remunerações pagas.

 

É um sistema cuja concepção e implementação foram realizadas há mais de 50 anos, quando a realidade das empresas, da economia e da sociedade eram muito distintas das actuais. É um sistema que assenta no princípio, que se adequava à realidade da altura, de que as empresas que criavam mais riqueza eram aquelas que tinham mais empregados, ou seja, empresas de trabalho intensivo, existindo uma correlação positiva entre riqueza criada e número de trabalhadores empregados.

 

A realidade actual é muito diferente, pois agora são fundamentalmente as empresas de capital e conhecimento intensivo as que criam mais riqueza, não se verificando, tal como sucedia no passado, uma correlação positiva entre riqueza criada e número de trabalhadores empregados, mas sim entre riqueza criada e intensidade de conhecimento e investimento utilizado.

 

Esta alteração profunda na estrutura produtiva das empresas e nas sociedades modernas está a determinar que o valor da riqueza criada esteja a aumentar mesmo em Portugal muito mais rapidamente do que o valor das remunerações, o que é agravado pelo aumento da desigualdade na repartição da riqueza produzida, como mostram os dados do quadro seguinte.

 

QUADRO III – Crescimento do PIBpm (Produto Interno Bruto a

preços de mercado) e dos “Ordenados e salários” entre 1953 e 2004

 

Milhões euros

% que salários e ordenados representam do PIB

ANOS

PIBpm

Ordenados

e salários

 

1953

294

135

45,8%

1973

1.710

810

47,4%

1974

2.024

1.063

52,5%

1975

2.343

1.382

59,0%

1995

79.373

27.769

35,0%

1996

86.230

32.713

37,9%

2002

128.458

50.118

39,0%

2004

135.187

53.996

39,9%

N.º vezes que 2004 maior que 1953

459,4

400,7

 

Aumento em milhões euros do PIBpm e dos “Ordenados e salários”

134.893

53.861

 

Fonte: Séries longas – Banco de Portugal

 

Entre 1953 e 2004, o valor da riqueza criada, medida pelo PIBpm, cresceu 459 vezes, enquanto o valor das remunerações aumentou 400 vezes. Mas como, em 1953, o valor do PIB era mais do dobro do valor dos “ordenados e salários”, a diferença no resultado final é muito maior do que aquela com que se fica com a simples análise dos dois valores anteriormente apresentados (459 e 400 vezes). Basta dizer que, entre 1953 e 2004, a riqueza produzida cresceu 134.893 milhões de euros, enquanto as remunerações aumentaram apenas 53.861 milhões de euros, ou seja, 2,5 vezes menos.

 

Como as contribuições patronais para a segurança social são calculadas com base nas remunerações, e como estas estão a crescer a um ritmo inferior ao aumento da riqueza, é evidente que a base de cálculo das contribuições das empresas está-se a estreitar, sendo uma percentagem cada vez mais pequena da riqueza criada, o que determina que o financiamento da segurança social assente em tal fórmula de cálculo se esteja a esgotar, criando dificuldades crescentes à sustentabilidade financeira da Segurança Social.

 

OS ENCARGOS DAS EMPRESAS COM A SEGURANÇA SOCIAL NÃO SÃO A CAUSA DA BAIXA COMPETITIVIDADE DAS EMPRESAS PORTUGUESAS

 

Um dos ataques mais frequentes em Portugal contra a Segurança Social pública é que as contribuições pagas pelas empresas são exageradamente elevadas no nosso País quando as compararmos com a média da União Europeia. O quadro seguinte, construído com dados publicados pelo Eurostat em 2005, prova que isso também não corresponde à verdade.

 

QUADRO IV – Percentagem do PIB que as cotizações e contribuições para

a segurança social representam em média na União Europeia e em Portugal

 ANOS

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

UE25

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