Informação Alternativa

Portugal

21/12/2005

 

A 2ª versão do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC2) agravará a crise económica e determinará a degradação dos serviços públicos essenciais para a população

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

O governo apresentou na Assembleia da República, no mês de Dezembro de 2005, uma 2ª versão do chamado Programa de Estabilidade e Crescimento (o PEC2) que altera a 1ª versão que tinha apresentado em Junho de 2005 (o PEC1). Aquele programa, e as medidas que o governo se propõe aplicar para o executar, irão afectar profundamente a vida dos portugueses em 2006 e nos anos seguintes. Como estamos nos últimos dias de 2005, interessa conhecer o que o futuro e a política do governo reservam para os portugueses.

 

A 2ª versão do Programa de Estabilidade e Crescimento apresentada pelo governo altera para pior todos os indicadores macro­‑económicos – crescimento do PIB, investimento, exportações, etc. – constantes da 1ª versão, o que vem, por um lado, mais uma vez, desacreditar as previsões oficiais quer do governo quer de outras entidades oficiais quer ainda dos “gurus” do pensamento económico neoliberal dominante e, por outro lado, confirmar que a política de obsessão do défice só está a tornar ainda mais grave a crise económica e social que o País enfrenta.

 

Apesar do agravamento da crise, para cumprir a redução do défice prometida a Bruxelas, o governo, na 2ª versão do Programa de Estabilidade e Crescimento que apresentou em Dezembro, agrava as medidas anunciadas em Junho de 2005 para reduzir o défice, o que determinará um aumento de receitas do Estado pagas fundamentalmente pelos trabalhadores pois, no período 2005-2009, passarão de 12.740 milhões de euros previstas no PEC1 para 13.708 milhões de euros previstas no PEC2, ou seja, aumentarão mais 968 milhões de euros. E como o governo não altera a grave injustiça fiscal existente serão fundamentalmente os trabalhadores que terão de suportar este aumento da receita. Em relação a cortes nas despesas da Administração Pública que na 1ª versão do Programa de Estabilidade e Crescimento já atingiam 9.105 milhões de euros, na versão de Dezembro sobem para 11.195 milhões de euros, ou seja, mais 2.090 milhões de euros. É evidente que este agravamento das medidas determinadas apenas pela obsessão do défice, num período em que o País enfrenta já uma grave crise económica e social, só poderá contribuir para tornar mais profunda e prolongada a crise e dificultar a “retoma”.

 

A análise das taxas de crescimento da Economia Mundial, da Economia da União Europeia e da Economia Portuguesa, constantes das duas versões do Programa de Estabilidade e Crescimento, leva à seguinte conclusão: a taxa de crescimento da economia da União Europeia tem sido e prevê-se que continue a ser metade da taxa de crescimento da economia mundial; e a taxa de crescimento da Economia Portuguesa tem sido e prevê-se que continue a ser menos de metade da taxa de crescimento da economia da União Europeia, sendo evidente a tendência crescente para o agravamento da situação económica e social portuguesa. Tudo isto só poderá determinar mais desemprego, menor poder de compra, e mais dificuldades no futuro para os portugueses.

 

Face a esta dualidade de taxas de crescimento que está a afastar cada vez mais Portugal quer da Economia Mundial quer da economia da União Europeia, torna-se necessário repensar e mudar a política que está a ser seguida, pois ela está a conduzir o País para a estagnação e mesmo para a recessão económica prolongada. Mas para que essa mudança seja possível é necessário libertá-la das amarras do pensamento económico neoliberal dominante.

 

O governo apresentou na Assembleia da República em Dezembro de 2005, portanto há poucos dias, uma 2ª versão do Programa de Estabilidade e Crescimento (o PEC2). E isto depois de ter apresentado, em Junho de 2005, a 1ª versão do Programa de Estabilidade de Crescimento (PEC1). Este Programa, e as medidas que o governo tenciona implementar para o executar visando a redução do défice, vão ter nos próximos anos consequências profundas não só na vida dos trabalhadores da Administração Pública mas de todos os trabalhadores portugueses, por isso interessa conhecê-lo.

 

Durante o debate do Orçamento do Estado para 2006, realizado em Novembro de 2005, o governo afirmou repetidamente que o cenário macro­‑económico que serviu de base à elaboração da Proposta do Orçamento, que era no essencial o do PEC1, continuava válido.

 

No entanto, não passou um mês depois daquelas declarações solenes, e o governo deu o dito por não dito, apresentando uma nova versão do Programa de Estabilidade e Crescimento (o PEC2) em que, por um lado, altera, para pior, os principais indicadores macro­‑económicos que serviram de base à Proposta do Orçamento para 2006 que foi aprovada pelo PS na Assembleia da República e, por outro lado, agrava medidas para satisfazer a obsessão do défice que só poderão provocar um maior agravamento da crise económica e social em que o País se debate e a degradação de serviços públicos essenciais para população, nomeadamente saúde, segurança social, justiça e educação. É tudo isto que iremos procurar mostrar neste estudo com base na análise dos documentos apresentados pelo governo na Assembleia da República em Dezembro de 2005, ou seja, com base no PEC1 e no PEC2.

 

ALTERAÇÃO, PARA PIOR, DOS PRINCIPAIS INDICADORES ECONÓMICOS

 

Uma das situações mais caricatas a que o País tem assistido este ano é a apresentação, com pompa e circunstância, de previsões de crescimento económico, de investimento, de exportações, etc., pelos chamados “economistas de referência” do neoliberalismo, que dominam o pensamento económico único em Portugal, e também pelos sucessivos ministros de economia e das finanças, com o ar de verdades certas e inquestionáveis, para passados poucos meses, quando não mesmo dias, virem apresentar novas previsões, com a mesma pompa e circunstância, que desdizem, sempre para pior, as apresentadas anteriormente.

 

Para que o leitor possa ficar com uma ideia da dimensão e da frequência dessas mudanças de previsões que se têm sucedido ao longo do ano de 2005, vamos recordar o que se verificou sobre a previsão do crescimento económico para 2005, medida pela previsão do aumento do PIB.

 

Em Setembro de 2004, no Orçamento de Estado para 2005, a previsão constante dele é que o PIB cresceria, em 2005, 2,4%; depois, no chamado Relatório Vítor Constâncio apresentado em Maio de 2005, o crescimento previsto para 2005 era já apenas de 1%; no Programa de Estabilidade e Crescimento apresentado pelo governo em Junho de 2005, portanto poucos dias depois do Relatório Constâncio, a previsão de crescimento do PIB já era somente de 0,8%; na Proposta de Orçamento do Estado para 2006, o crescimento do PIB em 2005 já era de 0,5%; e, em Outubro de 2005, segundo o Banco de Portugal, o crescimento em 2005 será apenas de 0,3%, ou seja, um oitavo da previsão constante do Orçamento do Estado para 2005, que era de 2,4%.

 

Comparemos agora os valores dos indicadores macro­‑económicos constantes do PEC1 (versão do Programa de Estabilidade e Crescimento de Junho de 2005) com os do PEC2 (versão de Dezembro de 2005), portanto previsões do governo com poucos meses de diferença. Para facilitar tal comparação elaborou-se um quadro com os principais dados constantes das duas versões que se apresenta seguidamente.

 

QUADRO I – Alterações dos valores dos principais indicadores macro­‑económicos segundo o

PEC1 (versão de Junho de 2005) e o PEC2 (versão de Dezembro de 2005) – Taxa de variação

RUBRICAS

2004

2005

2006

2007

2008

2009

PEC1

PEC2

PEC1

PEC2

PEC1

PEC2

PEC1

PEC2

PEC1

PEC2

PEC1

PEC2

PORTUGAL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PIB

1,0%

1,2%

0,8%

0,5%

1,4%

1,1%

2,2%

1,8%

2,6%

2,4%

3,0%

3,0%

Consumo Privado

2,3%

2,5%

1,7%

2,3%

1,2%

1,3%

1,7%

1,5%

2,1%

2,2%

2,5%

2,5%

Consumo Público

1,2%

2,4%

0,6%

0,8%

0,3%

–1,3%

0,3%

–0,8%

0,3%

–0,9%

0,3%

–1,0%

Investimento (FBCF)

2,1%

0,6%

1,9%

–2,1%

3,0%

1,7%

5,1%

3,6%

6,7%

5,7%

7,9%

7,8%

Exportações de bens e serviços

5,1%

4,6%

3,3%

1,2%

6,5%

5,7%

8,1%

6,1%

7,9%

6,5%

7,9%

7,2%

Importações de bens e serviços

7,0%

6,7%

4,0%

2,1%

5,1%

4,2%

6,4%

4,3%

7,0%

5,6%

7,7%

6,4%

Taxa de desemprego

6,7%

6,7%

7,4%

7,4%

7,7%

7,7%

7,6%

7,7%

7,3%

7,4%

6,9%

7,0%

Taxa variação emprego

0,1%

0,1%

0,4%

0,1%

0,7%

0,6%

1,1%

0,9%

1,3%

1,2%

1,5%

1,5%

PEC1: Plano de Estabilidade e Crescimento 2005-2009 – Apresentado pelo governo em Junho de 2005

PEC2: Plano de Estabilidade e Crescimento 2005-2009 – Apresentado pelo governo em Dezembro de 2005

 

Assim, num intervalo de apenas 5 meses (Jun2005 a Dez2005), a taxa de crescimento económico em Portugal, medida pelo aumento do PIB, diminuiu em todos os anos em que foram feitas previsões (2005-2008), com excepção de 2009. Em 2005, passa de 0,8% para 0,5%, portanto ainda superior à ultima previsão do Banco de Portugal que é apenas de 0,3%, o que leva à conclusão de que a previsão do governo terá novamente de ser corrigida; em 2006, passa de 1,4% para 1,1%; em 2007, desce de 2,2% para 1,8%; e, em 2008, diminui de 2,6% para 2,4%.

 

Em relação ao investimento, que é essencial para criar emprego e modernizar a economia, a quebra é muito mais acentuada, verificando-se diminuição em todos os anos, incluindo 2009, o que só poderá contribuir para o agravamento da crise económica e social e para a degradação do sistema produtivo nacional. Em 2005 passa de um crescimento, que já era reduzido, de 1,9% para uma quebra de –2,1%; em 2006, desce de 3% para apenas 1,7%; em 2007, desce de 5,1% para apenas 3,6%, etc., etc.. E isto tudo depois de se ter verificado em 2003 uma quebra superior a –10%, redução esta que não será certamente recuperada com estes crescimentos reduzidos.

 

A nível das exportações, que são consideradas pelo governo como o motor da retoma da Economia Portuguesa, o panorama não é melhor. Em todos os anos, a previsão de crescimento das exportações é corrigida para pior, ou seja, a taxa de crescimento prevista no PEC2 é inferior, em todos os anos, à constante no PEC1.

 

Em relação ao consumo interno, que tem funcionado no passado como um motor da retoma e do crescimento, a previsão em relação ao consumo publico é de uma quebra continuada e, relativamente ao consumo privado, apesar do governo prever que ele vai aumentar, é fácil de concluir que o ritmo de crescimento não poderá ser elevado face às restrições que o governo e entidades patronais querem impor ao crescimento dos salários, devido ao elevado endividamento das famílias portuguesas e ao aumento rápido das desigualdades sociais.

 

Em resumo, as últimas previsões apresentadas pelo governo, constantes da 2ª versão do chamado Programa de Estabilidade e Crescimento (o PEC2), são a confirmação do fracasso da política que tem sido seguida de obsessão do défice que está a conduzir o País para a estagnação económica, quando não mesmo a recessão económica.

 

Toda esta política dominada pela obsessão do défice assenta numa grande mentira económica, que é a seguinte: conseguida a redução do défice, os problemas estruturais da nossa economia e da nossa sociedade resolver­‑se­‑iam por si, por livre actuação daquilo que chamam “os mercados”, como por milagre. Isto não está provado e não é verdade para uma economia frágil e dependente como é a nossa.

 

A DEGRADAÇÃO DA QUALIDADE DE SERVIÇOS PÚBLICOS PRESTADOS À POPULAÇÃO

 

Como a Economia Portuguesa está a crescer ainda menos do que aquilo que os “gurus” do pensamento económico neoliberal dominante e o governo previam, as estimativas de receitas fiscais constantes do Orçamento do Estado para 2006 estão-se a revelar demasiadamente optimistas, e o governo, dominado pela obsessão do défice (alcançar a redução do défice orçamental de 6,2% em 2005, para 4,8% em 2006 e 1,6% do PIB em 2009 sejam quais forem as circunstâncias), decidiu cortar ainda mais nas despesas públicas, pouco se importando das consequências para o País e para os portugueses de tal política de cortes.

 

O quadro seguinte, construído com os dados do PEC1 e do PEC2, mostra os aumentos de receita e a redução de despesas que resultam das medidas previstas no PEC1 e no PEC2 anunciadas pelo governo para reduzir, de qualquer forma, o défice orçamental.

 

QUADRO II – Efeitos nas receitas e nas despesas em cada ano do período 2005-2009

das medidas constantes do PEC1 e do PEC2 para reduzir o défice orçamental

RUBRICAS

Milhões de euros

2005

2006

2007

2008

2009

PEC1

PEC2

PEC1

PEC2

PEC1

PEC2

PEC1

PEC2

PEC1

PEC2

AUMENTOS DAS RECEITAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imposto sobre Rendimento e património

150

150

525

605

725

815

775

875

825

925

IVA

530

530

1.200

1.220

1.200

1.220

1.200

1.220

1.200

1.220

ISP (Imposto sobre os combustíveis)

0

0

210

200

420

400

630

600

630

600

IT (Imposto sobre o tabaco)

0

0

180

110

360

260

540

410

720

560

Contribuições SS

30

130

110

270

110

405

210

463