Informação Alternativa

Portugal

04/12/2005

 

O Orçamento do Estado para 2006 e a crise económica e social em Portugal

 

Eugénio Rosa

 

RESUMO DESTE ESTUDO

 

Em 2006, o investimento público feito através do PIDDAC diminuirá, relativamente ao de 2005, em –27,8%, mesmo em valores nominais, pois a preços constantes de 2005 a redução é muito superior. Para além disso, se a análise for feita por distritos, conclui-se que a redução é feita de uma forma muito desigual, atingindo fortemente os distritos menos desenvolvidos do País. Por ex., a redução no investimento público num único ano (2005/2006) no distrito de Beja atinge –32,2%; no de Braga: –39,4%; no de Bragança: –37,5%; no de Évora: –30,4%; no de Portalegre: –35,3%; no de Viana do Castelo: –35,3%; no de Vila Real: –42,3%; e no de Viseu: –40,7%; portanto, reduções muito superiores à redução média registada para todo o País (–27,8%), o que determinará o agravamento das já graves assimetrias regionais.

 

Portugal é o país da União Europeia onde o nível de escolaridade da população é mais baixo (79,4% tem apenas o ensino básico ou menos; apenas 11,3% possui o secundário e somente 9,4% o ensino superior) e onde o abandono escolar prematuro é mais elevado (em 2004, atingia 39,4% em Portugal, quando a média em todos os países da União Europeia alcançava apenas 15,7%). No entanto, no Orçamento do Estado para 2006, o valor orçamentado para o “ensino básico e secundário” diminui em –0,5% e, para o ensino superior, desce em –2,5%. E isto em valores nominais, porque em valores reais a diminuição é muito mais elevada. Tudo isto sucede quando, devido ao atraso em que se encontra o País neste campo, era necessário investir muito mais, mas a obsessão do défice falou mais alto.

 

De acordo com o Orçamento para 2006, o Estado Português vai gastar no próximo ano mais com o Campeonato Mundial de Vela e com o Paris-Dakar (7.000.000 de euros) do que com o Metro de Lisboa (5,9 milhões de euros) onde os atrasos por “razões técnicas” são cada vez mais frequentes e onde a insuficiência do material circulante e da linha, que ainda não chega aos concelhos da Área Metropolitana de Lisboa com maior concentração de população que todos os dias se têm de deslocar de uma forma pendular (ida de manhã e regresso à noite) para o concelho de Lisboa por razões de trabalho e de estudo, é cada vez mais visível.

 

O Orçamento de Estado é um documento que define as prioridades do governo e as políticas para implementar essas prioridades.

 

A análise do OE2006 apresentado pelo governo, que o PS acabou de aprovar sozinho na Assembleia da República, estabelece como prioridade absoluta a redução do défice orçamental de 6,2% do PIB para 4,8% do PIB. E, para a cumprir, define políticas que têm como objectivo fundamental reduzir de uma forma cega as despesas do Estado, como se vai mostrar.

 

O INVESTIMENTO PÚBLICO VAI DIMINUIR EM 2006, E AS DESIGUALDADES REGIONAIS VÃO-SE AGRAVAR

 

É necessário investir mais, nomeadamente investimentos de qualidade, para criar riqueza e emprego, e para aumentar a produtividade e a competitividade da Economia Portuguesa.

 

Em 2003, o investimento global no País diminuiu em mais de –10%; em 2004, cresceu apenas 1,3%; em 2005, a previsão inicial era um aumento de 5,2%, mas a última estimativa do Banco de Portugal de Novembro de 2005 era já uma diminuição de –2,8%. Como é evidente, a quebra continuada no investimento contribui para o agravamento da crise económica e também social, porque sem investimento o desemprego vai continuar a aumentar rapidamente. Face a esta situação, que é grave, era necessário que o Estado desse um sinal fortemente positivo com o objectivo de dinamizar o investimento privado. No entanto, dominado pela obsessão do défice, e portanto com o objectivo de o reduzir, o governo dá precisamente um sinal contrário daquele que era necessário que desse, reduzindo significativamente o investimento público, como mostram os dados do quadro seguinte:

 

QUADRO I – Plano de Investimentos da Administração Central

 

DISTRITOS

PIDDAC – Milhões euros – Valores nominais

VARIAÇÃO em % entre

2001

2002

2005

2006

2001 e 2006

2002 e 2006

2005 e 2006

Total PIDDAC

6.191

6.639

6.724

4.854

-21,6%

-26,9%

-27,8%

Continente

4.931

5.334

6.245

4.432

-10,1%

-16,9%

-29,0%

Aveiro

284

285

255

219

-22,8%

-23,1%

-13,9%

Beja

160

186

135

91

-42,9%

-51,0%

-32,2%

Braga

284

358

183

111

-61,1%

-69,1%

-39,4%

Bragança

120

125

95

59

-50,6%

-52,7%

-37,5%

Castelo Branco

145

148

125

127

-12,1%

-14,0%

2,1%

Coimbra

198

218

232

169

-14,9%

-22,7%

-27,2%

Évora

133

136

152

106

-20,3%

-22,2%

-30,4%

Faro

240

334

262

172

-28,5%

-48,5%

-34,5%

Guarda

93

99

103

75

-19,0%

-24,2%

-27,3%

Leiria

186

151

120

92

-50,6%

-39,1%

-23,6%

Lisboa

1.071

1.233

1.170

766

-28,5%

-37,9%

-34,5%

Portalegre

89

92

86

56

-37,7%

-39,7%

-35,3%

Porto

839

1.022

1.202

542

-35,4%

-47,0%

-54,9%

Santarém

207

199

233

150

-27,5%

-24,7%

-35,7%

Setúbal

475

364

220

193

-59,5%

-47,1%

-12,5%

V. Castelo

110

119

55

35

-67,8%

-70,1%

-35,3%

Vila Real

132

96

106

61

-53,6%

-36,1%

-42,3%

Viseu

164

168

126

75

-54,5%

-55,5%

-40,7%

FONTE: PIDDAC – Orçamento do Estado – 2001, 2002, 2005 e 2006

 

O investimento público realizado através do PIDDAC para 2006 é inferior ao de 2005 em –27,8%. Se a comparação for feita não com o Orçamento inicial de 2005, como se acabou de fazer, mas sim com o Orçamento do Estado rectificativo para 2006 (aquele que já foi elaborado pelo governo de Sócrates), a diminuição do investimento em 2006 não deixa de ser significativa. O PIDDAC constante do Orçamento rectificativo previa investimentos no valor de 6.506 milhões de euros, enquanto o de 2006 só prevê um valor de apenas 4.854 milhões de euros, ou seja, menos 25,4%.

 

Se compararmos o investimento previsto para 2006 mesmo com o previsto quer para 2001 (governo PS) quer para 2002 (governo PSD/PP), a redução não deixa de ser grande: em relação ao de 2001: –21,6%; relativamente ao de 2002: –26,9%. E esta comparação é feita em valores nominais, portanto sem entrar em conta com a taxa de inflação, pois, se fosse a preços constantes, em qualquer um dos casos a diminuição atingiria cerca de um terço.

 

Para além disso, se se analisar a repartição por distritos, conclui-se que a diminuição é muito desigual, sendo distritos pouco desenvolvidos os mais atingidos, o que só agravará as assimetrias (desigualdades) regionais. Por exemplo, entre 2001 e 2006, o investimento público realizado através do PIDDAC, em valores nominais, diminui –42,9% em Beja, –61,1% em Braga; em Bragança: –50,6% em Viana do Castelo: –67,8%; em Vila Real: –53,6%; em Viseu: –54,5%; quando a redução a nivel do País foi de –21,6%.

 

PORTUGAL É O PAÍS DA UNIÃO EUROPEIA COM MAIS BAIXA ESCOLARIDADE E ONDE O ABANDONO ESCOLAR É MAIOR

 

Uma das causas estruturais da grave crise económica e social que o País enfrenta é precisamente a baixa escolaridade da população portuguesa. Enquanto este problema estrutural não for resolvido, Portugal terá muitas dificuldades em sair do estado de atraso em que se encontra.

 

O quadro seguinte mostra a gravidade da situação portuguesa quando a comparamos com a dos países da União Europeia.

 


QUADRO II – Em Portugal o nível de escolaridade é mais baixo e o

abandono escolar é o mais elevado entre os países das União Europeia

 

Nível de Educação – 2002

Abandono

PAÍSES

% da população com ensino

Escolar em 2004

 

Básico

Secundário

Superior

População 18-24 anos

UE15

35,4%

42,9%

21,8%

17,8%

UE25

 

 

 

15,7%

PORTUGAL

79,4%

11,3%

9,4%

39,4%

República Checa

12,2%

76,0%

11,6%

6,1%

Estónia

12,5%

57,9%

29,6%

13,7%

Letónia

17,4%

63,1%

19,6%

15,6%

Lituânia

15,2%

40,7%

44,6%

9,5%

Hungria

28,6%

57,3%

14,1%

12,6%

Polónia

19,2%

68,6%

12,2%

5,7%

Eslovénia

23,2%

62,1%

14,8%

4,2%

Eslováquia

14,2%

75,0%

10,8%

7,1%

FONTE: Eurostat

 

Quando comparamos com base na linguagem fria dos números a situação portuguesa com a dos outros países da União Europeia, nomeadamente com o nível de escolaridade dos 10 países que entraram para a U.E. em Março de 2004, que são os principais concorrentes dentro da União Europeia com o nosso País, a conclusão é extremamente preocupante. Por ex., na população com o ensino secundário, que é o mínimo necessário actualmente, a percentagem portuguesa é cerca de 3,8 vezes inferior à média da União Europeia, e a do ensino superior é 2,3 vezes inferior.

 

E se juntarmos a isto um outro dado recente divulgado pelo Eurostat, o alarme é ainda maior. Em 2004, a percentagem de jovens com idade entre os 20 e os 24 anos com o secundário completo atingia, em média, nos 25 países da União Europeia, 76,7%, enquanto em Portugal era apenas 49%; por outras palavras, no nosso País apenas 49 em cada 100 jovens com idade compreendida entre os 20 e os 24 anos têm o ensino secundário completo. E o secundário está actualmente como a 4ª classe estava há 50 anos. O secundário completo é a base mínima necessária para Portugal poder passar de um modelo de crescimento baseado no trabalho pouco qualificado e mal remunerado, que é o actual e está esgotado, para um modelo assente em trabalho qualificado e de salários europeus.

 

AS DESPESAS COM O ENSINO BÁSICO E SECUNDÁRIO E COM O ENSINO SUPERIOR VÃO DIMINUIR NO ANO 2006 EM PORTUGAL

 

Face a esta situação alarmante e estrutural que o País enfrenta, seria de esperar que o Estado fizesse um grande esforço para resolver este gravíssimo problema, que levará certamente muitos anos, mas que era urgente não perder mais tempo. No entanto, a obsessão do défice também dominou neste campo, e o Orçamento do Estado para 2006 reduz, relativamente a 2005, os valores orçamentados quer para o “Ensino básico e secundário” quer para o “Ensino superior” (Universidades e Institutos Politécnicos), como mostram os dados do quadro seguinte.

 

QUADRO III – Despesas com a Educação e o Ensino Superior diminuem em Portugal

DESIGNAÇÃO

2005

2006

Variação

Estimativa

OE

2005-06

Milhões euros

Milhões euros

em %

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO